Existe uma história nunca antes contada, essa história ainda virá à tona, ela se derreterá em palavras, que perdidas em eleger-se as melhores acabam por não decidir quais escolher. Essa história algumas vezes já foi testada à prova, e ainda que recente e relida várias vezes, precisou aderir ao seu prefácio o resumo do que em sua verdadeira história, seu texto maior, tentou consertar, como consciência plena de um erro divino. Pois, antes que interessada em provar algo a alguém, queria mesmo descobrir onde tantos problemas hoje diagnosticados um dia encaixaram-se em certezas das mais sóbrias, ou, como queiram dizer, das mais justas e poéticas.

Esse tempo, que ao hoje já não pertence, foi deixado em sequelas curvadas em dores, suando em ódio e sangrando em lampejos historiais sob as feridas que este mesmo tempo abriu com a mesma facilidade que o mar provoca suas ondas, mas não encontra, assim como ele, sentido pra narrar-se de outra forma.

Confuso em si, este capítulo buscava seus sinônimos, em meio aos antagonistas certos que hoje são apontados em dedos por qualquer pessoa sã. Onde o riso antes tinha sua residência, hoje mora seu parente consequente, a vergonha, que passa a usar esta casa não mais por luxúria, mas para esconder-se de si, como se isso a fizesse se esquecer daquilo que fez.

Havia assim uma dívida que este mártir, nomeado negro, teria que cobrar. Em seu preço seria paga não a recompensa materializada em qualquer espécie, seja uma dor em igualdade, ou a consciência e o perdão eterno; o custo de um erro de proporções marcantemente cruéis e negativos teriam como troca o imensurável ódio a si, de prazo infinito a pagar também para consigo.

Em consequência, esta história faz uma pausa à sua narrativa histórica, e através da tela ganha as cores da realidade que antes se via somente em preto e branco. De um passado hediondo, hoje evocado em bom-senso em clamar a igualdade, esta história ganha às cores, das quais antes se fez discriminada, para esclarecer e pontuar a capacidade e o limite negativo que certas conclusões podem ocasionar. Ainda longe de receber um ponto final, muito menos que o seja feliz, num contexto social este assunto sobe ao palco diariamente para dar o espetáculo de seu ridículo, mostrando ainda carecer de muito treino e releitura para um dia narrar-se com maior limpidez.

Diante do exposto, a oportunidade em tratar de um tema que em si não é polêmico, senão mal esclarecido, faz da tela de cinema o portal ao passado do homem, podendo ao menos por duas horas enxergar o que lhe fez chegar onde está, com a força rara de ao final da sessão fazer os olhos voltarem unicamente para cada espectador, automaticamente paralisado em autoanálise para entender quais vantagens ou faltas dela pode desfrutar em seu cotidiano sem jamais repensar se a sorte ou o azar lhe sorri.

Por consequência, o tema altamente sério e carente de releituras igualmente retratadas com similar honestidade social e cultural, demonstra neste filme um poder interpretativo e narrativo que unem-se em resumir sem melodrama um pouco do horror vivido em massa até século passado, o qual ainda defronta reflexos na atual sociedade tão profundos que se faz difícil simplesmente percebê-lo, quanto mais ignorá-lo.

Como resultado, a prévia análise por muitos apresentada por este filme de que sua abordagem tenha tons oportunistas, clichês e altamente emotivos, justamente reforçam a falta de comprometimento e ciência da complexidade e importância que o esclarecimento sobre o tema se dá. Como obra cinematográfica, também surge a conclusão precipitada de que esta seja dirigida às premiações de melhores filmes, narrando-se em pouco pelo tom autoral, e clamando por lágrimas óbvias para fazer valer suas conquistas.

Estas análises são cruéis, improcedentes e, por que não, imaturas. Pois, invertendo o ponto de vista sem perder a postura, podemos encontrar maiores razões para entender a importância e a força que um filme de absoluto respeito técnico, de atuação e principalmente de direção unicamente voltada à retratar a realidade tal como ela é, onde suas forças técnicas internas unem-se com as externas, e seu público e críticos podem em mesma conclusão compreender que a obra transpõe a tela, encontra a história, atinge o espectador, e defronta o homem.

Assim, com a única abordagem e gênero que se pode dar à escravidão no cinema, o drama narra com poucos apelos ficcionais para findar-se na realidade do que ocorreu não somente com Salomon Northup (Chiwetel Ejiofor), o escravo central da qual a história se inspira, mas com os demais negros torturados, vendidos e mensurados como moeda de troca, objeto de riqueza branca. Dessa forma a escravidão ganha no cinema uma leitura justa, construída com boas ferramentas cinematográficas pelo diretor Steve McQueen, um negro que em aplausos merece o reconhecimento pela abordagem imparcial, de foco na história, sem heresias, retalhação ao homem de cor inversa, ou interesse em propor a história tal qual ela não foi.

Estas escolhas dão ao diretor inglês a liberdade para não poetizar suas cenas, estas apresentadas com crueldade. Diante disso também compreende-se que o motivo pelo qual o filme apresente-se tão difícil, cru e doloroso, e apesar de ter cenas bem conduzidas, suas chicotadas parecem fazer doer não somente o personagem em tela. A dor, na melhor de suas consequências, utiliza do choque para paralisar a comodidade da mente do espectador, predisposto em ver o que sua mente imagina, porém refém de sua própria perplexidade.

É por tal motivo que 12 Anos de Escravidão (12 Years a Slave, 2013) não se deixa fazer paródia, pois a base estrutural de seu roteiro, ainda que tímida, escreve sua visão em infinitas palavras resumidas em vídeo, não que uma mídia ou outra seja mais forte, mas entrega à seu modo uma versão coesa e sem piadas, onde as ferramentas narrativas constroem a história, e não alguém ante as câmeras. De recente trabalho bem-feito de Tarantino com Django Livre, aqui se esclarece os erros deixados na obra de contexto similar, que pecou em ser caricato, erro este que McQueen não se deixa cometer, pois talvez não possuiu a arrogância de querer ser maior que seu próprio filme.

As diferenças são perceptivelmente claras, e embora aqui o espectador não tenha a diversão retratada em gargalhadas (empregadas com gratuidade), tem-se o resumo de uma peça muito mais autoral, mesmo que seus interesses não sejam dar closes forçados e jorrar sangue como um filme de zumbi.

Não é interesse da obra se comparar a nada, tampouco fugir do que já se pudesse ter dito, pois uma história nunca antes contada é uma história honesta com o material que representa.

Em épocas que violinos choram em vozes que pedem emoção, o tom dramático e sem censura se compreende apelativo ou sentimental, palavras muito distantes que classificam o quão longe pode estar a distância de perceptividade de dois espectadores. Ainda que sem o interesse da ambiguidade, o retrato é ímpar, e demais faces não representam o sincero interesse de sua expressão.

Steve McQueen arrisca, pois, em creditar ao elenco misto de atores convincentes e renomados, com outros reconhecidos em primeira instância, o trunfo de seu objetivo. Aos papéis centrais e mais exigidos dos escravos, Chiwetel Ejiofor e Lupita Nyong’o, a dificuldade de cenas fortes e cruéis, adicionadas à necessidade emotiva, constroem atuações destacadas e merecidas às premiações indicadas. Em menor força, – perdida por menor espaço em tela – estão também outras grandes atuações, tanto de Michael Fassbender como um grande vilão, e ainda Brad Pitt em pequena atuação e Paul Dano, este sempre convincente e promissor ator, que tanto neste quanto em outros trabalhos sempre apanhou com muito convencimento.

12 Anos de Escravidão é, por assim dizer, uma obra-prima moderna, tecnicamente exemplar, com interpretações fiéis ao que os personagens exigem, relendo a história recente do homem, que ainda perde-se em se forçar a acreditar na mancha que deixou em sua trajetória. Não como escravidão, o ser humano encontra hoje outras formas se praticar seu circo. À soma de outras obras de tom parecido e que ganharam destaque crítico e popular, como À Espera de Um Milagre (A Green Mile, 1999) e Um Sonho de Liberdade (Shawshank Redemption, 1994), aqui deixa-se mais uma versão que beira a perfeição, respeitando negros e brancos, por assim não distingui-los em desigualdade, e sabendo…

“No mundo, há dois tipos de filmes sobre escravos, meu amigo: aqueles levados à sério, e os demais.”

12 Years a Slave (EUA,2013)

Direção: Steve McQueen

Duração: 134 min

Nota: 10

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É cinéfilo para si e nerd para os outros. Caiu no mundo do cinema apenas desde 2005 e não parou mais, tornando-se um colecionador assíduo. Adora um horror, do melhor ao pior, e é grande apreciador de filmes independentes e B, com a liberdade de expressão que ele mesmo acha que tem. É editor do blog Cinemarco Cineclube.

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