13.52

Já era hora de sair da cama. Aliás, já passara da hora de sair do quarto abafado, pouco iluminado pelo sol forte que entrava pelas frestas da janela. Deu um pequeno gemido e virou de costas para a janela, tentando fugir da claridade que incomodava. Cobriu o rosto com o travesseiro, mas o sono havia ido embora há muito tempo, correndo da luz e se refugiando até a noite chegar. Mais um resmungo. Mais uma revirada no lençol todo amassado aos pés. Que horas são? Será que já passou a hora de almoçar?

Procurou o celular dando tapas pelo colchão. Dormira ouvindo música, os fones de ouvido se enrolavam em seu pulso, e o pequeno aparelho ainda tinha bateria para continuar tocando a lista comprida de músicas que mais gostava. 13h52. Merda. Perdi completamente a hora.

Merda!

Sentou-se no colchão, os músculos cansados reclamando do súbito esforço. Os ombros latejavam, como em todos os dias. Esticou-se, ouvindo os estalos dos ossos dos braços, costas e pernas e fazendo uma careta de dor ao sentir que não conseguiria relaxar tão rápido.

Os pés quentes no chão frio lhe causaram um arrepio, e quase se deitou de novo. Mas não podia, já era tarde e precisava fazer algo além de ficar no quarto. Precisava se alimentar, beber café, fazer xixi e outras coisas normais.

Cambaleou até alcançar a janela e, fechando os olhos com força, abriu-a. O sol era ainda mais forte do que pensou, tendo que virar o rosto para diminuir o desconforto que a luz lhe causara.

Merda! Merda! Merda!

Saindo do quarto, encontrou a casa em silêncio total. Nem os pássaros, que geralmente ficavam no jardim o dia inteiro, estavam lá. Daqui a pouco um zumbi aparece para me matar, pensou. Foi ao banheiro, lavou-se, fez xixi e se olhou no espelho.

Nossa. Como o cabelo consegue encontrar tantos jeitos de ficar desarrumado daquela maneira? E essas olheiras? De onde surgiram e por que a cada dia ficam ainda mais escuras?

Não tinha como saber. Tomou um banho rápido, pegou a mesma roupa que usara no dia anterior e se vestiu sem pressa. Não iria a lugar nenhum mesmo. A cozinha estava arrumada, como havia deixado antes de ir dormir de madrugada. Pegou alguns lanches para comer, porque já estava tarde para almoçar e, sobretudo, estava com preguiça de fazer arroz e feijão. Era muito mais fácil comer pão, bolachinhas e qualquer coisa que não demorasse mais de um minuto para ser preparado. Só tinha vontade de fazer café, e por isso encheu a cafeteira e pegou sua xícara preferida para servir-se.

Andou pela sala pensando no que iria fazer no restante do dia. E logo depois outra pergunta surgiu: por que ainda se dava ao trabalho de tentar fazer algo diferente, se sabia exatamente o que iria fazer? O mesmo de sempre. Nada.

Não tinha amigos a quem ligar. Não estava num relacionamento. Morava longe da família, e sim numa cidade pequena, calma e sem lugares interessantes para ir. Já havia visitado todas as cafeterias e bibliotecas. As pessoas daquela cidadezinha eram iguais a ela: quietas, fechadas, não queriam saber de nada nem ninguém de fora. Por isso, preferia ficar em casa o dia inteiro.

Tomou um gole do café quente e forte, quase cuspindo o líquido. Esqueci de colocar açúcar. Mas tudo bem, precisava manter-se de pé. A calça do moletom arrastava por baixo de seus pés, e a camisa velha e furada era apenas um tecido para proteger-se do clima um tanto frio que aquele lugar tinha. O sol poderia estar brilhando, mas sempre havia aquela brisa gelada que lhe davam arrepios.

A casa inteira abrigava aquele frio, mas era confortável. Impecavelmente arrumada, todos os móveis alinhados, limpos e sem um arranhão. Não havia insetos ali, além das formigas. Pragas que nunca somem. Só um canto da residência era diferente: sua mesa de trabalho. A toalha a cobria, os livros e papeis se espalhavam, várias anotações e rabiscos jogados pelo chão, as canetas se perdiam entre aquela bagunça que achava organizada.

Ninguém iria me entender se eu dissesse que eu trabalho muito melhor desse jeito.

Suspirou, enchendo a xícara com mais café e pegando duas fatias de pão da torradeira. Preciso me alimentar melhor. Mas logo afastou o pensamento, pois ouvia a voz da mãe gritando que com aquela alimentação iria ficar doente.

Hora de trabalhar.

Ligou o notebook, esperou a conexão da internet, abriu apenas um site e começou a ler os comentários que haviam lhe deixado.

Escrevia um texto todos os dias, quase religiosamente. Vez ou outra deixava o blog vazio para fazer seus leitores se perguntarem onde poderia ter ido para desaparecer de repente. Era algo legal de se fazer.

Um sorriso fraco aparecia em seus lábios ressecados. Gostava do que as pessoas lhe diziam. “Você é incrível! Continue escrevendo!”. “Você me inspira a ser melhor, obrigado.”. “Queria saber de onde vem sua inspiração para escrever tão bem.”.

Engraçado… nem eu sei de onde tiro essas ideias.

Olhou para os livros de poesia, contos e crônicas, jogados pela mesinha. Talvez aqueles grandes nomes fossem sua inspiração.

De vez em quando se perguntava por que escrevia. Talvez fosse para preencher algum tipo de vazio. Ou talvez para poder dizer tudo aquilo que não poderia falar em voz alta. Era mais fácil se esconder por trás de um blog, de uma assinatura falsa, do que ser alvo de julgamentos de uma sociedade cruel.

Sou covarde mesmo, e daí?

O que deveria escrever para hoje? Um texto motivacional, do tipo “Levante cedo da cama e faça exercícios físicos!”? Ou talvez uma carta de amor, cheia de juras eternas, que fariam suas leitores suspirarem e comentarem “Gostaria de viver um romance como o seu.”. Ou talvez um texto triste, mas com uma mensagem de autoestima no final. Eram tantas opções clichês que não sabia por onde começar.

Ou devesse contar de uma vez a verdade: não fazia exercícios físicos, muito menos acordava cedo. Não namorava, nem tinha a mínima vontade de conhecer o amor eterno. Se é que ele existe, pensou rindo e terminando de comer a torrada já fria. Tampouco poderia escrever um texto dramático com um final feliz. A vida não é assim. A vida nunca seria fácil desse jeito.

Mas não podia tirar aquela máscara de felicidade, amor e autoestima que passava aos leitores. Afinal, não era para isso que servia? Não escrevia para levar essa alegria aos leitores? Não tinha uma lista de objetivos de vida, muito menos desejos infinitos para antes de morrer dizer: fiz tudo o que quis, pode me levar Dona Morte.

Apenas… escrevia. Gostava dos dedos viajando sozinhos pelo teclado desbotado do notebook, o barulhinho único que a barra de espaço criava, as vezes em que suas unhas curtas ficavam tamborilando enquanto pensava na próxima palavra, na próxima linha… Era sua paixão, afinal de contas.

Sentia prazer em escrever. Não um prazer sexual. Mas sim, aquele tipo de prazer que se sente quando se faz algo que adora. Como tomar café puro comendo torradas, ouvir músicas antes de dormir, dançar no escuro para não ficar com vergonha dos movimentos desengonçados que fazia, gritar no meio da noite por causa da insônia. Eram coisas fúteis que adorava fazer. Por que então abandonar tudo? Ou ficar se perguntando sempre: por que faço isso?

Estalou os dedos e o pescoço. Abriu um novo documento no Word. A barrinha preta piscando lhe fez sorrir.

Tema de hoje: o que me faz feliz.

Mesmo que não fosse plenamente feliz, mesmo que não amasse ninguém no mundo e vivesse numa cidade perdida no mapa, queria criar a ilusão de que era diferente. De que era como todo mundo. Igual a todos os que liam seus textos.

Afinal, não é para isso que escritores servem?

Comente pelo Facebook

ARTIGOS SEMELHANTES