Embora os quadrinhos tenham sido inventados faz bastante tempo, é plenamente compreensível falar que o ano de 1986 é possivelmente o mais influente de todos os tempos, comparável ao período de 1961-1962. O sexto ano da década de 80 é tão importante que até hoje ele é sentido em toda a indústria dos quadrinhos.

Para começo de conversa, marca o fim da saga Crise nas Infinitas Terras, a primeira megassaga de respeito nas HQs, também sendo um importante capítulo no universo DC, ao reformular o seu universo para uma nova leva de leitores. O evento em si foi o primeiro de sucesso, abrindo a porteira para futuros crossovers que prometiam reformular tudo nas editoras.

Se tem alguém que chegou destruindo em 1986, essa pessoa foi Frank Miller. Após se divertir um pouco misturando o traço oriental com europeu e uma pitada de americano em Ronin, o artista começou o ano mostrando que queria cravar (ainda mais) seu nome na história. No MESMO mês ele lançou Demolidor: A Queda de Murdock pela Marvel e Batman: O Cavaleiro das Trevas pela DC.

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A Queda de Murdock é sem dúvida alguma o gibi mais importante na mitologia do Demolidor, no qual Miller explorou a derrocada e ressurreição do personagem, fazendo uma interessante analogia com Jesus Cristo e sua história. Outros fatores importantes foram o estreitamento da relação do herói com seu grande inimigo, o Rei do Crime, a volta de Karen Page como uma viciada em heroína e mesmo a relação do Capitão América com o serviço militar americano e sua corrupção. Até hoje esse arco é a pedra fundamental do personagem, junto com a primeira passagem de Frank Miller no demônio da Cozinha do Inferno.

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E o que dizer do O Cavaleiro das Trevas? Ao lado de Batman: Ano Um (também do autor, só que lançada no ano seguinte) é a história que ajudou a moldar ainda mais a mitologia do Batman, influenciando milhares de artistas e o modo como o morcego era encarado aos olhos do público também. Uma influência significativa do gibi (uma delas, e se bobear a menor) foi o uso de apresentadores de televisão e suas caixas de falas que permearam diversas HQs no futuro.

Só que Frank Miller teve uma companhia de peso no mesmo ano, na figura de Alan Moore. O Rouxinol de Northampton lançou nada menos que Watchmen. Considerado por muitos o maior gibi de todos os tempos, a maxissérie em 12 números mostrou as aventuras de pastiches de personagens da Charlton Comics (os autores não foram autorizados a usarem os originais) em uma trama de conspiração mundial, isso explicando a trama de maneira bem grosseira. Explorando temas como Guerra Fria, o conceito de heróis, vigilantismo, política, guerra e muito mais, Moore construiu uma intricada trama, em que a cada leitura o leitor vai descobrindo novos elementos.

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Watchmen e Cavaleiro das Trevas marcam o fim da Era de Bronze nos quadrinhos e inauguraram a Era Moderna, com quadrinhos mais sombrios, psicologicamente complexos, com os autores se destacando mais que os personagens. Ah, e também foram os responsáveis pela criação da fonte Comic Sans. Por essa você não esperava. Outro ponto importante foi a ascensão das editoras independentes.

Falando em editoras independentes, foi em 1986 que surgiu a Dark Horse. A casa de Hellboy e companhia chegou ao mercado em julho com a antologia Dark Horse Presents #1, abrindo as portas para o surgimento do Concreto, Sin City, John Byrne’s Next Man, entre outros títulos relevantes.

 The Man of Steel
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Outros personagens que marcaram presença forte no ano em que tudo mudou foram os X-Men e o Superman. Os mutantes da Marvel sofreram o famoso Massacre de Mutantes, marcando uma evolução no tom das tramas criadas pelo roteirista Chris Claremont. Ao fazer com que os Carrascos ocasionassem a morte de diversos Morlocks e deixando severos traumas nas equipes envolvidas (X-Men, X-Factor e Novos Mutantes), o mundo dos mutantes nunca mais foi o mesmo dali em diante (a semente para o Anjo virar Arcanjo, ganchos para Inferno, etc). O tom dark nos títulos foi predominando até o lançamento de X-Men #1, de Claremont e Jim Lee. Outro ponto importante do crossover foi ele ser o primeiro (e extremamente bem sucedido) na linha X, dando o pontapé para outros eventos.

Já o antigo parceiro de Claremont nos mutantes também deixou seu nome cravado em 1986. John Byrne tinha a ingrata missão de reinventar o Superman no pós-Crise e a solução que ele encontrou foi Marvelizar o personagem.  Lançando a mini em 6 partes intitulada The Man of Steel, o autor canadense pegou elementos pré-Crise e mesclou com novos. O reboot foi tão marcante que, para muitos leitores, essa é a versão definitiva do personagem até hoje.

Não menos importante que todos os gibis citados foi o lançamento da primeira linha alternativa/selo de heróis pela Marvel: o Novo Universo. Idealizado por Jim Shooter, o Novo Universo tinha a ideia de mostrar tramas mais realistas, com heróis tão realistas quanto. Na época os leitores ficaram com medo desse universo substituir o regular da editora, algo que não chegou nem perto. Embora tenha fracassado, o Novo Universo foi o primeiro selo alternativo, abrindo as portas para o universo 2099 e Ultimate, por exemplo.

Superaventuras Marvel #45
Superaventuras Marvel #45

Falando na indústria nacional de HQs, 1986 é extremamente importante. A Editora Abril estava consolidando cada vez mais sua presença com heróis e certos lançamentos só confirmaram isso: em janeiro, tivemos o encontro entre Superman e Homem-Aranha publicado. No mês de abril, saiu Os Novos Titãs #1 e no mês seguinte chegou Super Powers #1. Isso sem falar da Superaventuras Marvel #45 com Dias de um Futuro Esquecido. Ah, e também a infame publicação de Guerras Secretas, em que a Abril inventou a sua própria versão da história.

O ano de 1986 é com certeza o mais influente dos quadrinhos como conhecemos, com a ascensão do realismo, Alan Moore e Frank Miller imortalizando seus nomes, Chris Claremont levando os mutantes a novos (e sombrios) ares, e muito mais. Será que um dia a indústria dos quadrinhos conseguirão sair da sombra desse ano? Só o futuro dirá.

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