[ARTE DA VITRINE]: Thiago Chaves (@chavespapel)

 

Saudações galera retrogamer! Esta semana, veremos como uma desenvolvedora por vezes fica tão envolvida com somente um unico gênero de jogos, que acaba virando especialista na criação destes. Mas, de tanto abastecer o mercado com vários produtos do mesmo gênero, chega uma hora que alguém lá de dentro se toca e diz: ô negada, não precisamos mudar muito, mas “pelamordedeus” vamos fazer algo que seja um pouco diferente desta vez!

Me refiro a um título excelente, que destoa sensivelmente do padrão de shooters da software house Tecnosoft, e que possui mérito próprio. De quebra, também um dos melhores games no estilo para o Mega Drive.

A década de oitenta no Japão ajudou a consolidar o país como super potência dos eletrônicos, tendência esta que tinha começado na década anterior. O resultado disto foi o aparecimento de empresas de desenvolvimento de software em praticamente todo lugar, pois o custo dos equipamentos era relativamente baixo se comparado ao produto criado. Isso tudo somado às altas vendas de software para computadores pessoais, que recentemente tinha se tornado acessível e estava carente de qualidade.

Eu compraria até massa de macarrão caseiro desta empresa.

Em 1982 então foi criada a Tecnosoft, que inicialmente desenvolvia programas-tutoriais de digitação, necessários em um tempo em que o teclado não era familiar a todos como é hoje. Mas, depois de algumas versões de seu software, a empresa resolveu entrar de cabeça no mercado dos games. Só que na época, o conceito de jogos envolvia muito texto e puzzles (os chamados adventures), pois não exigiam muito processamento e a maioria dos usuários já estava acostumado com o gênero há tempos.

O primário, porém bem sucedido Thunder Force 1

A questão é que os caras da Tecnosoft estavam de saco cheio de ficar lendo e digitando coisas… O que eles queriam era ação, explosões, tiros pra todos os lados! Começaram então a lançar no mercado japonês, jogos que refletissem o conceito de diversão que a empresa tinha. Um dos primeiros a fazer sucesso foi o título precursor da série Thunder Force (1984), para um computador fraquinho de dar dó, o Sharp X1 e seus concorrentes mais famosos, o PC88 e 98 da Nec, ambos, um “nadica de nada” melhores. Existiram outros títulos relevantes na história da empresa, mas se você perguntar para qualquer pessoa que conheça jogos antigos se esta conhece a Tecnosoft, provavelmente a resposta será: aquela do Thunder Force?

O x68000 teve muitos jogos exclusivos bons, ports perfeitos de arcades da época e som era demais também! Na tela, está o jogo Nemesis '90 Kai.

Por mais que TF1 fosse simples, os usuários o adoraram, pois jogos de ação assim, normalmente só apareciam nos arcades. O segundo jogo da série foi lançado em 1988 para o excelente computador X68000 (X68k para os íntimos, também da Sharp e um dos “xodós” de quem curte retrogames, eu incluso) e em 1989 para o recém lançado 16 bits da sega, o Mega Drive (versão esta a qual o jogo ficou conhecido nos Eua, fazendo os gamers coçarem a cabeça, gerando rumores e duvidas se havia mesmo um Thunder Force 1, porque a primeira versão nunca havia sido lançada por lá, quem dirá para consoles). A sequência Thunder Force 3 apareceu em 1990 e esta realmente merece que se fale mais sobre (bem como a quarta versão), mas vou deixar para um post futuro, devido a riqueza de informações sobre a série.

Com a base de fãs já consolidada e vendo um espaço para a experimentação (vulgo sem medo de ser feliz), a Tecnosoft no final de 1990 manda um “petardo no ângulo” (ou melhor, no slot de cartuchos) do Mega Drive, chamado Elemental Master. Por mais que seja também um shooter, desta vez ele é exclusivamente de visão superior, contrastando com a especialidade da empresa (os laterais). Além disso, o jogador vai andando pelos cenários na cara e na coragem, sem nave nenhuma, tendo que desviar de obstáculos, como lava, espetos, enfim, praticamente tudo no cenário está lá para te matar. Outra coisa que o difere da temática normalmente adotada pela Tecnosoft (a ultra-tecnológica), é a de que o contexto do game é a fantasia, mais precisamente se passando em uma época pseudo-medieval, com a magia tendo importância primordial (estilo aqueles filmes dos anos 80, por exemplo O Feitiço de Áquila, ou A Lenda, com o Tom Cruise bem novão).

Laden (dir.) pronto para mandar um hadouken na fuça de seu irmão Roki (esq.)

A história é contada por cutscenes e até que não é ruim: no reino de Lorelei, os seguidores de um ser do mal chamado Gyra foram selados abaixo do castelo da cidade. Mas um mago chamado Aryaag, que teoricamente era um herói, traiu o rei e se mostrou também um adepto de Gyra, usando seu poder para atrair mais seguidores e tomar o poder para si. Laden (se pronuncia Ledeen/Ladín, segundo a versão japonesa e é o personagem que o jogador controla) o mago mais forte do reino, estava pronto para atacar Aryaag, mas este se mostra na realidade Roki, seu irmão. Chocado pela verdade, Laden é banido do reino por Roki e seus novos e poderosos aliados, jurando depois aniquilar a influência de Gyra e quem mais estiver no caminho. Resumindo, perdeu a oportunidade e agora vai ter que ralar para conseguí-la novamente…

O manual japonês mostrando os elementos que Laden utiliza, nas versões normal e especial.

São sete estágios e pode-se escolher inicialmente quatro deles livremente, cada um tendo o clássico chefe ao seu final. Para destruir os inimigos, Laden usa o poder dos elementos (luz, fogo, vento, terra e água, felizmente não há o “coração”, nem Capitão Planeta), que funcionam como as armas do Thunder Force (se você morrer utilizando alguma arma que pegou pelo caminho, ela é perdida, menos a da luz). Somando a esta mecânica, é possível reter a força das armas por um tempo, e ao soltar o botão, ocorre o famoso “especial”. Cada uma delas tem o seu, e alguns são bem legais visualmente, como o do fogo (grandes chamas giram em torno de Laden, destruindo a maioria dos inimigos mais fracos e gerando dano considerável nos mais fortes).

Aliás, os elementos gráficos são bem característicos para quem estava acostumado a jogar Thunder Force, principalmente o 3. Essas chamas do “especial” do fogo são as mesmas usadas no primeiro chefe (Gargoyle) da fase referente ao planeta Hydra em TF3, o primeiro tiro (elemento da luz) é basicamente o mesmo da nave de TF mas com cor diferente… Enfim, os jogos partilham de alguns efeitos sonoros e gráficos iguais mas nada é reutilizado exageradamente, sendo o resto todo novo (talvez pelo ano do lançamento de ambos, que foi o mesmo).

O elemento da luz carregado gera um raio destruidor.

Em relação aos controles, nada a reclamar: um botão atira para frente, outro para trás, e o que resta seleciona as armas disponíveis (caso você se perca, é possível pausar o jogo e selecionar a arma enquanto a ação não ocorre). Falando nelas, o único que inicialmente não suporta essa função de carregamento é o elemento da luz. Mas isso só até determinado ponto do jogo, porque Laden adquire esta capacidade, tornando-se a arma mais forte do jogo (forma-se um raio frontal gigante deste elemento). Não existe rapid fire, mas a cada pressionada nos botões de tiro, saem projeteis a “dar com o pau”, não sendo necessária essa função (já que é preciso segurar o botão para carregar o elemento utilizado).

Laden curte mulheres muito, mas muito pequenas.

Outros itens também ajudam o jogador, como um espelho que forma clones ilusórios de Laden (andam e atiram com ele), itens que recarregam e expandem as energias (porque felizmente o jogo não é 1 hit death), um escudo mágico que aguenta levar alguns tiros, preservando a energia vital do jogador, e por aí vai… Ah, também existe uma fada chamada Neena que aparece após a primeira fase completada e funciona como um tiro teleguiado. Esta fada é (alerta de spoiler) a encarnação do anel que dá a Laden o poder de concentrar o elemento da luz, pois ela alega estava testando o mago para saber se ele realmente estava apto a ter tamanho poder destrutivo. Como um anel pode reencarnar eu não sei,

A capa americana é decente, apesar de terem cortado o cabelo de Laden. Mas ainda acho que se parece com a capa de um álbum de metal melódico...

Os gráficos são bons (nada muito impressionante) mas em compensação, possuem vários quadros de animação principalmente no personagem principal, pois Laden é um cara estiloso e anda com uma capa que se move ao vento. Ele também é cabeludo e gosta de metal melódico medieval (tá, essa última parte sobre as musicas eu inventei). Alguns chefes parecem meio desconjuntados, mas se dá um desconto pelo jogo ter sido lançado dois anos após o lançamento do console. Aliás, nos Eua, o jogo só chegou três anos depois da versão japonesa (em 1993)! Se fosse hoje em dia, com certeza haveria muito protesto na internet e coisas desse tipo, como boicote da distribuidora.

Este japonês maluco imitando a arte da capa americana é simplesmente o compositor do jogo.

Pensando bem, a parte sobre o gosto musical de Laden não é tão mentirosa assim, pois o jogo tem uma trilha de arrepiar, feita por um cara que nasceu para criar músicas em chips (chiptunes, hoje em dia) chamado Toshiharu Yamanishi. O japonês simplesmente destruía, tendo criado as melhores músicas e arranjos da época (junto com o famoso Yuzo Koshiro) para o sistema da Sega, na minha opinião. Ele também criou as trilhas de Thunder Force 3 e 4 e a do pinball com temática de horror, Devil Crash/Devil’s Crush. O instrumental usado por Toshiharu se baseia em sons graves e guitarras sintetizadas, dando um peso incomum às musicas, que ficam particularmente ótimas caso o sistema de som da TV possua subwoofer, ou seja composto por caixas maiores. Verifiquem duas amostras do que o japonês fazia no chip de som do carinhosamente chamado “meguinha”, aqui e aqui. A trilha também foi lançada em CD de áudio somente no Japão.

No começo, Elemental Master se mostra um jogo difícil, mas na verdade ele é bastante balanceado, principalmente depois que algumas das fases são jogadas algumas vezes e descobre-se qual arma utilizar em determinado momento. O pessoal costumava até criticá-lo pelo mesmo motivo e o cartucho ficava um pouco abandonado nas locadoras. Mas os que davam uma chance a ele, raramente falavam algo de ruim, pelo contrário, alguns até davam um jeito de comprá-lo. Na época, como não existia internet no Brasil, às vezes um amigo perguntava se determinado jogo era bom antes de alugá-lo, e frequentemente nós respondíamos com um “mas é elemental, meu caro master!”. Tá bom, eu sei que é horrível, mas acontecia…

Fiquem com a capa japonesa para relembrar, e até a próxima semana!

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