Nessa busca por outros modos de perceber o mundo que falamos nos posts anteriores, um grupo de músicos radicalizou a proposta aqui no Brasil. Falo dos Novos Bahianos, descendentes diretos da tropicália.

Os primeiros compactos do grupo eram de um rock pesado e ao mesmo tempo carnavalizantes (algo único até hoje na música brasileira), que após contato com a figura de João Gilberto vai se tornar mais ameno, ganhando toques tradicionais de brasilidade, o que na minha opinião fez com que os Novos Baianos percam aquela direção mais radicalmente extrema e interessante que estavam tomando. No entanto Novos Baianos ainda assim permaneceu como um dos principais grupos de rock experimental, tanto no estilo de vida que levavam quanto na sonoridade, mas por qual motivo são “novos”? A resposta é que os “velhos baianos” – os tropicalistas -, tiveram de se exilar do Brasil, e eles de certa forma tomaram o lugar deixado vazio.

Vivendo em um sítio no Rio de Janeiro, em 1973 os Novos Baianos viviam como uma comunidade alternativa, tendo como principais atividades jogar futebol, fazer música e conviver em paz uns com os outros – uma atividade não muito fácil pelo que alguns vídeos da época mostram. Eram mais ou menos 20 “hippies” curtindo a vida num sítio, e uma parte considerável deles tocavam na banda.

A guitarra de Pepeu Gomes acompanhava de modo que não soava artificial o cavaquinho, pandeiro e violão dos outros membros do grupo, misturando samba, chorinho, bossa-nova e rock em uma harmonia que os tropicalistas “clássicos” estiveram longe de alcançar um dia. Coloco os Novos Baianos entre Os Mutantes, Módulo 1000 e Som Imaginário, porque embora tenham continuado a proposta tropicalista, seus posicionamentos ideológicos são radicalmente contraculturais e podem ser considerado progressivo na medida em que fazem experiências densas nos arranjos musicais. Além disso, o modo de vida deles é peculiarmente interessante, ao ser perguntado o que é ser um “Novo Baiano” no documentário Novos Baianos F. C , Galvão respondeu:

“Novos Baianos? Novos Baianos é uma cara que não admitiu deixar de ser menino, é um cara que tem que saber pelo menos fazer uma coisa, duas pelo menos, mas saber mesmo uma coisa. Assim como uma coisa que seria, por exemplo, carregar um tronco de árvore enorme, assim um quilômetro, dois. Um negócio assim como jogar futebol e fazer música, cantar, tocar, fazer como músico mesmo. É isso aí, Novos Baianos é um cara alegre e que acredita que a vida tá começando.”

Um ponto de convergência que encontrei entre os ideais da contracultura americana, européia e brasileira, foi esse desejo da infância eterna.

Essa questão está presente em Marcuse e Norman O. Brown quando falam do retorno a uma pan-sexualidade infantil – para Marcuse devemos realizar uma luta contra a tirania da genitália, pois crescemos internalizando apenas o prazer sexual como relevante e desprezando assim todos os outros sentidos que o corpo pode alcançar; no “crelazer” de Helio Oiticica, a necessidade de criar e viver em ambientes de diversão; é o mesmo no “sério de brincadeira” que Torquato Neto se refere na sua coluna no Ultima Hora; na transformação do indivíduo em Deus presente nas teorias de Timothy Leary que é a libertação do individuo metafísico de seu pai opressor, o deus cristão; na concepção dos Aeons de Aliester Crowley, a Era das mudanças positivas é da criança Hórus; e também nos Novos Baianos, que de modo lúdico passaram a viver em comunidade, como se fossem crianças, mesmo que levando tudo muito a sério.

Uma música do rock progressivo brasileiro que relaciona alucinógenos, uma longa faixa com numerosas variações harmônicas e a questão infância é a antológica “As Crianças Da Nova Floresta” da banda Recordando O Vale das Maçãs, lançada no álbum homônimo em 1973.

[…]é só você se conscientizar que a vida vem da luz da natureza

é só você olhar, sorrir, andar e então verá a luz da natureza

e então verá a luz da natureza

quero que você

olhe para o lado

e diga o que vê

se não consegue entender o que vejo

meu amigo estás descrente

precisas de uma colher de chá

[…]

por uma planície encantada

cercada

de montes azuis

por onde circulam na estrada florida

crianças felizes

perdidas num mundo de sonhos

seguras de [em] um modo de vida

mergulham felizes nas águas de um lago de luz

intensa

correm

e riem

e cantam

e dançam

e vivem a vida verdadeira

tudo delas, tudo nelas é lindo

o mundo delas está

perto, perto, perto daqui

se vocês vêem a beleza

onde muita gente não vê

unam suas mãos

e venham conhecer essas crianças

porque essas crianças

são vocês”

A música possui 18 minutos, talvez uma das faixas mais longas do rock progressivo brasileiro, que como já dissemos não tinha apoio das gravadoras para se quer mais de 3 minutos de áudio.

A letra fala de “chá”, se referindo a maconha como artifício para se ter uma visão mais limpa do mundo, além de aludir a inocência das únicas pessoas que vivem a vida “verdadeira”, as crianças. A vida então em sua essência é diversão, brincadeira e satisfação. Só as crianças veem esse mundo verdadeiro, só elas enxergam a beleza essencial das coisas, livres dos preconceitos e discriminações, das obrigações e fardos dos adultos. Os alucinógenos agindo como transformadores de todas as funções mentais acabam transformando tudo ao redor do sujeito numa experiência lúdica, o devolvendo a uma infância mítica, independente da idade em que se encontra.

Durante os anos 70, o mundo parecia ter se transformado num furacão que mudava tudo de lugar a cada segundo. Todas as certezas pareciam questionáveis, a força da juventude parecia capaz de mudar o mundo, a realidade já não era meramente pragmática, as identidades não estavam mais tão seguras, não havia porto seguro no meio desse vórtice. A questão da identidade ganho importância, e ocupa lugar de destaque até hoje (chegando a ser irritante no universo acadêmico contemporâneo), pois

“Foi em meio ao torvelinho provocado especialmente pelos avanços técnicos que a década de sessenta assistiu, que as pessoas tiveram exarcebada, em sua pauta existêncial, a questão das identidades – a identidade nacional, a identidade pessoal, a identidade de seu bairro, etc. Isto porque a identidade, esta maravilhosa engrenagem que nos costura à realidade e nos conecta a um modelo de racionalidade, somente se torna uma questão, um problema, em um ambiente de crise.”[1]

A geração que assistiu o tropicalismo ser destruído pelo AI-5 no fim dos anos 60 foi a mesma que acreditou na utopia contracultural com todo seu entusiasmo por toda a década de 70. Os anos 70 foram, de certa forma, na arte e existencialmente, a busca por outros modos de se pensar o mundo fora da razão iluminista. Porém, nessa intensa busca por novas perspectivas a geração do “paz, amor e arte” representado pelos três dias de Woodstock, fundou as bases de sua identidade mais por aquilo que não era – careta, quadrado, científico e opressor – do que por uma definição em si.

Uma identidade tão fluída acabava causando curtos-circuitos involuntários nos sujeitos que compartilhavam estas agitações, estes que entre uso excessivo de drogas e o desencanto com o mundo por completo, acabavam morrendo ou tirando a própria vida. Aconteceu com Jimi Hendrix, Janis Joplin e Jim Morrison; no Brasil Arnaldo Baptista quase enlouqueceu e tentou se matar, temos também o suicídio do poeta Torquato Neto

“Torquato quis resolver no próprio corpo contradições que só poderiam ser resolvidas na história. Nesse sentido, é no intercruzamento entre um indivíduo interpelado em sujeito, numa sociedade na qual subjetividades reacionárias habitam as formas dominantes de pensamento, que podemos encontrar em Torquato Neto e em sua tragédia pessoa um tempo em que estas formas dominantes de pensamento e estas subjetividades reacionárias reinventavam constante e reativamente, a tradição brasileira.”[2]

Não é a toa que os anos 80 herdou um niilismo denso, será uma geração na qual o discurso da utopia não mais se sustenta, então surgiram ironias pessimistas e precisas no âmbito da música, como Cazuza, Lobão, Hanoi-Hanoi, Gang 90, entre outros.

Nos anos 70 havia uma luta contra o “bode” e o “grilo”, que na gíria da época aludia a problemas relacionados com a paranoia de estar ficando louco ou no mínimo ficando “quadrado”, e também com a depressão ou mau humor. Essa contenda contra a caretice, depressão e paranoia vai atravessar o rock experimental feito por toda a década.

Em uma composição chamada Cenouras do álbum “A Nova Estrela” de 1971, a banda Som Imaginário deixa marcas relevantes desse confronto. O cantor nos dispara: “você está com a cabeça virada para o nada”. E a solução com humor e de maneira inusitada encontrada pelo narrador que ainda acredita na salvação do seu interlocutor, cantada entre distorções de guitarras e uma voz estranha, é que “eu vou plantar cenouras/ na sua cabeça”. Uma gíria que parece se referir a mudar a perspectiva, a inverter a ordem, com um tom hippie de partir para uma perspectiva de equilíbrio com o ambiente natural, talvez algo relacionado com o uso de alguma droga para abandono da caretice.

Com um tom bem mais agressivo, a banda Made In Brazil numa mistura de hard-rock no disco Jack O Estripador diz “Vou te virar de ponta cabeça”. O narrador ainda brada que “o seu dinheiro nunca vai comprar o pôr-do-sol/ você é muito careta”, a música segue tentando constranger o interlocutor que pressupõe ser o ouvinte “é fácil ter felicidade da espuma da champagne/ olha, suma, desapareça”.

A mais clássica das músicas sobre loucura dessa época, excluindo Maluco Beleza do Raul Seixas, é a Balada do Louco d’Os Mutantes, composição de Rita Lee e Arnaldo Baptista gravada no já referido disco que sinalizou a virada do grupo para o rock progressivo ,Os Mutantes E Seus Cometas No País Do Baurets.

Dizem que sou louco por pensar assim

Se eu sou muito louco por eu ser feliz

Mas louco é quem me diz

E não é feliz, não é feliz

Se eles são bonitos, sou Alain Delon

Se eles são famosos, sou Napoleão

Mas louco é quem me diz

E não é feliz, não é feliz

Eu juro que é melhor

Não ser o normal

Se eu posso pensar que Deus sou eu

Se eles têm três carros, eu posso voar

Se eles rezam muito, eu já estou no céu

Mas louco é quem me diz

E não é feliz, não é feliz

Eu juro que é melhor

Não ser o normal

Se eu posso pensar que Deus sou eu

Sim sou muito louco, não vou me curar

Já não sou o único que encontrou a paz

Mas louco é quem me diz

E não é feliz, eu sou feliz

A música começa ao piano, durante a interpretação da letra uma citara indiana é dedilhada e uma guitarra destoante fragmentada nos desloca pra uma sensação de estranhamento. Inserido dentro do confronto contra a caretice e o grilo, essa música evidencia uma das facetas encontrada nessa geração de 70 para escapar do “bode”, que é o “ser feliz”. Louco é quem não é feliz, quem vive na tristeza e depressão, o resto, é simplesmente vivo. “Eu juro que é melhor/ não ser o normal/ se eu posso pensar que Deus sou eu”, é um trecho que se relaciona com as ideias de Timothy Leary de que nosso cérebro é Deus, bem espalhado na juventude da época por uma certa filosofia budista.

 

Outros temas constantes nas músicas, como a morte e o desejo, vão testemunhar a invariável busca por um porto seguro, por um aparato de conscientização do “eu” limitado – ao mesmo tempo em que ilimitado – e contraditório diante do turbilhão fluído de identidades que o mundo se tornou.

Em meio a uso de drogas que catalisavam a percepção, religiões com axiomas de pensamento totalmente alheios aos ocidentais, rock’nroll, poesia e sexo, a geração musical de 70 no Brasil se rebelou ao lado da contracultura internacional contra todo o sistema de vida criado ao longo dos séculos no lado ocidental do planeta. Entre toda essa efervescência, os meninos do Made In Brazil cantariam uma música confusa e com uma harmonia triste, me refiro à música O Cigano: “As raízes não as plantei/ Não dá/ Rumo à liberdade que sonhei/[…]/Eu só queria, só queria ter tempo/ de tocar minha guitarra /Eu sonhei/ Eu sonhei / E vou continuar/ Vou continuar /Vou continuar sonhando”.

Como foi mostrado ao longo dos três posts dessa série, o rock progressivo brasileiro é muito rico num debate sobre os anos 70 e trata de questões contemporâneas como loucura, rebeldia e uso de alucinógenos, porém ao mesmo tempo é um labirinto. Pois ao mesmo tempo em que dialoga com o rock e blues internacional, por seu caráter experimental, se relaciona com o tropicalismo e algumas tradições musicais brasileiras, fazendo às vezes quem ouve as músicas perguntar o que tem a ver com Yes, Soft Machine e outras bandas consideradas pilares do progressivo mundial. No entanto como disse no primeiro post da série, o rock progressivo brasileiro apesar de ter começado na trilha do rock internacional, recebe esse nome por ser uma música experimental, e não por estar obrigatoriamente preso a uma estética específica.

O samba, chorinho, imaginário indígena, africano e etc. estiveram presentes neste rock dos anos 70, só que embalado ao lado de uma radicalização da contracultura e do neo-rock inglês. Esse rock setentista respondia a anseios por parte dos artistas e da população, em geral anseios ligados a um underground e pela necessidade de ser underground, e não mais pela vontade de criar um pop-brasileiro como foi o tropicalismo ou uma estética puramente copiada do rock internacional.

Para escrever essa série de posts ouvi diversas bandas que gravaram álbuns entre os anos 1970 e 1977: A Barca do Sol, A cor do Som, A Bolha, Almôndegas, Ave Sangria, Arnaldo & Patrulha Do Espaço, Made In Brazil, Novos Baianos, Vímana, Os Mutantes, JardsMacalé, Casa das Máquinas, Sérgio Sampaio, Raul Seixas, Módulo 1000, Som Imaginário, Recordando O Vale Das Maçãs e O Terço. Não tinha como objetivo tratar de cada um dos grupos especificamente, o objetivo era apenas relembrar a sua existência e importância para sua época e para os dias de hoje.

Considerando a proposta já executada, me despeço da série de posts sobre Rock Progressivo Brasileiro! Até a próxima série seus putos de merda!


[1] CASTELO BRANCO, Edwar de Alencar. Todos os dias de Paupéria.Teresina: Annablume, 2005, p. 66.

[2] CASTELO BRANCO, Edwar de Alencar.Toda palavra guarda uma cilada: Torquato Neto entre a vertigem e a viagem. Revista Fênix [online]. 2007, vol.4, nº 2, p. 17.

Comente pelo Facebook

Anarco-parasita; místico urbano; aprendiz na arte-sabotagem; divulgador dos beneficios do DOUBLE VEGETTA; historiador perdido na cozinha do caminho entre a antiguidade e a contracultura; outsider caçado pelo Diretório da interzone; sempre de olho nos arcontes do cosmos e nos UFOs que eventualmente aparecem, além de muitas outras coisas sem sentido que se tem por aí. @Agrt

2 COMENTÁRIOS

Deixe uma resposta