A Qualquer Custo já começa colocando o espectador no meio da ação, mostrando os irmãos Tanner e Toby Howard (Ben Foster e Chris Pine, respectivamente) assaltando um banco. Com apenas poucos segundos de cena, o roteiro de Taylor Sheridan (Sicario: Terra de Ninguém) já deixa bem clara para o espectador a diferença entre os dois. Enquanto Toby quer apenas pegar logo o dinheiro e sair do local o mais rápido possível, Tanner possui um temperamento explosivo e violento, ameaçando uma funcionária do banco e agredindo o gerente da agência. Isso já ajuda a estabelecer uma tensão que o espectador vai carregar pelo resto do filme, já que não dá pra saber qual será o próximo passo de Tanner.

Com a estrutura de um faroeste moderno, do outro lado temos os policiais Marcus Hamilton (Jeff Bridges) e Alberto Parker (Gil Birmingham) com a missão de capturar a dupla de assaltantes. Apesar do começo veio violento dos irmãos, o filme é interessante justamente por tratar tudo com tons de cinza, às vezes até ficando mais do lado dos assaltantes do que da lei. Toby, por exemplo, precisa do dinheiro para salvar as terras da família que vão ser tomadas pelo banco que, obviamente, sempre cobrou juros altíssimos pelos empréstimos. Já Tanner, apesar de ser um ex-presidiário, só entra na jogada com o objetivo de ajudar seu irmão e, consequentemente, os sobrinhos que herdarão a fazenda. Enquanto isso, apesar de Marcus Hamilton estar do lado da lei, é impossível não torcer contra o personagem quando vemos que ele é uma metralhadora de preconceitos. Ele passa praticamente o filme inteiro fazendo piadas envolvendo índios e mexicanos, já que seu parceiro é descendente de ambos os povos.

Assim como acontece em muitas histórias tradicionais de faroeste, em A Qualquer Custo os protagonistas Toby e Tanner acabam sendo vistos como heróis pela população local cansada de ser explorada pelos bancos, que não pensam duas vezes antes de tomar as terras de pessoas em necessidade. “Eles roubaram o banco que vem me roubando há anos”, chega a afirmar sorrindo uma testemunha de um dos assaltos. Ressaltando essa voracidade dos banqueiros, quando os personagens estão na estrada, o diretor David Mackenzie (Starred Up) inclui vários planos abertos que mostram muitas terras abandonadas, com placas de venda nelas. E quando uma garçonete se vê obrigada a devolver o dinheiro que recebeu, já que este seria evidência de um crime, ela logo diz que precisa do dinheiro justamente para manter um teto sobre a cabeça dos filhos.


Trocando os cavalos pelos carros e os revólveres pelas armas automáticas, A Qualquer Custo é um faroeste praticamente completo. Temos as fugas por estradas poeirentas, a bebedeira no saloom para comemorar (no caso aqui é em um cassino) e até uma fuga por alguns morros do ensolarado Texas, com direito a tiros sendo disparados de muito longe, como acontece em bons faroestes. O filme chega a ter uma cena de tiroteio no meio da rua envolvendo os assaltantes e várias pessoas comuns que resolvem fazer justiça com as próprias mãos (ou as próprias armas). E não é difícil imaginar que uma cena dessas possa realmente acontecer hoje em dia em alguma rua do Texas, estado dos EUA onde ter uma arma é praticamente uma obrigação.

Além das boas cenas de ação e da fotografia linda, que faz com que o espectador quase consiga sentir o calor do Texas, o filme conta com atuações muito boas. Ben Foster consegue transitar bem entre a loucura de Tanner e o carinho que ele sente pelo irmão, enquanto Chris Pine fala pouco, mas consegue transmitir muita coisa apenas com uma pequena mudança no olhar. Já o carisma de Jeff Bridges é o suficiente para que possamos simpatizar com seu personagem, apesar de todo o preconceito e arrogância que ele apresenta. E é justamente a excelente atuação do elenco que faz com que A Qualquer Custo mantenha uma tensão no ar até os seus últimos minutos de projeção, mesmo quando parecia que tudo já tinha sido resolvido.

A Qualquer Custo / Hell or High Water (2016)

Direção: David Mackenzie

Roteiro: Taylor Sheridan

Duração: 1h 42min

Elenco: Dale Dickey, Ben Foster, Chris Pine, Jeff Bridges, Gil Birmingham.

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Felipe Storino é carioca, criado na Zona Norte do Rio de Janeiro e radicado no Espírito Santo. Possui três grandes paixões: o Flamengo, cinema e games. Sobre os games, começou nessa vida ainda na época do Atari e do Odyssey e nunca mais largou os joguinhos. Quando não está jogando, está assistindo filmes, séries ou lendo gibizinhos. Recentemente virou grande entusiasta dos jogos de tabuleiro, comprando mesmo quando não tem com quem jogar. É orgulhoso possuidor de um Super Nintendo e um Master System 3 originais.

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