PAR 19C/16A

Elsa está a pensar na vida. Seus olhos vidrados na vista de sua janela, onde a vista só era vista, mais nada. Em sua frente enormes arranha-céus, pouco verde perdido no meio de paralelepípedos. Por quê? Ela se perguntava. Por que o homem fez isso com minha cidade?

Elsa Barbara, seu nome de nascença. Bauruense com orgulho, mas viveu grande parte de sua vida em uma cidade metropolitana de São Paulo: Santo André. Hoje, a cidade é conhecida por suas multas, não por seus artistas, pela música ou pelo movimento punk. Santo André virou uma miniatura de São Paulo e Dona Elsa não acreditava no que via e no que lembrava. Talvez, o mais doloroso em seu coração era o fato de seu falecido esposo, João, ter feito parte de toda aquela história que ela avistava. Seu João foi um grande engenheiro e tinha sociedade com arquitetos. O finado fez seu dinheiro, da lama ao caos, pois não soube administrá-lo. Quando casados, João saía com seus amigos após o expediente e, não era de bom tom que a esposa ficasse especulando sobre a vida de seu marido, já que a grande resposta sempre foi a de que ele colocava comida dentro de casa. Então Elsa vivia calada, cuidando da casa, dos filhos e da janta! Mas raramente João jantava em casa. Ele manteve alguns romances com garotas de programa e secretárias de seu negócio. Talvez por isso que ele trocara tanto de secretária… Pensava Elsa.

E relembrava quando levava seus filhos para passear no parque, de árvores grandes, cheia de verde. Margaridas por todo o canto e portões baixos. Ah, os portões baixos… Não existia esse perigo de hoje em dia. As vizinhas eram suas melhores amigas e ficavam a trocar palavras enquanto o feijão cozia, na frente de seu portão, baixo. (estava a refletir…) João era um homem ocupado… Nunca teve tempo para nossa família… E nos deixou sem dinheiro algum. Morreu e me largou assim, de vez, pois quando vivo pelo menos ele existia em minha vida, não que fosse presente ou amável, mas existia. Agora, virou pó. Meus filhos, todos criados com boa educação, pois tenho a plena certeza de que isso eu fiz, ah, de alguém contradizer-me. Sabe Joana, o que mais me dói não são apenas as lembranças de nossa cidade, dos meus filhos pequenos, de João e até mesmo de suas “puladas de cerca”, mas minha maior saudade é a de viver, pois hoje eu só existo. E, pior, terminarei como João. Tudo a minha volta lembra o finado, que Deus o tenha… Esses prédios, a arquitetura da faculdade principal, algumas casas… Meus filhos continuaram suas obras. O Gabriel virou arquiteto e a Luciana engenheira… Acabaram com a herança do pai investindo no mercado imobiliário. A falência, todos! Mas o que me dói mesmo Joana é o fato de que só existo e não vivo. Vivo nas lembranças que João deixara a frente dessa janela, mas não vivo como eu gostaria e, sabe o que mais? Você é minha melhor amiga, Joana! – e Joana se expressou pela primeira vez naquele dia: Dona Elsa, fico muito contente e ressalto que a senhora também é uma grande amiga minha, mas minha cara, está na hora de deitar. E lá, Elsa Bárbara se foi. Mal sabia que aquela janela era sua última janela da vida. Foi se juntar a João. Quando se deitara com a ajuda de Joana, sorriu. De uma forma como jamais havia sorrido antes para sua amiga. Fechou os olhos e descansou, para sempre. E Joana não sabia. Havia perdido sua grande amiga.

Hoje, Joana olha pela mesma janela, já se passara trinta anos e, ela está a relembrar aquele dia, aquele cinza que hoje tomou conta da cidade e quase não há verde. Joana se encontra no mesmo quarto que Dona Elsa. Naquela época, Joana era enfermeira de um asilo da cidade, hoje está sobre cuidados de Helena e teme o momento de Helena a convidará a deitar.

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