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Agostinho Torres

Este é o típico livro pequenininho que se propõe a nos impactar. Estamos diante de um compilado de contos sobre frestas e brechas da nossa realidade, espaços sombrios que nossa cognição não alcança ou nosso cérebro esconde da mente consciente. Por isso o resultado é tão bom. O Que Acontece Quando Não Estamos Olhando, do amigo Agostinho Torres, traz uma série de contos curtos, mas com diferentes abordagens diferenciadas do nosso cotidiano.

Não existem malabarismos estéticos ou linguísticos para tentar imprimir o clima de estranheza que é o grande sentido por trás do livro (ou não, nunca se sabe). Tudo é bastante objetivo e com ao menos um sentido claro. Você de certa forma entenderá todas as histórias, ainda que não se esforce para tentar absorver significados ocultos em cada passagem.

Há um tom absolutamente pessoal nas narrativas. Não que o Agostinho entre na jogada, mas cada conto é capaz de evocar nossas próprias experiências que entram em certos campos do inexplicável, por assim dizer. Muito disso está ligado à episódios de nossa infância e adolescência, antes do pensamento puramente material e pseudo-científico-ateu ser completamente estabelecido na maioria de nós – ou sua contraparte igualmente perigosa, o bobalhão que enxerga misticismo em tudo.

Todos os conceitos do livro podem ser resumidos em dois contos. O primeiro, que dá nome ao livro, traça uma conexão entre o ato compulsivo de uma menina apertar um desses botões para cegos em semáforos e a estabilidade geológica de um planeta em uma galáxia muito distante. Não são necessárias toneladas de explicações envolvendo Física Quântica (a teoria que atualmente consegue ser esticada ao ponto de explicar praticamente qualquer coisa), mas sim apenas que isso acontecia. O outro conto, mais complexo e com mais camadas, é o Impacto Infinito, que envolve um pichador urbano que cai de um prédio e experimenta uma iniciação com um bruxo urbano. Mais uma vez, é um passeio no sobrenatural sem a necessidade paternalista de nos pegar pela mão e dissecar o que está por trás daquilo.

Impacto Infinito O lance aqui é estabelecer conexões entre a experiência cotidiana e a complexidade dos mistérios do Universo. E aí entra um ponto interessante do livro que considerei praticamente um diferencial: o Narrador. O Narrador em um sentido estrito é do tipo que não me agradaria, por se propor a ser onisciente. Mas o Narrador aqui é um onisciente que não sabe tudo. Ele sabe mais que muitos personagens, algo do futuro e do passado, mas apanha quando dá de cara com alguma explicação complexa e simplesmente deixa pra lá.

O crítico mala diria que isso é pura preguiça de tecer uma obra ficcional consistente, sem pesquisa, jogada, mas a ideia aqui parece certeira por expor que mesmo em um mundo ficcional as regras não estão todas na mesa. Um livro é um tipo de mundo criado por alguém, mas que só passa a existir para nós a partir do momento em que o absorvemos, e daí obviamente o Narrador/Autor se torna uma figura praticamente tão importante quanto nós leitores. Dessa forma, a realidade é um tipo de mundo fictício onde as trocas de sinais formam tudo.

Agostinho Torres

Esse quadro, onde todos são iguais e possuem seus próprios segredos, é exatamente o que se espera de um livro focado no esquisito, mas não no esquisito que habita os abismos mais profundos da nossa psique, mas aquele que surge como consequência de apenas um tropeção.

 

oqueacontece_capaO Que Acontece Quando Não Estamos Olhando

Autor: Agostinho Torres

Editora: Giostri (2016)

Páginas: 108

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