Era sempre a mesma coisa para Armando. Acordar, se trocar, tomar café, ir ao banheiro, sair de casa, pegar um ônibus, um trem, andar, chegar no emprego, aturar o chefe mais velho tentando recuperar os anos de juventude e ser aceito pelos estagiários como um igual, almoçar.

Trabalhar mais um pouco, andar, pegar um trem, um ônibus, chegar em casa, jantar, tomar um banho, colocar o pijama, ver um pouco de televisão ou ler um livro, tentar dormir.

Tentar dormir.

Para Armando essa era a pior parte do seu dia. Encarar o teto escuro do quarto, a parede que precisava de uma nova mão de tinta o mais rápido possível, cheirar o edredom que precisava ser lavado, olhar a porta fechada, a escrivaninha abarrotada de futuros projetos que nunca saíam de sua cabeça, as roupas penduradas pelo quarto. Olhar. Estar alerta. Ouvir os sons da rua, as discussões do vizinho com a sua atual terceira esposa, brigas de gatos que mais pareciam crianças morrendo.

Estar alerta. Acordado. Desperto. Desesperado.

Tudo o que ele queria era dormir.

Dormir como todas as outras 5 bilhões de pessoas existentes no mundo. Simplesmente fechar os olhos, respirar fundo e se deixar levar para o reino de Morpheus. Só isso. Fácil assim. Mas, aparentemente, para adentrar o mundo do Sonhar, você precisava de convite e Armando era um mero mortal.

Tentou de tudo. Tomar leite quente, chá de camomila, suco de maracujá, contar carneirinhos, se exercitar, ler livros ou papelada chata até ver filmes turcos de 5 horas e três linhas de diálogo. Documentários sobre a importância da batata na economia da mongólia ou deixar a tv ligada até que caísse no sono. Nada. Nada funcionou. Armando continuava a fitar o teto escuro do quarto, a porta fechada, as roupas penduradas e os projetos inexistentes.

Por vezes pensava que aquilo tudo era um sonho lúcido e vívido. O famoso “sonhar acordado”, mas sempre se encontrava na realidade. Chegava no trabalho e via os outros funcionários contando de como foi boa a sua noite de sono ou se vangloriando que não dormiram direito pois tiveram companhia a madrugada toda. Armando sentia inveja. Armando sentia ódio. Armando sentia raiva.

“Insônia”

Chuck Palanhuik disse uma vez que quando acordado por dias tudo parece a cópia, de uma cópia, de uma cópia. O mundo fica distante e as pessoas parecem cada vez mais espectros que se movem, como uma inteligência artificial provida de corpo e vontade própria. Armando se sentia como espectador de sua própria rotina, via as coisas acontecerem mas não podia interferir, não conseguia. Seus movimentos eram robóticos e sua aparência física afastava qualquer tipo de possibilidade de contato íntimo.

Não que ele se importasse muito com isso no momento.

Círculos pretos abaixo dos olhos, palidez anêmica, magreza aidética e mau humor. Armando se olhava no espelho enquanto fazia a barba mas não reconhecia o reflexo, aquele homem do outro lado reproduzia com precisão perfeita todos os movimentos, por mais discretos que fossem. Por vezes, conversavam mas Armando nunca conseguia as respostas. Perguntava como poderia dormir como uma criança mas nada saia da boca do outro homem, só silêncio.

Deitava na cama e a velha batalha começava. Munia-se do cobertor que já começava a cheirar mal e olhava para o mesmo teto escuro de sempre. Seu corpo clamava por descanso, gritava desesperadamente para que o cérebro reduzisse o ritmo de atividade e apagasse algumas de suas luzes. A letargia já se tornara insuportável.

Mais de uma vez Armando quase caíra no vão entre o trem e a plataforma por não prestar atenção no que fazia. Mais de uma vez quase desceu na estação errada do trem por não conseguir ouvir direito o anúncio. A tela do computador ficava branca por horas, o cursor preto piscando, tentando chamar a atenção de Armando para que ele se movesse e nada. O homem permanecia inerte, catatônico, mirando um nada que continha as horas de sono que ele tanto procurava. Seu chefe fazia piadas sem graça para que ele continuasse a trabalhar, mas Armando nem se dava ao trabalho de forçar o riso mais.

“Por favor, por favor, eu preciso dormir”

“Por favor, por favor, me deixa dormir”

“Por favor”

Sentia o cansaço durante o dia, enquanto almoçava, sabia que após a refeição ficaria mais cansado ainda, mas nada de cochilo de 20 minutos. Nada de luz baixa ou música calma para desligar o sistema cerebral que estava ao ponto do superaquecimento. Nada o fazia parar. Nada o desligava.

Deixou de tomar o café que tanto gostava, fugiu de qualquer tipo de bebida que tivesse cafeína, parou de tentar ficar acordado. Não queria ter mais os olhos abertos, a boca pendente, os braços moles, o tronco que não conseguia manter ereto, como um anestesiado. Tudo era muito mais difícil e tudo exigia muito mais força física. Há tempos já ultrapassara seu limite de energia. Armando não se importava mais com a realidade.

Ele só queria descansar.

Armando pensou em recorrer a remédios, mas depois do suicídio de seu irmão com pílulas para dormir, nunca mais colocou um comprimido na boca.

Sair do trabalho, andar, pegar um trem, um ônibus, andar. Comprar cigarros. Armando gostava de cigarros. Em uma de suas várias noites sem descanso, chegava a fumar até um maço inteiro. Ficava pensando em sua vida e no rumo que tomava. Não gostava do resultado. Mas precisava do dinheiro, não tinha outra alternativa. As contas chegavam religiosamente todo o mês e Armando nunca teve alguém que bancasse todas as suas despesas.

Saiu mais cedo do trabalho para comprar cigarros na volta de casa. Pé ante pé. 1, 2, 1, 2. Assim como aprendera quando bem pequeno. Primeiro pé direito, depois pé esquerdo e assim por diante. A letargia da falta de descanso dificultava até as ações mais automáticas, só que o vício falava mais alto, então Armando seguiu lutando para manter o equilíbrio e por uma perna na frente da outra num ritmo que permitisse movimento.

Armando não olhou para os dois lados da rua antes de atravessar.

Armando não seguiu as leis de segurança do pedestre.

Armando não viu a picape que se aproximava em alta velocidade.

Armando não ouviu a música alta que saía das janelas da picape.

Armando não ouviu a buzina.

A letargia da falta de descanso dificultava até as ações mais automáticas.

Cópia de uma cópia de uma cópia.

Armando não sentiu seu pé tocar o chão.

Armando não ouviu os freios rasgarem o asfalto.

Armando não ouviu os gritos.

Armando não sentiu o impacto.

Armando finalmente dormiu

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Jornalista. Fã de gore, terror e todas as bizarrices da internet. O pessoal daqui diz que eu sou um Shinigami.

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