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Capa de Os Invisíveis Vol. 3 – #7… sacou as referências?

Quando o Radiohead terminou de colher os louros do sucesso avassalador de OK Computer, dois caminhos surgiram à frente da banda com relação ao seu próximo disco: agradar aos fãs e mídia para se tornar a maior banda do planeta, ou chutar tudo isso, seguir o próprio nariz e fazer a música que desse na telha. Eles estavam acabados, moídos, e absurdamente descontentes com a profusão de shows, entrevistas, e sessões de fotos, que pareciam intermináveis – mais sobre isso no documentário Meeting People is Easy. Essa não era a visão que tinham do sucesso, o que os levou a afirmarem que só continuavam naquela porque realmente amavam a música. O caminho seguido por eles foi talvez uma das mais dramáticas reviravoltas no som de um grupo musical nas últimas décadas. Com o nome de Kid A, o quarto álbum da banda foi (aparentemente) na contramão do que se esperava.

As guitarras foram embora, e ficou uma estranheza sonora bizarra, meio etérea, no lugar das maravilhosas canções que o grupo costumava compor. Imediatamente, uma série de reações diversas começaram a surgir em resposta a maluquice do disco. Alguns fãs declaravam que era o fim do Radiohead (Thom Yorke realmente cogitou trocar o nome do grupo após OK Computer), enquanto outros diziam que o álbum era “estranho”, “difícil” e “para poucos”. O fato é que OK Computer havia sido um marco sem precedentes na década de 90, só igualado em importância pelo chute-na-porta de Nevermind. E mesmo sendo superlativo, alguns fãs já reclamaram dele, justamente com os mesmos adjetivos que agora choviam sobre Kid A. Por que? Porque os dois álbuns eram arte no mais pleno sentido da palavra, e mudaram tudo que eles conheciam sobre o Radiohead até o momento!

O que é arte, principalmente quando colocamos o termo pop no meio da conversa? Arte é quando é quando o cara denominado artista (seja lá o que ele faça, desde música a games, passando por quadrinhos e livros) se despe de qualquer pressão de mercado ou de fãs, e faz aquilo que acha que é melhor, baseado em percepções, idéias e emoções. É o que chamam de “fazer pra si mesmo”. O artista faz exatamente o que David Lynch sutilmente retratou em uma cena meio autobiográfica de Cidade dos Sonhos: dispensa idéias estapafúrdias vindas de fora e toma as rédeas de sua obra – às vezes de forma violenta.

Foi isso que o Radiohead fez e isso os permitiu evoluir. De Pablo Honey para The Bends – os dois primeiros CDs da banda – houve uma evolução gigantesca, e tal fato  só ocorreu porque eles pegaram um som típico do U2 e de outras bandas da época e jogaram seu próprio estilo, com aquela melancolia reflexiva que é normal no mundo de Thom Yorke & cia. Somado a isso, pegaram o som deles, e acrescentaram a influências de outras bandas as quais eles eram fãs. Se Pablo Honey tinha o megahit Creep, em meio a um apanhado de canções grunge com um estilo meio britânico, The Bends tinha Street Spirit, Fake Plastic Trees, Just, e Bones, isso só para ficar nas mais famosas. Como estavam fazendo sucesso – The Bends vendeu mais de 2 milhões de álbuns – eles receberam carta branca pra poder fazerem o que bem entendem. Após uma temporada trancados numa mansão alugada no interior do Reino Unido, eles saem com o álbum pronto, mais um passo à frente na carreira deles com relação a qualidade. Como é de praxe numa obra assim, sofisticada e meio esquisita, os executivos da gravadora viraram a cara, principalmente pela não-presença de um single para tocar exaustivamente na programação das rádios. Os produtores optam porParanoid Android e seus longos seis minutos e meio de experimentações eletrônicas e variações vocais. A música é bem recebida pelo público inglês e o resto é história…

Fazer arte é para poucos. Fazer arte e ter o devido reconhecimento, tanto popular quanto crítico, é para menos gente ainda. No cinema vemos casos assim, embora na Sétima Arte a porção entretenimento da coisa esteja muito mais em voga por questões financeiras – é muito mais caro produzir um filme que um álbum musical. Vemos vários diretores fazendo arte, filmes aparentemente para eles mesmos, mesmo que no fundo o seu propósito seja apenas entreter. Provavelmente o exemplo mais óbvio de um meio termo balanceado entre esses dois fatores menos dicotômicos do que parecem, seja Quentin Tarantino. Talvez seja ele que mostre o quanto arte pode ser irônica. O queixudo não teve formação em cinema até seu segundo filme (depois de Cães de Aluguel ele fez um curso de direção em Sundance), tendo absorvido tudo que sabe sobre cinema simplesmente assistindo toneladas filmes. É aquela típica história que todos gostam de ouvir e se inspirar.

Os filmes de Tarantino são colagens de um monte de coisas bizarras – tanto famosas, quanto obscuras – que ele já viu, juntamente com o estilo selvagem, hilário e bizarro dele próprio. O resultado é que todos os filmes dele são únicos e têm aquele verniz que te faz reconhecer com alguns segundos que está diante de um filme de Tarantino. E isso é exatamente a definição mais precisa de arte: acrescentar algo novo a uma multidão de coisas que você – e o mundo – conhece e referencia em sua obra.

E entretenimento? Bom, o entretenimento é o que sobra quando a arte vai. Não é sinônimo de porcaria, como alguns metidos a intelectuais falam por aí, pois existem obras de muitíssima qualidade feitas com o único intuito de servir como escapismo. Uma comédia do naipe de Se Beber, Não Case é entretenimento puro, mas nem por isso deixa de ser muito bom e cumpre com louvor a meta dela de nos fazer rir. Mas, ao mesmo tempo, existem filmes um pouco mais populares que se enquadram na categoria arte, como por exemplo, A Lista de Schindler.

A arte tende a incomodar, fugir das fórmulas estabelecidas, gerar discussões, exigir mais do leitor/espectador/jogador, por isso mesmo não cai no gosto popular, em boa parte dos casos. Não é fácil para o espectador comum, que trabalha 10 a 12 horas por dia, assistir um filme que exija que ele tenha certos conhecimentos de outras obras, e de fatos históricos não tão populares assim. Quadrinhos é uma das artes que mais puxa pra esse lado, tornando-a das mais vanguardistas e sofisticadas. Pegue Os Invisíveis pra ter um exemplo do gênero de “super-heróis”. Não dá pra você simplesmente lê-la e passar para a próxima série de quadrinhos da sua coleção. Se quiser sacar tudo que tá rolando naquelas páginas, você tem que realmente mergulhar na trama, caçar referências, olhar histórias passadas, conhecer mitologia asteca, Magick, a obra de Sade, viagens no tempo, e mais uma pá de coisas. E Grant Morrison, o cara que escreveu a parada, não tá nem aí para o fato de você se ligar nisso ou não, a iniciativa tem que ser sua de buscar respostas e montar o quebra-cabeças que ele armou. Caso não queira, não precisa ficar de mimimi e chamar de viagem na maionese de careca com sotaque… simplesmente pule fora do barco, ele não é pra você.

Outro exemplo é a Liga Extraordinária. Alan Moore criou uma obra de entretenimento, uma graphic novel de super-heróis. Porém, o resultado vai muito além disso, e coloca sob o mesmo teto, literatura inglesa vitoriana, livros de Julio Verne, línguas marcianas… e um monte de outras coisas, sendo que parte delas Eu ainda não identifiquei, provavelmente. Entende?! ISSO é arte! É dar um passo adiante e procurar fazer algo ainda não realizado, ou melhorar algo já exaurido. É fazer o cara que pagou por ela querer mais, dá aquela sensação de vitória no fim, e não um reles Próxima!.

Mas nem só de referências vivem as obras de arte. Veja o caso de Old Boy da vida. Existem ali referências estéticas, mas saca-las não é uma espécie de passaporte para o entendimento do filme. Aliás, o cinema de Chan Wook-Park não exige nada mais que atenção a todo o momento com os detalhes visuais e textuais do filme… e estômago. Talvez conhecer a linguagem dos mangás e de outros tipos de literatura oriental ajude, assim como sacar um pouco do modo de vida coreano, mas não é fundamental. É como um delicioso bolo em camadas: quanto mais você conhece, mais partes do bolo pode comer, e torna a experiência mais completa. No geral, dar respostas na cara (como um close de dez segundos de um personagem fazendo algo fundamental pra trama, como já é clichê, ou o vilão explicando o plano maligno dele no final), não é coisa de gente da arte, eles gostam que você participe e preenche as lacunas com o que você saca também. Geralmente os artistas gostam de deixar enigmas, pequenos pontos pra discussão, pra não encerrarem a obra assim que você termina de degusta-la. Tipo Era Uma Vez na América, em que Noodles (Robert De Niro) começa e termina o filme mandando ver no ópio… abrindo a possibilidade do brilhante e épico longa metragem que você acabou de ver não passar de uma viagem de um mafioso chapado. Mas, no fim, a escolha é sua, a arte permite isso também, coisa que não rola em O Quarteto Fantástico, isso poderia diminuir as filas de adolescentes comprando ingresso.

 

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Blade Runner. Sem mais palavras

Caso ainda não tenha entendido, é só mentalizar a diferença entre Transformers e Blade Runner (isso, para citar somente filmes de robôs). Um é unicamente um espetáculo visual com cenas mal cortadas de brigas de robôs – e no fundo, no fundo, só vale a pena porque a Megan Fox decidiu abrir aquele capô – enquanto o outro é um conto moderno, que mesmo com a idade relativamente avançada para essa cultura de imediatismo que está sendo pregada, flerta com o futuro, lançando questões fundamentais até na clássica pergunta quem somos nós?. Eu gosto dos dois (não muito de Transformers, para ser sincero, porém, digamos que goste), mas creio que existam momentos corretos para cada um. Às vezes é preferível ver Forrest Gump, e às vezes, Clube da Luta (para mim, o segundo melhor filme de todos os tempos). Pode ser que seu expediente de trabalho, que mais parece as lagartas de um Panzer te esmagando, impossibilite você de assimilar uma obra de arte em sua totalidade. Nesses casos, manda um Debi & Lóide e seja feliz.

Nessa altura da conversa você deve estar pensando em escrever num comentário profundamente irritado, afinal, parece que estou taxando de superior quem gosta de arte (e me achando superior, por querer definir algo tão subjetivo quanto isso). Bom, entenda como quiser, mas realmente acho superiores os filmes de arte. Mas, como toda a regra, temos exceções, e não curto diversas das coisas taxadas de arte por aí, como Almodóvar, e a onda de culto em cima de Bollywood, enquanto gosto e assisto inúmeros filmes de entretenimento.

Mas, mesmo com a discussão à respeito disso não se esgotar de forma alguma, o lance é que, você define seus conceitos, não precisando ir na onda de ninguém quanto ao que é bom e o que é ruim, o que é arte, o que é entretenimento, e o que é lixo descartável. Cada um tem seus valores, e cada um tem sua visão. Só não a queira impor a sua ninguém… e sempre, SEMPRE tenha opinião própria.

PS: Quanto ao Radiohead, parece que eles estavam certos de novo. Kid A hoje é aclamado como o disco da década por veículos como a Rolling Stone, e uma multidão de bandas copiaria o estilo maluco e irrotulável das canções dele. Dois anos depois, eles dariam outro passo a frente e lançariam Hail to Thief, um álbum politizado, e que sonoramente é a união perfeita do experimentalismo de Kid A, com a perfeição de OK Computer. Fora que seus maiores detratores, o Oasis, encerraram suas atividades, levando a velha guarda do britpop com eles! O mundo da Arte é assim mesmo.

 

Publicado originalmente em: http://nerdssomosnozes.blogspot.com.br/2010/06/hyperespaco-18-arte-x-entretenimento.html

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