angelo

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Acho isso um absurdo. Sou um estudioso, um intelectual. Mesmo assim sou tratado como… um bicho. Sou um animal? Sim. Mas cresci e ganhei consciência. Não parei por aí. Fiz faculdade, me formei antropólogo, aprendi sobre a cultura humana e finalizei um mestrado em sociedades primitivas e sua evolução. Entende? Não sou mais o Cascudo, uma tartaruga comedora de alface. Agora sou Augusto Quelônio, um Jabuti-Piranga que almeja um PhD.

Vivo criticado pela sociedade humana e animal. Os homens se acham superiores por terem evoluído por milhares de anos mas, pensando bem, nós evoluímos da noite pro dia. Quem é melhor? Os animais criticam minha adequação à cultura humana, mas o que posso fazer se gosto de ternos italianos ou da boa cozinha francesa? Se os gansos não cresceram, problema deles. Vou continuar comendo meu foie gras sem peso na consciência. Se sou estudiosos de homens e bichos, tenho que viver nas duas realidades.

Todos me criticaram quando anunciei meu casamento. Eu e minha esposa nos amamos. O fato de ela ser humana não vem ao caso! Não pudemos nos casar na igreja, sonho dela, pois a congregação não acredita que animais vão para o céu. Tivemos problemas em comprar nossa casa pois, segundo eles, animais não podem ter dinheiro. Mesmo eu sendo o professor mais bem pago de minha universidade, mesmo sem doutorado, esses fascistas insistem em me deixar de lado! Alguns amigos humanos disseram a ela que nunca iria poder ter filhos mesmo sem perguntá-la se ela ao menos queria tê-los! Falaram que nunca dormiria comigo, mas nenhum dos tais “amigos” sabia sobre seu sono frágil — e como dormir em camas separadas se tornou algo positivo em nosso relacionamento. Tiveram a pachorra de avisá-la sobre a óbvia ausência de vida sexual mas… algum deles já viu o tamanho do pênis de uma tartaruga? Aposto que não. E se sua esposa ainda não viu, impeça-a.

Ufa, perdoe-me pelos gritos. Não costumo me exaltar em entrevistas, mas esse assunto me deixa assim mesmo.

Não quero ser um revolucionário. Quero direitos iguais, uma conta no banco e assentos adaptados em aviões. É tão difícil assim? Os humanos se dizem superiores mas negam o reconhecimento da nova classe animal. Negam por inúmeros motivos, mas eu ouso dizer que a única razão é a que mais sabemos farejar. É medo. Os humanos tem medo. Pergunto: são vocês homens ou animais? Já era tempo desta frase se inverter e revelar, enfim, a diferença entre o Homo Sapiens Covarde e eu, um legítimo Testudiniae Chelonoides Sapiens.

O post Augusto Quelônio apareceu primeiro em Mob Fiction.

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