Idea Machine

evandro

Por um tempo, eu achava que a ideia fazia parte de mim, por isso, ela era minha.

Eu me lembro dos incontáveis dias em que ela ideia fluía na minha cabeça. Os momentos em que ela se construía, pouco a pouco, juntando seus fragmentos, tornando-se algo sólido o suficiente para ser jogada no papel. Era genial, era excelente e extraordinária; era a ideia que havia nascido para ser minha obra prima.

– Eu nasci para escrever você!- eu dizia enquanto ela flutuava em minha mente.

Enquanto eu esperava o momento certo para escrevê-la, eu elaborava o melhor jeito de começar, pois uma ideia como aquela deveria ser bem trabalhada. Cada linha, cada sílaba, cada mínimo detalhe deveria ser pensando para que ela fosse melhor transmitida.

Sim, sim, sim, eu com certeza ganharia algum prêmio por ela.

Esperei, esperei e esperei mais um pouco até que ela se formasse por completo. Os dias foram passando e a cada um que se passava, ela se tornava melhor e encorpada….

Time skip!!

Então o dia chegou. Seria memorável. Estava pronto para escrevê-la. Ela se tornara coesa e bem construída durante o tempo de espera.

O computador estava ligado; meus dedos estavam alongados e eu preparado fisica e mentalmente.

A página em branco estava no monitor. Eu sorri. Coloquei uma música de fundo.

“Gonna fly now”

E então! Quando meus dedos tocaram nas primeiras teclas, notei algo diferente. Tentei digitar novamente. Tentei digitar novamente. Tentei digitar novamente. Tentei digitar novamente. Novamente. Novamente. Digitar. Porra. Digitar novamente!

Eu comecei a suar frio. Meus dedos começaram a tremer. Os meus planos haviam virado pó e entrado nos meus olhos.

A ideia havia sumido.

– Maldição!

Eu a perdi! Como podia ter feito isso!

Depois do choque, voltei a raciocinar- “Onde foi que eu a vi pela última vez?”

Não estava de baixo da cama, nem atrás da estante. Nem na mesa do computador.

Olhei em todo o quarto. Revirei cada centímetro e interroguei meu irmão.

– Onde você estava na noite de segunda feira?- perguntei enquanto ele se encontrava amarrado numa cadeira, já com alguns hematomas causados por um pokémon que veio junto com um mclanche feliz.

– Eu estava aqui! Seu imbecil! Eu estou aqui! Hoje é segunda feira e é noite!- os argumentos dele faziam sentido. Ele realmente estava ali. Era segunda feira e era realmente de noite. Larguei o pokémon e o soltei.

Depois de me recuperar do soco do meu irmão, continuei minha busca. Cheguei até a cozinha. Meus pais jantavam:

– Vocês viram uma ideia passar por aqui?- eu perguntei.

– Por que o seu nariz está sangrando?- minha mãe perguntou.

– Deixe isso para depois, mulher! Vocês viram uma ideia por aqui?

Depois de me recuperar do tapa da minha mãe, meu pai me entregou um bilhete.

– Ela passou por aqui e nos pediu para te entregar isso.- me pai me entregara o pedaço de papel dobrado.

“Cansei! Agora vou expandir meus horizontes longe de você!

                                                                                        ASS: A Ideia.”

Amassei o papel com toda a fúria:

– Traidora!!- eu gritei- Para onde ela foi?

– E eu que vou saber! A ideia é sua!

-Para de gritar, moleque! Tô vendo a novela! Por que não vai arranjar um emprego?!

– Agora não, mãe! Há coisas mais importantes em jogo agora! Há quanto tempo ela saiu?

-Sei lá, menino! Saí da frente da tevê!- a tevê ficava na sala numa posição estratégica de onde podia-se vê-la da cozinha. Eu deveria ter dito isso antes.

Saí de casa. Olhei para os lados. Era em vão. Não havia como encontrá-la. Era o fim. Caí ajoelhado, olhei para o chão e senti o gosto amargo do fracasso.

– Ei, rapaz!- Alguém me disse. Logicamente achei que fosse um ladrão, pois um estranho no meio da noite sempre é suspeito. Fui levantando o rosto devagar, já ensaiando a frase “Pô cara, só deixa os documento valeu?”, quando me deparei com um senhor baixinho de boina e bigode( é só isso que eu me lembro dele)- está procurando uma ideia?

Meus olhos brilharam:

– Sim, sim!- eu disse animado.

– Eu a vi conversando com um cara na frente de um bar. Sabe, é uma ótima ideia. Eu perdi uma também, quando eu tinha mais ou menos a sua idade. Fiquei na mesma posição e estado em que você estava, então pensei que ela poderia ser sua.

– Isso não faz o menor sentido, mas obrigado!- eu me levantei com o espírito renovado- Onde fica o bar?

– Bem, a duas esquinas daqui, não há como se perder. Boa sorte. Uma ideia como aquela não se deixa escapar!

– Certo! Muito obrigado! Qual seu nome?

– Deus ex machina, mas pode me chamar Cadinho.

Achei um nome bem esquisito, mas ele disse que é descendente de italianos.

Corri até minhas pernas cansarem. O nome do bar era Guero’s. Havia vários carros e motos estacionadas na frente. Dois homens surgiram brigando, esmurrando a fuça um do outro, até que um deles foi arremessado até o vidro de um dos carros. Enquanto a luta acontecia, notei a minha ideia conversando com o tal homem (eles pareciam nem se importar com o tumulto).

O homem se aproximava dela e sussurrava em seus ouvidos. Eu pude ler seus lábios e identificar suas palavras venenosas “Sabe, eu sou escritor e achei você uma beleza sem tamanho. Que tal nós irmos para a minha casa e fazer uma bela obra, hã?”

A ideia ficou vermelha e sorriu, virando o rosto em minha direção e arregalando os olhos quando me viu:

– O que pensa que está fazendo!?- Eu gritei. Logo ela disparara a correr. Ela corria muito para uma ideia a longo prazo- Espere! Espere!

Fui atrás dela, primeiro dei um empurrão no cara que queria roubar ela de mim. Ele tinha muitos músculos para um escritor.

Depois de me recuperar do soco do cara que queria a roubar de mim, continuei a perseguição pelas ruas escuras. Estava quase a alcançando. Quase. Quase. Quase. Minhas mãos a tocaram por um instante, mas ela se desvencilhou de mim.

Chegamos a uma avenida, onde os faróis dos carros nos cegavam e só me permitiam ver a silhueta da ideia se afastando cada vez mais. Por mais que eu gritasse para que ela parasse, ela não parava, a não ser no segundo em que ela se virou para me mostrar o dedo do meio.

Quando ela tentou atravessar uma rua, um carro surgiu abruptamente, freando violentamente, fazendo-a se assustar e cair no chão. O motorista abriu a porta e saiu com os olhos arregalados.

– Santo Deus! Você está bem!?

A ideia me viu se aproximar. Olhou para o motorista, se levantou, se aproximou dele e lhe deu um chute nos testículos. O homem gritou e caíra em posição fetal com lágrimas nos olhos. Imediatamente, ela entrou dentro do carro:

– Não! Espera! Por favor!- a minha súplica só a fez fechar a porta e ligar o carro mais rápido.

Antes que o carro saísse, me joguei no vidro.

– Por que você tá fugindo!? Fica comigo! Por favor!

Ela olhou para mim. Suas mãos estavam no volante e no câmbio; eu me perguntava “Aonde diabos ela aprendeu a dirigir?”; o motorista gemia de dor lá fora no chão frio; o motor do carro ainda estava ligado; eu, debruçado sobre o capô e com o rosto colado no vidro sentia meus genitais esquentarem, mas não podia interromper aquele pequeno momento de introspecção da ideia.

Acho que foi naquele momento em que começou a garoar.

Ela sorriu para mim. Então eu tive certeza que ela voltaria para mim.

Só que ela acelerou o carro ao invés disso. As minhas certezas nunca valem de porra nenhuma!

O vento cortava gelado, fazendo até meus ossos doerem. Ela não podia enxergar comigo no vidro, então o carro ziguezagueava, o que me fazia escorregar pouco a pouco, o que me fazia urinar pouco a pouco. Eu sei que eu deveria ter visto a minha vida passar pelos meus olhos, mas tudo o que me vinha era a minha foto numa reportagem do programa do Datena.

A ideia acelerava e acelerava, fazendo o motor arrancar. Meus olhos, que estavam fechados se abriram e eu pude ver os lábios dela se movendo enquanto ela dizia:

– Voe!

Assim, ela freou. O pneu cantou como um tenor, e eu voei a vários metros, quebrando um braço, rolando, me ralando e deixando marcas de sangue no asfalto.

Era incrível como as ruas estavam vazias.

Ouvi a porta do carro se abrindo. Senti que algo me arrastava. Era ela me puxando para a calçada. Bati a nuca no meio fio.

Ela me sentou, me encostando contra um poste, deixando uma luz direta sobre mim como se fosse um holofote. Admito que eu já estava quase desacordado, mas senti os tapinhas que ela me deu no rosto, o que me puxou de volta.

Agachada diante de mim, olhando nos meus olhos, era assim que ela estava.

– Eu te procurei de baixo da cama e atrás da estante, mas parece que você tomou outras proporções, não é?- eu disse respirando vagarosamente- Você vai embora mesmo?

– Eu acabei de te “jogar” de um carro. Cara, tenha um pouco de dignidade!

Ela se levantou e foi adentrando o carro novamente:

– Dentro da sua cabeça, eu não tinha valor nenhum. Eu nasci pra ver a luz do dia e não mofar na sua imaginação. Eu me cansei de você. Eu não sou sua.

Ela entrou. O carro acelerou e desapareceu noite adentro.

E eu fiquei ali, machucado naquela noite com garoa, sem ideia nenhuma do que fazer.

O post Baby,please don’t go! apareceu primeiro em Mob Fiction.

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