As histórias em quadrinhos japonesas, também conhecidos como mangás tiveram sua origem através do Oricom Shohatsu (teatro das sombras). Este consistia em um grupo de artistas que na época feudal percorria os vilarejos contando lendas e histórias por meio de fantoches. Com o passar do tempo, essas histórias foram sendo reproduzidas em rolos (emakimonos) de papel com diversas ilustrações. Conforme os emakimonos eram desenrolados as histórias iam sendo contadas.

Os mangás, no entanto, só obtiveram o formato que possuem hoje a partir do século XX através de Osamu Tesuka. Tesuka trouxe o estilo que hoje chamamos de mangá, onde os olhos, nariz, boca e sobrancelhas são destacados nos desenhos para dar maior expressividade aos personagens, além da percepção de movimentos, onomatopeias e a alternância de planos como em uma produção cinematográfica.

Com a popularização dos mangás, principalmente entre o público jovem surgiram os Mangakás (estima-se que em 2006, mais de 3000 mangakás foram trabalhar no Japão), que a grosso modo são os artistas de quadrinhos japoneses ou quadrinhistas.

Bakuman conta a história de dois alunos do ginasio Moritaka Mashiro e Akito Takagi. Mashiro é um jovem de 14 anos que está cursando o 9º ano do ensino obrigatório (como se fosse o antigo primário, pelo menos na minha época). Como todo jovem japonês, aliás do mundo inteiro, ele já começa a ser pressionado pelos adultos sobre o seu futuro. Apesar de não saber o que irá fazer da vida, Mashiro tem uma certeza: “vou ter um futuro chato, com uma vida maçante”.

Em mais um dia de aula, Mashiro viajando em seus pensamentos olha atentamente para Miho Azuki sua colega de sala. Ao mesmo tempo em que “filosofa” sobre amor ou a “coisa pela qual vale a pena viver”, Mashiro desenha (herança deixada por seu tio, um mangaká que não conseguia fazer mais sucesso que vários anos após seu último trabalho, havia morrido de tanto trabalhar tentando emplacar uma nova história) em seu caderno o perfil de sua grande paixão, a qual admirava naquele momento convicto que jamais daria certo e, que esse sentimento “só ajuda a afundar a minha vida nas profundezas do inferno”.

Chegando em casa, Mashiro descobre que esqueceu justamente o caderno em que desenhava os traços de Azuki na sala de aula. Com medo que alguém descobrisse seu segredo, Mashiro decide retornar a escola para recuperar seu caderno. Chegando lá encontra Akito Takagi, seu colega de classe, um dos alunos mais promissores e brilhantes do colégio com seu caderno em mãos. Inteligente e observador, Takagi elogia a beleza de Azuki e revela a Mashiro que Azuki também gosta dele (apesar de ser apenas um “achismo” de sua parte). Takagi então sinaliza que não tem a intenção de ficar com o caderno nem tão pouco contar a ninguém sobre os sentimentos de Mashiro por Azuki (embora a essa altura Mashiro já estivesse achando que era Takagi quem gostava de Azuki). Contudo ele impõe uma condição: “Quero que desenhe minhas histórias para virarmos mangakás”.

Relutante em virtude do passado de seu tio, Mashiro acaba prometendo a Takagi que irá pensar sobre o assunto. Ao anoitecer, Takagi convida Mashiro para ir a casa de Azuki dando a desculpa que irá se declarar para ela. Chegando lá, após chamarem Azuki descobrem que a jovem possui um sonho: a de ser dubladora (seiyuu). Em um momento de adrenalina (e hilário por sinal) Mashiro acaba pedindo Azuki em casamento, para sua surpresa ela aceita com condição dele ser realizado somente após eles realizarem os seus respectivos sonhos, ou seja, ela ser dubladora e ele mangaká. Aí é o início de uma grande parceria e o nascimento de uma amizade que se revelará indestrutível.

Criado por ninguém menos que Tsugumi Ohba e Takeshi Obata (do mangá mais foda que eu já li Death Note), Bakuman se revela mais que uma simples história ou um simples mangá. Logo no primeiro capítulo encontramos o drama adolescente habitual em obras shonen, já que o público alvo são adolescentes, em geral do sexo masculino. Apesar de trazer o drama pessoal dos personagens, a obra logo em seu primeiro volume traz uma aula sobre mangá, e a meu ver uma visão muito pessoal de Ohba sobre a profissão.

Logo no início da história quando Takagi tenta convencer Mashiro a formar uma dupla com ele, Mashiro traça uma diferença entre um Mangaká e um mero “Apostador”. O verdadeiro Mangaká é aquele que consegue viver a vida inteira só fazendo mangás, se a pessoa não consegue esse feito é apenas um “apostador”. Ohba consegue inclusive, fazer uma piada de sua própria condição pessoal quando Mashiro diz que: “Até o autor de Death Note, que você mencionou, escreveu em algum lugar que se não tiver algum novo trabalho, morrerá de fome em 5 anos”.

Citando ainda obras como: Ashita no Joe (Mangá de boxe publicado em 1968) e Kyojin no Hoshi (Mangá de beisebol lançado na década de 60), Ohba consegue não só despertar o interesse por essas histórias, mas consegue com maestria atiçar a curiosidade pelos clássicos que fizeram parte da história evolutiva dos mangás até se tornarem o que são hoje.

Falando ainda sobre Ashita no Joe, o autor enumera o que ele chama de “As cinco regras para um mangaká, as cinco regras para um homem”, tais regras eu faço questão de enumerá-las, pois são perfeitas demais:

1- ”Nunca crie obras supérfluas. Transforme todo o seu sangue em tinta!”;

2- “Nunca busque a popularidade efêmera da flor. Cave a terra e adube suas raízes”;

3- “Não se arrependa de perder o sucesso que obtenha. Entre a tempestade e a paz, escolha a tempestade”;

4-  “Nunca chore pelas derrotas. Aprenda com os erros e deixe que a vitória nasça deles”;

5- “Nunca ache que está certo, mesmo que siga todas as regras anteriores. Todos ao seu redor são seus professores”.

Outro ponto igualmente importante são os aspectos técnicos dos profissionais. Ainda no primeiro volume o autor explica o que é um Storyboard, a dificuldade e a diferença entre usar bicos de pena e os bicos “G”, este usado pelos profissionais, mas de extrema dificuldade para manuseio. O Storyboard merece um destaque. Além da explicação em si do que se trata o mesmo, ao final de cada capítulo, Ohba coloca o Storyboard dele e de Obata referente a folha que encerra aquele capítulo, ou seja, ele coloca o antes e o depois daquela última página para o leitor ter um exemplo prático de como é feito o Storyboard.

Além dos aspectos elencados acima, a obra explica todo o processo desde as reuniões com os editores, os prazos que a editoras dão aos autores, os concursos e os prêmios como: o Prêmio Tezuka e Akatsuka, estes promovidos pela Jump Sueisha, uma das maiores editoras de mangá Shonen do Japão com o intuito de revelar novos talentos.

A título de curiosidade a Shonen Jump, nos anos 80 vendeu mais de 6 milhões de exemplares por semana, acreditem. Os carros chefes da época eram: Dragon Ball, Yu Yu Hakusho e é claro Cavaleiros do Zodíaco. Hoje, a estimativa caiu pela metade, sendo 3 a 3,5 milhões de exemplares vendidos por semana somente no Japão. Ainda sim, a meu ver, é um número considerável.

Ohba e Obata mais uma vez mostraram a que vieram e impressionam. Não vou dizer que Bakuman superou Death Note, até porque a meu ver são gêneros bem diferentes, mas posso dizer que apreciei muito essa obra. Aqui no Brasil o mangá já se encontra no volume 8 (comprei hoje na hora do almoço e ainda nem li, partindo do pressuposto que escrevi esta resenha na madrugada do dia 13 para o dia 14 de Abril), mas nos sites especializados por aí (Não vou divulgar nenhum site. Publicidade fica por conta do setor financeiro da MOB, entre em contato) vocês encontram todas as anteriores tranquilamente.

Quem curte mangás assim como eu e quer aprender mais sobre essa profissão de uma forma inteligente, divertida ou até mesmo matar a curiosidade de como são feitos, todos os percalços que um mangaká passa até alcançar a glória e como também podem ir do céu ao inferno em um piscar de olhos, Bakuman é uma boa leitura.

Título: Bakuman

Autores: Tsugumi Ohba e Takeshi Obata

Nota: 9,0

Páginas: 206 – Volume 1

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3 COMENTÁRIOS

  1. =

    Como bom leitor de mangás e manhwa’s ( quadrinhos coreanos ) não poderia deixar de comentar.

    Então… já leio Bakuman de longa data por scan ( não me crucifiquem ) e achei o máximo ser serializado pos aqui… o mais foda e surpreendendo em Bakuman que vc além de “presenciar” eles tendo idéias, te dá ideias de “como ter idéias” pra roteiro hahah

    Muito bom, pra quem tem “preconceito” com mangá recomendo, e pra quem gosta, recomendo em dobro.

  2. Além de tudo que o autor escreveu, acrescento que Bakuman também é muito inspirador, tanto no campo intelectual – como citou o tio chocomalk – como também no psicológico. Trabalhar com o que gosta, fazer as coisas com dedicação, criar e buscar sonhos, tudo isso é muito positivo. Assistindo ao anime de Bakuman até me animei a criar um conto (rsrsrs).

    • Reamente, eu lembrei de quando eu era pequeno e fazia curso de mangá. Dá vontade de retornar e ser Mangaká (hahahah).

      Bakuman como vocês bem colocaram é inspirador, uma lição de vida a ser seguido por todos nós. Se fizermos o que gostamos e nos esforçarmos, sem dúvida conseguiremos realizar nossos sonhos ;)

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