Eu admito que o pouco que sei sobre Hunger Games (ou “Jogos Vorazes”, como é conhecido aqui no Brasil) provém dos trailers que vi, com Crepúsculo (Nota: grande bosta) terminando e a geração Harry Potter órfã e amadurecendo após a conclusão da série, os estúdios de cinema estão a todo vapor, a procura da próxima grande “saga” cinematográfica, um hábito que se tornou irritante e recorrente no mercado de entretenimento.

Nas redes sociais, tem rolado uma controvérsia sobre a similaridade do enredo de Hunger Games com outro clássico, bem conhecido e conceituado pelos amantes do cinema alternativo, o thriller de japonês Battle Royale, lançado em 2000, dirigido por Kinji Fukasaku, que faleceu em 2003, aos 72 anos de idade.

Fukasaku é famoso em seu meio e pela crítica especializada, responsável por obras como Battle Without Honor or Humanity, seus trabalhos serviram como umas das inúmeras fontes onde Quentin Tarantino buscou inspiração para Kill Bill.

Para entendermos o que torna tão forte a imagem de BR para as audiências do mundo todo, é preciso analisar sua proposta de roteiro: em um futuro próximo, um projeto militar obriga turmas de alunos colegiais a digladiar-se até a morte durante três dias, isolados do mundo em uma ilha remota do arquipélago japonês.

O filme (e sua consequente adaptação para quadrinhos) é dotado de uma brutalidade quase pornográfica, retratando cenas de violência entre jovens que, incapazes de compreender plenamente a injustiça da situação, buscam apenas sobreviver, custe o que custar.

BR é uma alegoria para a desconfiança entre gerações, em um país onde os índices de natalidade caem drasticamente ano após ano, a distância ideológica e emocional cada vez mais extensa entre jovens e adultos cria um clima de desconfiança e inquietação.

Este sentimento não é à toa, as décadas que precederam o lançamento de BR foram de casos de homicídios envolvendo adolescentes e socialmente desajustados, deixando evidente a decadência das leis de proteção ao menor naquela nação.

O assalariado recém-ingressado a vida adulta e profissional cresceu vendo casos como o o brutal assassinato de Junko Furuta, as atrocidades cometidas por nomes como Tsutomu Miyazaki (o famoso “homicida otaku”) e Seito Sakakibara (com 14 anos de idade, responsável pela morte de dois colegas menores) e tantos outros episódios que sem dúvida alimentaram os abutres da imprensa sensacionalista.

Não é a toa que quase todo elenco era jovem, menor de idade e que as gravações foram realizadas em ilhas ermas do país, além de questões óbvias, como o orçamento ridiculamente minúsculo (em parte pela falta de fé dos produtores e investidores), a decisão do diretor Kinji Fukasaku tinha um motivo ulterior.

Fukasaku vivenciou de perto os horrores da Segunda Guerra Mundial, e assim como no filme, viu milhares de jovem sem treinamento ou experiência irem embora de seus lares lutarem uma guerra já perdida, tudo isso a mando de velhos militares inescrupulosos.

A intenção de Fukasaku era clara, tocar em uma ferida que aos poucos tinha sido esquecida entre as gerações de japoneses, era uma mensagem de aviso, também um recado para instigar o debate sobre a violência e a eficiência das leis em seu país.

O filme é uma crítica precisa ao impiedoso e elitista sistema educacional do governo e ao mercado de trabalho japonês, a violência em Battle Royale é de tom humanista, sua natureza explícita reconecta o indivíduo, nos ajudando a relembrar que existem agentes que constantemente minam nossa humanidade ao longo de nossas vidas.

Para o ocidente, o filme veio a tempo de ser um soco na cara da América pós-Columbine, que um ano depois, ainda chocada e perplexa, procurava de forma tola os bodes expiatórios que atravessaram o teto de vidro da ilusão idílica da adolescência norte-americana.

O fantasma de Battle Royale voltaria a pairar na cultura americana em 2006, no auge das adaptações hollywoodianas de hits do cinema japonês. BR tinha seu nome cogitado até que no mesmo ano, um aluno da Virginia Tech abriu fogo – em plena luz do dia – contra seus colegas no campus, este episódio levou novamente o filme para a obscuridade.

Graças a restrições jurídicas da MPAA (Motion Picture Association of America) demoraria uma década para que o filme fosse lançado oficialmente nos Estados Unidos, fator que nunca impediu a crescente popularidade da obra entre curiosos e fãs do cinema.

Battle Royale detém de um comentário social com a mesma importância histórica de Laranja Mecânica e anteriormente, 1984, advertindo-nos dos males promovidos por governos totalitários e a falta de perspectiva entre as camadas mais jovens da população, apesar de sua violência estilizada, é um filme onde a proposta deve ser levada a sério e serve de advertência para todos nós.

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6 COMENTÁRIOS

  1. Acho que Battle Royale e Hunger Games tem públicos distintos e não é justo desqualificar um em prol do outro. Eles são coisas diferentes com propósitos diferentes. Eu vi os dois. Adorei BR! Mas Hunger Games ( ao menos o filme) traz questionamentos interessantes e linguagem apropriada ao público (adolescente).

  2. uma vez que BR veio antes, considero o HG praticamente um plágio, foi apenas adaptado para os padrões “blockbuster”. Mesmo assim não acho que deixe de ser um bom filme, só me encomodou o fato de não citarem o BR com referência, o que é inquestionavél.

  3. =

    Olha num vi o filme não
    só li os mangás de Battle Royale
    mas da pra perceber que Hunger Games é cópia ferrada

    só acrescentaram coisas (como os 12 guetos lá)
    mas no geral é a mesma coisa. Só que como disse Bárbara
    adaptado pra público adolescente (e BEM menos violento)

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