fonte: Fuck Yeah Illustrative Art - tumblr

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Nunca acordava cedo. Nunca gostava de sair à rua logo pela manhã. Nunca tinha disposição nenhuma antes das três da tarde.

Mas aquele dia era diferente dos outros. Naquele dia, o “nunca” havia virado uma palavra desconhecida.

Saiu de casa com pressa, com ânimo, com vontade de ver o maior número de pessoas conhecidas. O que, em qualquer outro dia, seria a última coisa que se iria desejar. Desceu as escadas do prédio, sem paciência alguma para esperar o elevador. A dor nas pernas lhe lembrou o quanto é ruim ser sedentário. Maldita falta de vontade de se exercitar.

A primeira pessoa que encontrou foi o porteiro. Um senhor baixinho, gordo, com um bigode grosso, que às vezes parecia se mexer sozinho. Era nojento demais. Ele sempre lhe perguntava “Cadê a namorada? Ué, não tem mais? Mas esses dias te vi entrando com uma garota tão bonita.” Sempre eram essas três frases, seguidas, sem lhe dar o tempo de responder. Por isso, todas as vezes que ouvia aquilo, apenas sorria de canto e dizia “Muito trabalho ultimamente.”

Mas naquela manhã não iria responder isso. Antes mesmo de dizer bom dia, foi logo falando:

-Sua vida deve ser mesmo uma grande merda para se interessar na minha vida sexual. Não, eu não tenho namorada. As garotas que trago aqui são prostitutas baratas. Acho que até o senhor iria conseguir comprar uma delas. Seria um bom modo de satisfazer essa sua vida medíocre de porteiro, não é mesmo?

O senhor abriu a boca para responder, pálido, os olhos arregalados em choque. Mas logo o outro riu alto, chamando a atenção das pessoas que passavam pela calçada.

-Ah não acredito, o senhor acreditou?! É claro que não é verdade. Eu nunca teria coragem de dizer isso a ninguém! A última garota era minha prima. Ela veio passar uma noite na cidade e precisava de um quarto. Feliz dia da mentira!

E saiu andando, com as mãos no bolso à procura do primeiro cigarro. A sensação lhe preenchia o corpo, como uma corrente elétrica em uma voltagem altíssima. Era delicioso se sentir daquele jeito.

O dia estava apenas começando. Ainda havia muitas pessoas a procurar.

Dia de entrega na faculdade. Era a chance perfeita para conversar com a professora, aquela que todos fingem gostar, na esperança de ganhar uma nota a mais.

-Se a senhora não ler meu trabalho, se não gostar dele, se não me der uma nota melhor do que 5, sabe o que irei fazer? Nada. É ué, nada. Pelo menos, enquanto a senhora ler meu trabalho, irá se distrair um pouco e parar de pensar em milhões de dietas que, pelo visto, não funcionam nada.

-Como é que é? Ficou maluco de vez garoto?! – o rosto redondo da mulher ficava vermelho a cada palavra que ouvia.

-Ai ai professora… Não sabe que dia é hoje? É dia da mentira! Eu vim ensaiando isso com o grupo de teatro. É o exercício da semana: pregar peças nas pessoas e ver quem consegue enganar mais pessoas. Consegui te enganar?

A senhora colocou a mão sobre o peito, expirando audivelmente, e rindo de um jeito meio nervoso, respondeu:

-Quase me matou do coração. Você é um ótimo ator. Deveria se sair assim nas matérias da faculdade também.

-Isso não é problema seu. – piscou, sorrindo. – Feliz dia da mentira!

E obviamente, a aula de teatro também foi apenas outra invenção. Uma mentira branca, para um bem ainda maior.

-Você é tão gorda que, toda vez que te vejo, parece que a gravidez passou de 10 meses.

-Eu odeio o jeito que você ri. Parece um pato se engasgando.

-Você fede. Sempre que me abraça, eu prendo a respiração por longos segundos. Usar sabonete não machuca sabia?

Falava tudo com a maior sinceridade que poderia ter, com uma força de vontade que nem sabia existir em si. Tudo isso porque passou a vida inteira sendo enganado. As pessoas se aproximavam dele por interesse, sempre queriam algo que sabiam que ele teria. Um pouco de dinheiro, um quarto vazio, uma cama quente, um ombro amigo, um ouvido que se cansava de ouvir a mesma ladainha de cotovelos doloridos.

Então, ele tinha o direito de poder descontar sua raiva nas pessoas, não é mesmo?

As pessoas sempre falavam as coisas, como se as palavras não tivessem peso. Falavam sem pensar, pensavam sem medir as consequências. Antigamente tudo era levado mais a sério. Não se diziam importâncias da boca para fora. Não se dizia “eu te amo”, “eu gosto de você”, “ficarei ao seu lado, não importa o que aconteça”, com a mediocridade que se faz agora.

Onde foram parar as tais palavras de gentileza?

O dia da mentira sempre teve um significado muito grande para ele. Porque era nesse dia que ele poderia ser o mais verdadeiro possível, dizer o que queria, inventar as desculpas após as palavras mais honestas que iria dizer no ano. E à noite, iria dormir com a consciência leve. Para acordar tarde no dia 2, de novo sem a menor vontade de olhar para aquelas pessoas falsas, nojentas e egoístas que o rodeavam.

Por mais clichê, idiota e infantil que isso pudesse parecer, o dia 1º era como o Natal para ele. O dia que poderia ser feliz de verdade. Mesmo assim, ainda usando uma máscara de brincadeira, para continuar enganando as pessoas.

Mas tudo bem. O mundo é feito de mentiras. Pelo bem ou pelo mal, as pessoas iriam sempre continuar mentindo.

E essa era a maior verdade que ele conhecia na vida.

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