O diretor Alexandre Moors consegue encontrar a razão por trás do hediondo.

Em 2002, John Allen Muhammad e Lee Boyd Malvo foram condenados pelo assassinato de 10 pessoas. Os crimes ocorreram durante o período de três semanas, e receberam a alcunha de “The Beltway Sniper Attacks“. Muhammad orquestrava os crimes, e o menor, Lee Boyd, era o dedo que puxava o gatilho – precisamente escondido no porta malas de um Chevrolet azul, modelo Caprice. Muhammad foi executado em 2009 por injeção letal, e Lee Boyd cumpre seis penas de prisão perpétua, com possibilidade de condicional.

Blue Caprice  (Chevrolet Azul), conduzido pelo diretor Alexandre Moors, é uma pequena obra-prima que fala dos sentimentos mórbidos que moldaram estes ataques. Algo que, talvez, seja difícil de ser assimilado por parte da audiência. Em nenhum momento, o roteiro (exemplar) de R.F.I. Porto (esse é o nome do cara) tenta se render a ficção. A poesia que existe na obra está no silêncio e nos olhares dos personagens, no sentimento óbvio de que algo errado muitas vezes não tem solução, quem dirá esperança. O texto consegue, de maneira incrível, exemplificar a razão por trás de algo hediondo – ela é torpe, condenável, asquerosa, mas ainda sim, de alguma forma, é razão.

A construção dos personagens é o ponto mais forte da produção. Quando John adota Lee, ele encontra, além de um filho, um discípulo, alguém que o entende e respeita, que o admira pelo fato de ser frio, calculista, inteligente. Alguém que finalmente o vê como um herói que ressurge das cinzas de um sistema falido e cruel, sistema este que merece ser combatido brutalmente – pois seria simplesmente loucura não fazê-lo.

É notável perceber a atenção do diretor em manter as coisas extremamente críveis e naturais. O primeiro contato de Lee com uma arma de fogo, é um dos momentos que exemplificam a qualidade da fita em termos de construção de cena. O garoto se mostra um prodígio desde o início, e com a orientação certa, ele se torna perfeito. Seu alistamento foi orgânico. Por mais sádico que isso possa parecer, ele basicamente nasceu para matar.

Os atores escolhidos para os papéis dos protagonistas foram Isaiah Washington e Tequan Richmond. O primeiro é um profissional experiente, já fez muita TV e cinema, mas no fim é um rosto conhecido por poucos. O segundo é lembrado no Brasil como o irmão Drew, da série “Todo Mundo Odeia o Chris” – seu trabalho mais relevante até então.

Analisando as interpretações tecnicamente, é possível se concluir que todo o elenco foi minuciosamente coreografado, no intuito de que a movimentação, expressões ou reações fossem as mais naturais possíveis. Mas no caso dos atores principais, percebemos uma dedicação extra.

Washington, sabiamente, se tornou um admirador de John, e assim, encontrou a intensidade exata deste complexo personagem, que passeia sordidamente por verdades fragmentadas, mas indiscutíveis do seu ponto de vista. Este grande mentor do crime, ironicamente, parece compreender muito bem seus defeitos, mas ele simplesmente opta por não acreditar neles, medindo com precisão os resultados de suas escolhas, mas nunca assumindo qualquer tipo de culpa, pois suas atitudes são produto do medo, assim como ele também é um produto do medo, chegando ao ponto de confundir-se com o mesmo. O homem abraça lentamente a loucura, de uma forma assustadoramente consciente, puramente psicopática.

Neste mesmo ritmo, temos Richmond. Seu papel pode ser visto, talvez, como “mais simples”, pois a principal característica de Lee é a introspecção. Mas o ator também encontra (provavelmente com o auxílio do diretor) a motivação que faz do personagem uma pessoa perturbadora. Embora ele não seja uma máquina sem emoções, o mesmo, como todo sniper que se preze, não se abre a sentimentos como remorso ou ansiedade, ele os oblitera. Como diz a cartilha, o atirador precisa estar pronto para eliminar alvos a distância, longe do combate, de forma fria e calculista. O sniper é uma peça fundamental da guerra, utilizada muitas vezes para minar a confiança e enfraquecer a moral do inimigo. Simples assim. Enfim, Richmond se saiu muito bem.

Resumindo: Blue Caprice é um filme impactante. Sua história é real, absurda, violenta e corrosiva. O diretor Alexandre Moors fez um trabalho impecável na ambientação da obra, alcançado um realismo impressionante, sendo ao mesmo tempo poético, mas de maneira completamente visceral, morbidamente triste. Frio, mas enraivecido.

Blue Caprice (Chevrolet Azul) –  (2013, EUA)

Duração: 93 min

Direção: Alexandre Moors

Elenco: Isaiah Washington, Tequan Richmond, Tim Blake Nelson, Cassandra Freeman, Joey Lauren Adams, Leo Fitzpatrick

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Jornalista guerrilheiro, entusiasta de games ligeiramente sangrentos. Já teve banda de Heavy Metal, hoje toca Beatles no violão. Ama a sétima arte de forma visceral, prefere dramas reais - pois acha que a vida em certos momentos é incrível demais para ser verdade. Já escreveu sobre cinema, música e jogos em alguns lugares, hoje é editor do site Crítica Daquele Filme... e precisa fazer mais exercícios.

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