– Isso não é normal

– O que não é normal?

– Nos sentirmos assim.

– Assim como?

– Exaustos o tempo todo.

Ela fechou os olhos e sentiu o peso do mundo nas suas costas, sentiu as ondas do mar batendo na nuca e a areia densa empurrar suas costas para baixo. Sentiu o corpo começar desintegrar aos poucos e o peito apertar. Um murro sendo pressionado contra a ponta de uma faca.

Tinha que abrir os olhos.

Precisava fazer isso mesmo não querendo.

O chumbo corria fluído por seus pés, as correntes já afinavam sua cintura e bamboleavam tilintando ao ritmo das passadas de perna. Carregava sua bolsa no ombro e sentia as costas doerem.

Quando foi a última vez que ela havia se sentido leve?

– Eu não me sinto cansado agora.

– Então você esta mentindo ou não tem nada com que se preocupar.

– E eu preciso de preocupação pra sentir esse peso?

– Depende. Você se ama?

– Amo.

– Você precisa pagar contas?

– Não.

– Você tem bastantes amigos?

– Sim.

É normal ver sangue na respiração?

É normal acordar em desespero, fitar o chão do quarto, segurar os cabelos e desejar pelo fim do mundo? Vestir suas roupas contendo a vontade de destruir o que estiver ao seu alcance? Atravessar as ruas e torcer para que um motorista desavisado ou imprudente faça aquela curva fechada bem quando seus pés tocam o asfalto?

É normal deitar na cama de noite e não conseguir dormir? Pensar que no final do dia você terá que “descansar” e fazer tudo de novo na manhã seguinte?

Nossa geração foi construída para ser bombas relógio.

Temos novas doenças, novas síndromes, novas fobias e novos distúrbios mentais.

Temos novas medicinas, novas tecnologias e novos aparatos para impedir nosso suicídio.

Temos mais fome, mais guerra, mais medo, mais pavor e mais índices de depressão.

Temos uma ditadura na mídia, temos homens ensinando que mulheres devem ser tratadas como vadias e mulheres sendo ensinadas que o único jeito de ser aceitada na sociedade é se deixar subnutrir.

Temos “Não seja estuprada” ao invés de “Não estupre”

Temos assassinos respondendo em liberdade e mendigos sendo presos por roubarem um pedaço de pão.

Temos pressão. Temos cobranças. Temos demandas. Temos punições e penitências.

Temos “Para de ser fraco, isso não é depressão, é frescura”

Temos “Eu devia ter visto os sinais de que ela se mataria. Como fui tão cega?”

Temos discriminação social, temos homossexuais apanhando nas ruas sem motivo aparente, temos mulheres sendo molestadas nos trens e metrôs.

Temos medo de falar.

Temos medo de assumir que somos fracos e que precisamos de ajuda.

Temos medo de ficar para trás e de não conseguir acompanhar.

Temos medo de pedir 5 minutos de pausa e alguém tomar nosso lugar.

Temos medo do Amor.

Temos medo das pessoas.

Temos medo de nos machucar.

Temos “Pense mais, seja mais rápido, seja mais forte, seja mais inteligente, mais bonito, mais bem vestido, mais humilde, mais rico, mais exuberante, mais eficiente, mais bem sucedido e mais humano”

Temos mulheres sendo verbalmente assediadas todos os dias nas ruas.

Temos medo da morte.

Sabemos que vamos morrer, mas não sabemos quando e nem como.

Temos estudantes invadindo universidades com armas e atirando em colegas. Temos vingança.

Temos “Uma faculdade só não garante emprego em lugar nenhum”

Temos que falar no mínimo 2 idiomas.

Temos que ter inúmeros cursos.

Temos que ter tempo para tudo.

E tempo de tudo?

Podemos ter isso?

Não.

Não podemos.

E então, ela abriu os olhos.

– Pare de mentir para mim.

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Jornalista. Fã de gore, terror e todas as bizarrices da internet. O pessoal daqui diz que eu sou um Shinigami.

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