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#Ficção da vida real

Quem conhece a fundo a invejável carreira do diretor texano Richard Linklater, sabe que todo e qualquer tema abordado por ele é retratado de maneira única. Tanto faz se está falando de uma última viagem existencial pelo mundo dos sonhos, ou sobre as razões que fazem do Rock ‘N’ Roll um gênero musical obrigatório nas escolas. Linklater hoje parece incapaz de errar, e o segredo por trás de tamanha eficiência é quão pessoais são seus trabalhos. Ele não cria apenas filmes, ele cria um marco na vida de todos os envolvidos. Seu amor pelo cinema é palpável, e sua gana por inovar a narrativa de uma história parece ilimitada.

As alegrias e dilemas da juventude são temas característicos do diretor, e sua obra prima Boyhood se tornou o trabalho definitivo sobre o assunto. Antes intitulada The Twelve-Year Project, a produção levou 12 anos pra ser finalizada. Em 2002, quando Linklater resolveu por em ação esta ousada ideia, o ator protagonista do filme, Ellar Coltrane, tinha 7 anos de idade. Hoje, em 2014, ano de lançamento de Boyhood, Coltrane completou 20 anos. O diretor literalmente registrou um garoto se transformando em homem. O envelhecimento do personagem Mason Junior foi real e diante das câmeras, e isso é uma experiência incomparável. É o cinema transcendendo suas barreiras conceituais e programáticas.

Obviamente não é só Mason quem envelhece. Sua irmã Samantha, seu pai, sua mãe, seus padrastos, seus amigos, todos se transformam. Linklater havia feito algo parecido com isso na sua fantástica Trilogia do Antes, mas o efeito nem sequer se compara ao de Boyhood. Ele até mesmo fez o ator Ethan Hawke prometer que terminaria de dirigir o filme, caso morresse.

A história de Boyhood é simples e complicada como a vida real. Ela fala principalmente de pessoas, e como elas reagem aos acontecimentos da vida, como divórcios, mudanças de cidade, de escola, de conduta, amizades perdidas, namoros, alcoolismo, violência, recomeço. O grande trunfo por trás deste conceito único, é que temos um grupo de personagens extremamente familiar, cujo apego é instantâneo. Somos induzidos com facilidade a julgar e perdoar estas pessoas, que possuem defeitos e qualidades tão próximas das nossas.

E como se subtende, o elenco trabalha de forma inspirada, em especial a atriz Patricia Arquette, que interpreta a mãe Olivia. A timeline da personagem é a mais atribulada, o que faz de sua mutação como pessoa a mais complexa. Arquette vai de vítima para vilã, e para vítima novamente com uma naturalidade tremenda. Olivia é sem dúvida uma das mais emblemáticas mães do cinema.

Já no time mirim, ao invés de interpretações, o que vemos é uma exteriorização de comportamento. Para muitos deles, Boyhood foi a primeira experiência frente às câmeras. Toda cena, todo roteiro de cada etapa do filme, foi feito em parceria com os atores, que opinavam e decidiam o que seria melhor em determinado momento. É por isso que a naturalidade dos pequenos é enorme. Em cena, eles dizem o que pensam, e basicamente com suas próprias palavras.

Outro fator muito interessante são as referências de Linklater à cultura pop da época. Logo no início, a menina Samantha (interpretada por Lorelei Linklater, filha do diretor), canta a música Oops!…I Did It Again de Britney Spears, definitivamente um símbolo de outros tempos. Anos depois, vemos as crianças esperando ansiosas o lançamento do livro Harry Potter e o Enigma do Príncipe (personagem que no cinema também envelhece com seus fãs), e assim vai. Por entre conversas sobre Facebook e Star Wars, o diretor monta sua ambientação da década passada, com elementos quase didaticamente inseridos. 

No entanto, mesmo diante desta aparente positividade do tema, a moral meio que se divide, oferecendo diferentes pontos de vista para os jovens e para os “não tão jovens”. Para os primeiros, o mundo é um horizonte sem fronteiras, de infinitas e instigantes possibilidades. Já para os outros, a confusão e decepção com as próprias vidas continua uma melancólica e debilitante realidade. Linklater nem tenta responder a impossível pergunta de Mason, “Qual é o sentido afinal?”, mas como disse John Lennon, “A vida é o que acontece enquanto fazemos planos”, por isso o que fica é: viva a vida, do jeito que ela vier, pois é a única que você terá. Mas faça seu melhor, ou pelo menos tente. Provavelmente isso vai fazer diferença. Filme obrigatório.

PS: Espero ver Mason no cinema de novo, talvez daqui 12 anos.

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Jornalista guerrilheiro, entusiasta de games ligeiramente sangrentos. Já teve banda de Heavy Metal, hoje toca Beatles no violão. Ama a sétima arte de forma visceral, prefere dramas reais - pois acha que a vida em certos momentos é incrível demais para ser verdade. Já escreveu sobre cinema, música e jogos em alguns lugares, hoje é editor do site Crítica Daquele Filme... e precisa fazer mais exercícios.

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