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Capitã Marvel – 1: A Heroína Mais Poderosa da Terra! (2014)

Publicada originalmente em Captain Marvel 1-6

Editora: Marvel/Panini Comics

Preço de capa: R$ 13,90

Número de páginas: 132

Formato: Americano (17 x 26 cm)

Colorido/Lombada quadrada

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Em setembro de 2012, Capitain Marvel – 1 foi lançada nos EUA e este pode ter sido um momento histórico. Sob o roteiro de Kelly Sue DeConnick[1] e nas ilustrações de Dexter Soy[2], Emma Rios[3], Emma Rios[4], Karl Kesel[5] e Al Barrionuevo[6] a história narra a transição do nome da personagem de Miss Marvel para Capitã Marvel. Esta transição incide de duas maneiras importantes, fazendo deste gibi um item importantíssimo na coleção de qualquer leitor. Incide diretamente na cronologia da personagem, assim como na discursividade sobre a mulher nos quadrinhos de mainstream.

As quinze primeiras páginas narram muito mais do que apenas uma prólogo para introduzir a personagem – como muitos interpretaram. Superficialmente, trata-se de uma luta do Homem-Absorvente (Absorbing Man) contra Miss Marvel e o Capitão América. Na primeira cena, o vilão provoca a heroína chamando-a de “secretária do Capitão América” – talvez uma referência ao primeiro emprego da Mulher Maravilha na Liga da Justiça? Talvez. O Capitão, preocupado com a heroína, após ela ter levado alguns golpes, se distrai e quase deixa alguns civis serem vítimas dos destroços da batalha. Seriam vítimas, não fosse Miss Marvel assumindo a liderança da ofensiva e dando ordens ao Capitão. Por fim, optando por utilizar de sua inteligência e não sua super-força, Carol Denvers derruba o grandalhão Absorvente. Logo na sequência, acompanhamos Carol Danvers e Steve Rogers discutindo sobre o futuro da Miss Marvel durante uma pausa para o café. A cena em si é muito rica: Steve acredita que Carol deveria assumir o manto do falecido Mar-Vell e tornar-se Capitã Marvel. Há algo que se perde na tradução para o português, pois Capitão e Capitã em inglês são representados pela mesma palavra: Captain. Neste caso, Steve está propondo que Carol aceite um título que a colocaria hierarquicamente na mesma patente que ele próprio. Há um convite para uma relativa igualdade entre gêneros.

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O Capitão América quer que ela assuma certo protagonismo como heroína, Miss Marvel sente-se receosa da sugestão. Não deixem passar despercebido, pois este é um tema precioso paras as discussões sobre o protagonismo das mulheres e sobre as questões feministas. Steve Rogers tem a melhor das intenções e realmente quer ajudar a heroína, mas qual a diferença entre sua preocupação na cena de batalha e na hora do café? Nenhuma. O que ele não entende, porque é difícil para qualquer homem entender, é que Carol Danvers/Miss Marvel não precisa da ajuda de um homem para alcançar seu protagonismo, ela somente precisa que eles não atrapalhem o seu percurso. Este será o “tom” do gibi. As aventuras em sequência abordam uma viagem no tempo em que a Capitã encontrará outras mulheres com a mesma questão, em meio à segunda guerra mundial, “lutando” por seu protagonismo.

A personagem de Carol Danvers surge nos gibis em 1968 como secretária de segurança de uma base aeroespacial onde trabalhava o Capitão Marvel (Mar-Vell). Após sofrer um acidente em que recebe parte do DNA de Mar-Vell, Carol ganha seus poderes e se torna Miss Marvel. Entretanto, a heroína sofria de dupla-personalidade não sabendo que a humana e a heroína eram a mesma pessoa. Nos anos 80, já integrante dos Vingadores, Miss Marvel passou por um dos eventos mais trágicos dos quadrinhos, quando foi raptada e estuprada por um vilão de outra dimensão chamado Marcus. Após sofrer lavagem cerebral, Carol retorna a terra grávida. O bebê cresce em velocidade surpreendente até se tornar… o próprio Marcus. Esse que decide leva-la de volta para outra dimensão com o aval dos Vingadores. Tem mais: Ainda nos anos 80, sob os cuidados de Chris Claremont, Miss Marvel é atacada pela Vampira, levando ela a ficar em coma e perder seus poderes. Quando os recupera, torna-se uma alcoólatra, o que faz com que seja levada a júri pelos Vingadores, ameaçando-a de expulsão.

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Após todos estes momentos na história da personagem, que praticamente passou por todos os tipos de abusos e violência, uma batalha por seu protagonismo é um marco na cronologia da personagem. Miss Marvel sempre esteve associada com movimentos de feministas, como tenta representar a curta história recuperada do arquivo Marvel e inserida nesta nova edição. O volume 1 consegue dar conta de toda esta densidade, optando por explorar inicialmente a origem dos poderes da heroína, porém não de maneira convencional. Há uma mudança de posição da personagem em sua própria origem, o que deixa a história mais interessante.

Quanto às transformações discursivas, isto toca a revista em nível mais delicado. DeConnick é uma autora com experiência em narrativas que buscam refutar a normatividade machista predominante. Neste primeiro volume da Capitã Marvel, com certeza é uma investida a este enfrentamento. Não basta que uma personagem feminina ganhe destaque, não use mais um maiô como uniforme e rompa com o padrão estético vigente. É preciso que transformação seja estrutural. O que faz deste gibi um produto muito interessante, já que é roteirizado por uma mulher e também tem as mãos de Emma Rios e Sana Amanat – criadora da nova Miss Marvel, a primeira heroína muçulmana. Isso é uma mudança que deve ser notada. Vejam bem, estruturalmente não basta que a personagem tenha seu protagonismo sem precisar da permissão ou ajuda dos homens, também precisamos de mais mulheres trabalhando na indústria dos quadrinhos, assumindo desde cargos editoriais até cargos estagiais. Não que eu ache que apenas mulheres deveriam roteirizar e desenhar as personagens femininas, muito pelo contrário, gostaria de ver os heróis machões sendo roteirizados por mulheres, além de serem desenhados, coloridos e arte-finalizados por elas.

Espero que os leitores tenham compreendido o peso que este gibi carrega. Assim sendo, não poderia existir resenha melhor do que simplesmente dizer que ele sustenta este peso com muita qualidade. É um bom primeiro volume para uma mudança efetiva em vários níveis. A boa notícia é que pelo menos nos EUA, no ano de lançamento a publicação foi esgotada. Fico feliz por ver que apesar de não ser um gibi radicalmente feminista e implicado politicamente, operou certas mudanças, mesmo que sutis.


[1] Pretty Deadly

[2] Army of Two

[3] Pretty Deadly

[4] Morbius – 1

[5] Aliens: Space Marines

[6] Batman: Gothan Knights


HQ gentilmente cedida pela loja Comix Book Shop.

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Diego é Psicólogo, Mestre em Psicologia Social pela PUC-SP. Colabora no site com textos sobre Cinema e Psicologia. É autor das pequisas: “Filmes de Terror e Psicanálise: Um esboço sobre os mecanismos psíquicos subjacentes a espectadores” e "Zumbis: O Discurso Inconsciente em um Fenômeno Social", ambas realizadas na PUC-SP.

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