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Uma comédia bem temperada e prensada na chapa.

O ator, diretor e roteirista Jon Favreau é definitivamente um sujeito surpreendente. O cara fez de Um Duende em Nova York uma espécie de clássico do besteirol, deslumbrou a todos com o visual arrojado de Zathura – Uma Aventura Espacial, e meio que tornou a Marvel o que ela é hoje, graças a moral conquistada pelo excelente Homem de Ferro de 2008.

E mesmo depois de derrapar com o esquecível Cowboys & Aliens, Favreau teve a coragem (e sabedoria) de abandonar toda pirotecnia e efeitos especiais das grandes produções, para se reinventar com Chef, uma comédia gastronômica que agrada até mesmo os mais exigentes paladares.

Na história, acompanhamos a viagem rumo a redenção de Carl Casper, que outrora era considerado um grande chefe de cozinha, mas que virou piada na internet depois de uma crítica negativa ao seu trabalho – praticamente uma ofensa gratuita, o depreciativo texto descarrilou com a vida do sujeito, ainda mais depois de ganhar proporções virais.

Sem emprego e sem opções, ele resolve fazer “comida de caminhão”, algo bem tradicional nos EUA. Viajando e cozinhando especiarias cubanas em seu trailer personalizado, de Miami até Los Angeles, ele aproveita para estreitar a relação com o filho Percy, que andava sentindo-se meio isolado depois do divórcio dos pais.

É fácil perceber então que, além de apresentar a culinária como tema principal, outros três elementos são explorados a fundo na história: a superação necessária para se fazer aquilo que gosta (neste caso boa comida), as dificuldades de uma moderna relação entre pai e filho, e todo o poder de propagação, idolatria e difamação das redes sociais.

Ao falar da paixão por comida, Favreau opta por um tom quase documental. Suas cenas especificamente demonstram, desde o processo de elaboração de pratos complicados, até o preparo de sandubas de queijo perfeitos. Ele usa uma linguagem tradicionalista, sem firulas ou edição pesada, apostando somente na beleza da arte retratada, e o resultado é de fato cativante. Se assistir com fome, será uma prazerosa tortura.

Já a relação de pai e filho é o que move todo o aspecto moral da obra. Os personagens são muito bem construídos, e isso ajuda no desenvolvimento do tema. Jon Favreau atuando empresta tanta personalidade ao honesto e carismático chef Carl Casper, que fica impossível não entender seus dilemas. O jovem ator Emjay Anthony é uma revelação como o pequeno Percy. Cheio de naturalidade, sem forçar a barra em momento algum, ele incorpora uma espécie de mini-buddha, totalmente antenado no universo online, mas carente de atenção como qualquer outra criança.

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Por fim, temos uma inteligente abordagem das mídias sociais, como elas funcionam a favor quando bem usadas, ou contra quando tratadas com imprudência. Favreau traça uma análise relevante sobre a adaptabilidade de jovens a este assombroso novo mundo da informação, e a resistência dos mais velhos ao mesmo. Basicamente ele diz que: o que é ruim é ruim, mas o que é bom, pode se tornar inspirador.

O time de apoio conta com os atores John Leguizamo, Dustin Hoffman, Robert Downey Jr., Sofia Vergara e Scarlett Johansson – estas últimas duas estão mais bonitas do que de costume, se é que isso é possível. Todo o elenco trabalha bem, e faz isso sem se esforçar muito.

No final, Chef é uma grande surpresa. Tecnicamente, vemos uma coleção de cenas imensamente criativas, sempre muito bem fotografadas, ornamentadas por uma paleta de cores bem definida, e conduzidas por uma trilha sonora latina de altíssima qualidade. O roteiro consegue amarrar muito bem seus temas, misturando e investigando diferentes discussões, tendo tempo ainda de se tornar um road movie atípico.

O ruim é que, quando o filme acaba, parece que ele apenas começou, e ver os créditos finais é estranhamente triste. Dá vontade de repetir o prato.Recomendado.

PS: Bati o recorde de analogias de comida e cinema. Elas eram obrigatórias.

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Jornalista guerrilheiro, entusiasta de games ligeiramente sangrentos. Já teve banda de Heavy Metal, hoje toca Beatles no violão. Ama a sétima arte de forma visceral, prefere dramas reais - pois acha que a vida em certos momentos é incrível demais para ser verdade. Já escreveu sobre cinema, música e jogos em alguns lugares, hoje é editor do site Crítica Daquele Filme... e precisa fazer mais exercícios.

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