Em 15 de julho de 1974, a repórter Christine Chubbuck cometeu suicídio diante das câmeras da emissora onde trabalhava, em Sarasota, na Flórida. Em uma transmissão ao vivo, após problemas técnicos com um VT que deveria ir ao ar, Christine anunciou para o público que a emissora iria transmitir pela primeira vez, ao vivo e a cores, uma tentativa de suicídio. Logo em seguida, ela deu um tiro atrás da orelha direita, morrendo no hospital 14 horas depois do ocorrido. O filme, dirigido por Antonio Campos e roteirizado por Craig Shilowich, conta como foram as últimas semanas de vida de Christine e todas as circunstâncias que culminaram na tragédia.

Adotando um tom documental desde o início, o filme possui uma fotografia bem realista e toda música que aparece no filme está tocando dentro da história. Além disso, em nenhum momento o filme tenta transformar a protagonista em coitadinha ou em uma heroína. Enquanto assistimos, é comum transitarmos entre a empatia e a raiva pela personagem, já que ela não era uma pessoa fácil de se conviver. Se por um lado é difícil simpatizar com Christine pelo modo como ela trata os colegas de trabalho e a própria mãe, por outro percebemos, no seu modo de agir, um pedido de ajuda de alguém que está passando por um momento muito difícil.

E se transitamos o tempo todo entre a simpatia ou não por Christine, grande parte do mérito disso vai para Rebecca Hall, que faz um trabalho de composição realmente impressionante. Enquanto está no trabalho ela geralmente tenta manter uma postura firme, embora sempre deixe espaço para o espectador perceber o quanto aquilo está sendo difícil. Diante das câmeras ela demonstra uma confiança absurda, em contraste com seu verdadeiro estado emocional. Já quando está sozinha, Christine possui uma postura mais arqueada, fragilizada, até seus movimentos se tornam mais erráticos. E nas brigas que ela tem com a mãe conseguimos perceber uma criança assustada em busca de ajuda, por trás da aparente agressividade da personagem.

Apesar do foco no estado mental debilitado de Christine, o filme ainda acha espaço para mostrar a excelente jornalista que ela foi. Mesmo quando não gostava de alguma pauta, ela fazia da melhor maneira possível, sendo sempre elogiada pelo público. Além disso, muitas discussões que ela tinha com o chefe aconteciam justamente porque Christine se recusava a aceitar que as reportagens ficassem cada vez mais sensacionalistas. A produção mostra ainda que a jornalista era voluntária em um hospital para crianças com deficiência mental, onde ela apresentava um teatro de fantoches. E aqui vale notar a sensibilidade do diretor Antonio Campos ao utilizar estes momentos para mostrar a piora mental de Christine. Em um primeiro momento, a câmera mostra as crianças assistindo ao teatro, enquanto na segunda vez que visitamos o local a imagem fecha totalmente no rosto da personagem e em seus fantoches, como se estivessem em seu próprio mundo. É como se ela estivesse apenas conversando sozinha, sem ninguém ao redor. Além disso, os diálogos dos fantoches sempre são sobre coisas que estão acontecendo na vida de Christine, servindo como uma forma dela desabafar.

Seguindo a proposta de servir como um registro dos últimos dias de Christine Chubbuck, o filme ainda ganha pontos por não tentar amenizar o momento da sua morte. Quando ela finalmente comete o ato contra a própria vida, a câmera em nenhum momento tira o foco dela. Aliás, vale mencionar a inteligência do diretor em mostrar a cena do ponto de vista por trás das câmeras e monitores do estúdio do telejornal. Desta maneira, é como se o próprio espectador fizesse parte da equipe que acompanhou tudo isso ao vivo. O ponto fraco aqui fica por conta do momento que mostra a mãe de Christine assistindo o suicídio da filha pela TV. É uma coisa que parece estar ali apenas para tentar emocionar o público. Algo sem necessidade, uma vez que a cena anterior já havia sido suficientemente impactante.

Christine (EUA/2016)

Direção: Antonio Campos

Duração: 1h 59min

Elenco: Rebecca Hall, Michael C. Hall, Tracy Letts.

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Felipe Storino é carioca, criado na Zona Norte do Rio de Janeiro e radicado no Espírito Santo. Possui três grandes paixões: o Flamengo, cinema e games. Sobre os games, começou nessa vida ainda na época do Atari e do Odyssey e nunca mais largou os joguinhos. Quando não está jogando, está assistindo filmes, séries ou lendo gibizinhos. Recentemente virou grande entusiasta dos jogos de tabuleiro, comprando mesmo quando não tem com quem jogar. É orgulhoso possuidor de um Super Nintendo e um Master System 3 originais.

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