A nova empreitada da Netflix no gênero de terror possui um trailer instigante, que promete bastante suspense e sustos, mas que no final não entrega nada disso. O filme conta a história da psiquiatra Jane Mathis (Vinessa Shaw) que em certa noite foi violentamente atacada por Nora (India Eisley), uma de suas pacientes e, devido a isso, ela parou de atender pacientes com traumas muito grandes. Até que certo dia ela recebe um telefonema de Alex (Kevin Rahm), um homem que sofreu um grave acidente e teve seu rosto completamente deformado, passando inclusive por um transplante. Por se sentir culpada por não ter conseguido ajudar Nora, Jane decide tratar Alex, mesmo que isso não vá fazer bem para sua saúde. A partir daí, a coisa toda se desenrola de forma até bem óbvia e com pouquíssimos momentos de suspense.

Quando terminei de assistir Clinical, a impressão que eu tive é que o diretor Alistair Legrand (que também é o roteirista) tinha acabado de sair da faculdade de cinema e que, em seu trabalho de conclusão de curso, ele resolveu utilizar de uma só vez absolutamente tudo que tinha aprendido durante a faculdade. O resultado final é uma colcha de retalhos de técnicas narrativas que aparecem em outros filmes de terror, mas que aqui são simplesmente jogadas sem nenhuma função e que não ajudam em nada a contar a história do filme, que já não é grande coisa. A impressão que dá é que o diretor queria mostrar que conhece muito sobre suspense. O problema é que conhecer as técnicas e saber utilizá-las são duas coisas completamente diferentes.

Logo nas primeiras cenas do filme já fica clara a ansiedade de Alistair em usar todo o seu conhecimento. Quando Jane Mathis caminha por um corredor logo no começo, o diretor utiliza um plano inclinado, que poderia indicar confusão mental ou até um sonho. O problema é que a cena não é um sonho e Jane ainda não foi atacada, ou seja, não estava perturbada mentalmente. E o pior é que esse plano inclinado se repete ao longo de todo o filme simplesmente porque o diretor achou que seria legal, sem nenhuma função na história. Ele chega ao cúmulo de, em uma mesma cena alternar a maneira como uma personagem é mostrada. Ele vai do plano inclinado para um na altura dos olhos e depois um ângulo de baixo para cima em questão de segundos, sem nenhuma explicação para isso, a não ser mostrar que conhece vários tipos de ângulos de câmera.

Inclusive chega a ser engraçado como o roteiro faz questão de martelar o tempo todo que o estado mental de Jane pode estar se deteriorando, enquanto a câmera do diretor insiste em mostrar a personagem de baixo para cima (quando não está inclinada), o que normalmente significa alguém forte e dominante. O filme também falha miseravelmente nas cenas de suspense, já que sempre aposta no óbvio, como pessoas aparecendo entre as árvores quando outra olha pela janela, ou aparecendo depois do clarão de um relâmpago. Além disso, o roteiro contém uma reviravolta perto do final que só deve surpreender quem não estava prestando atenção no filme. E mesmo depois que a revelação é feita, o diretor insiste em esconder por alguns segundos a identidade de determinado personagem, sendo que já foi falado quem ele é. Parece que nem o cara prestou atenção no próprio roteiro que escreveu.

Impressionante também como boas cenas que aparecem no trailer são completamente desperdiçadas na montagem final do filme. O close nos olhos de Jane Mathis, por exemplo, parece extremamente angustiante no trailer, mas no filme aparece tão rápido que nem dá tempo de criar um certo suspense. Para não dizer que Clinical é um total desperdício, o filme possui umas cenas gores bem interessantes para quem curte esse tipo de cinema. São vários cortes feitos com cacos de vidro, peles arrancadas e rostos extremamente desfigurados. Talvez Alistair Legrand devesse investir mais nesse tipo de filme em vez de suspense. Porém, o mais provável é que ele só quis mostrar que também conhece técnicas de cinema gore e deu um jeito de encaixar isso aqui.

Clinical (2017)

Direção: Alistair Legrand

Duração: 1h 44min

Elenco: Vinessa Shaw, Kevin Rahm, India Eisley.

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Felipe Storino é carioca, criado na Zona Norte do Rio de Janeiro e radicado no Espírito Santo. Possui três grandes paixões: o Flamengo, cinema e games. Sobre os games, começou nessa vida ainda na época do Atari e do Odyssey e nunca mais largou os joguinhos. Quando não está jogando, está assistindo filmes, séries ou lendo gibizinhos. Recentemente virou grande entusiasta dos jogos de tabuleiro, comprando mesmo quando não tem com quem jogar. É orgulhoso possuidor de um Super Nintendo e um Master System 3 originais.

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