Como vocês bem sabem, nós aqui da MOB procuramos sempre dar uma força para projetos independentes, estejam eles em campanha coletiva (ou não) ou mesmo que já tenham sido lançados. Aliás, se este for o seu caso, entre em contato conosco (aqui), seria massa recebermos aqui a sua obra também!


Mikrokosmos

Mikrokosmos (2014/ R$ 20,00 / 48 páginas) de Thiago Souto foi um dos grandes destaques e surpresas na Artists’ Alley, um espaço onde quadrinistas independentes (ou não) poderiam apresentar e vender seus trabalhos na Comic Con Experience 2014. E eis que a MOB teve o prazer de receber o gibi em seu QG.

De cara, Mikrokosmos chama a atenção com sua linda capa de cor chumbo, que possui uma arte maravilhosa formada de rostos, mãos, teclados e notas musicais. O traço tem certo peso que indica uma obra densa e muito elaborada. Os desenhos mesclam tons de cinza com traços pretos, borrões brancos e detalhes em rosa. Riscos e notas musicais em rosa que quebram o peso da arte, tornando o produto praticamente irresistível.

Não conhecia o trabalho de Thiago Souto, mas ao folhear Mikrokosmos fiquei embasbacado. O artista é muito talentoso, cada página do gibi pode ser enquadrada e pendurada nos ateliês mais esnobes que temos por ai. Folheado as páginas, imaginei que se tratava de uma obra abstrata, naquele estilão europeu de misturar ideias, fantasias, textos e desenhos em uma mesma página, esperando que o leitor adivinhe o que o artista quis dizer ali. Acreditem quando digo: a arte de cada página já valeria cada centavo.

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Lendo Mikrokosmos, descobri estar em posse de uma história de ficção científica de auto-padrão. O gibi conta a história de um garoto que pressionado por sua mãe começa a tocar piano desde seus 4 anos de idade. Incitado sempre a repetir as músicas até atingir a perfeição, o garoto decide aos 19 anos abandonar a música, mesmo depois de ter construído uma profícua carreira, seguindo os passos da mãe. Livre da pressão materna, o personagem vai atrás de seu sonho: ser um astronauta. No desenrolar da história seguimos este personagem durante um acidente em uma viagem interestelar, em que ele acaba por encontrar algo que podemos julgar como “predestinado-retro-projetivamente”.

A narrativa trabalha com estimo o recurso de flashbacks e flashfowards, sem confundir o leitor, fazendo da leitura uma experiência muito agradável. Algo que para mim foi inesperado, já que eu esperava uma obra muito mais abstrata e experimental do que encontrei. O timing da narrativa é impressionante, pois as viagens temporais – através das memórias da personagem – encaixam-se perfeitamente com os acontecimentos da viagem espacial. A primazia de Souto para contar esta história de viagem interestelar sem precisar abusar de recursos clichês deste gênero, faz deste gibi um produto sui generis (autêntico).

A relação mãe-filho como tema afetivo central da obra é surpreendente, já que não é um assunto muito simples de ser abordado. Souto ainda abusa e conta uma história quase nada maternal, conseguindo dosá-la para não “melar” sua ficção científica e nem perder o quinhão sentimental desta escolha. A música como subtema-eixo, entra muito bem no roteiro. Geralmente representada por partituras e escalas, a música funciona como um personagem, atuando no desenrolar do enredo. Há muitas referências a músicas clássicas – inclusive a própria Mikrokosmos que dá o nome ao gibi.

Abaixo, a playlist que o Thiago preparou com a sequência das músicas citadas na história:

A opção de Souto por recorrer à música como elo atemporal e interespacial entre mãe e filho ou universo e homem é um detalhe bem inovador. A mistura de música clássica com ficção científica lembra a genialidade de Stanley Kubrick em 2001: Uma Odisséia no Espaço, porém ele dá um passo a mais quando questionando sobre a não propagação do som no vácuo, amarra a história com uma única música que ecoa sim pelo vácuo. O autor questiona: qual a relação entre som e música, silêncio e música? A obra consegue indicar a possibilidade da existência de música no silêncio, já que o gibi não produz som, apesar de estar recheado de musicalidade. Está lá o questionamento axial da obra: como pode surgir algo do nada?

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Trata-se de uma leitura sinestésica. As páginas completamente pintadas em meio à história são um exemplo disso. A sensação de encontrar uma página completamente rosa em meio a um gibi que contém artes soturnas e escuras, é impressionante, faz com que a experiência seja maior do que simplesmente visual. Thiago Souto conquistou um fã e merece toda atenção do mercado que quadrinhos brasileiros.

Mikrokosmos_thiagosoutoPara entrar em contato com o autor e acompanhar/comprar seus lançamentos entre em:

http://www.facebook.com/souto.ilustração

http://www.zootropo.com.br

http://thiagosouto.com.br

thiago.souto@gmail.com


Publicação original no nosso parceiro Pipoca e Nanquim, pelo próprio Diego Penha, um cara onipresente. =P

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Diego é Psicólogo, Mestre em Psicologia Social pela PUC-SP. Colabora no site com textos sobre Cinema e Psicologia. É autor das pequisas: “Filmes de Terror e Psicanálise: Um esboço sobre os mecanismos psíquicos subjacentes a espectadores” e "Zumbis: O Discurso Inconsciente em um Fenômeno Social", ambas realizadas na PUC-SP.

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