Grant Morrison é um apaixonado pela chamada Era de Prata dos quadrinhos, quando as histórias eram muito mais aventurescas e um pouco menos sérias do que as de hoje. Além disso, ele é daqueles fãs malucos que conhecem todos os detalhes da cronologia dos personagens, por menores e mais bizarros que sejam. Quando ele assumiu o roteiro das principais histórias do Batman, em 2006, começou a trazer elementos que a própria DC havia “esquecido”, como o filho do morcego, Damian Wayne. Na saga “Decanse em Paz”, Morrison trouxe de volta até mesmo o Bat-Mirim, um ser de outra dimensão que se vestia como o Batman e queria ser parceiro do vigilante.

Depois veio a revista Batman & Robin, trazendo Dick Grayson como o homem-morcego, onde Morrison aproveitou para escrever aventuras malucas e criar vilões ainda mais bizarros do que os que já existiam (se é que isso é possível), como o Professor Porko. E quando o escocês finalmente trouxe Bruce Wayne de volta, ele fez isso através de uma insana viagem no tempo. Agora, finalmente a longa passagem de Grant Morison pelo Batman está chegando ao fim, com a saga Corporação Batman, que mostra Bruce Wayne transformando o homem-morcego em uma franquia mundial. No mês passado, a Panini lançou o primeiro encadernado, contendo as cinco primeiras edições da série.

Eu comprei esse encadernado com certa desconfiança porque sempre achei meio bizarra essa história de corporação, mas até que a história é bem divertida. Aqui, as homenagens de Morrison vão além da Era de Prata dos quadrinhos e chegam até o seriado televisivo dos anos 60. Logo no final da primeira história (que se passa no Japão e tem referências até à pornografia envolvendo tentáculos) Batman e Mulher-Gato caem em uma armadilha típica da série de TV. E como os quadrinhos não possuem os mesmos problemas de orçamento que os seriados, a armadilha aqui é a mais bizarra possível, com um polvo gigante dentro de um apartamento cheio d’água. É, não faz sentido nenhum, mas acaba divertindo pela bizarrice. Sem contar que o roteirista coloca até aquelas famosas frases da série perguntando como os herois vão escapar dessa e tal. Fora que é interessante ver Batman trabalhando com a Mulher-Gato, que sempre possui algum objetivo escondido por trás das suas boas ações. Em certo momento, o morcego até fala com ela “eu sei que você não está aqui para conseguir uma audição com a Liga da Justiça”.

Já o segundo arco apresentado no encadernado mostra Batman indo até a Argentina numa tentativa de recrutar o heroi El Gaucho para a Corporação. Nesta história vemos um Bruce Wayne mais descontraído, que consegue se divertir entre uma missão e outra ao invés de estar sempre de cara amarrada e levando tudo a sério demais. Além disso, é nela que a verdadeira trama de Morrison começa a se desenhar, com um novo inimigo chamado Leviatã puxando as cordas dos eventos que ocorrem. Além do vigilante argentino, a força-tarefa do Batman começa a tomar forma com a participação do vigilante inglês Capuz e da Batwoman.

Claro que o grande destaque fica por conta das viagens ao passado feitas pelo escocês, que resgata conceitos do Batman que ninguém lembrava mais ou nem sabia da existência. A bola da vez é a Batwoman original, da década de 1950, que já tinha sido apagada da cronologia do morcego após a Crise nas Infinitas Terras. Ela é mostrada como o grande amor da vida de Bruce Wayne, mas que acabou terminando com ele devido às tramoias de um inimigo misterioso (que por algum motivo só acaba ressurgindo para infernizar o Batman anos depois). Nesta história inclusive, a arte fica por conta de Chris Burnham, que emula bem os quadrinhos dos anos 1950, com desenhos mais cartunescos e personagens com expressões mais inocentes, bem no clima daquela época. Todas as outras histórias são desenhadas pelo competente Yanick Paquette.

O encadernado se encerra mostrando que a Corporação Batman surgiu no momento certo, já que uma grande ameaça parece se aproximar, uma vez que o tal Leviatã espalhou suas garras por todo o mundo, sendo responsável até mesmo pelos exércitos formados por crianças na África. De quebra, ainda temos a apresentação do Batman africano, o Batwing. Ainda é cedo para saber se Grant Morrison vai realmente chegar em algum lugar com essa saga, ou se vai ser apenas um monte de referências à Era de Prata que vão ligar o nada a lugar nenhum. De qualquer forma, esse primeiro encadernado vale a leitura num dia sem nada pra fazer, já que se concentra muito mais em divertir o leitor com aventuras bizarras. Mas ao que parece a coisa vai começar a complicar a partir das próximas histórias. Então se você quiser acompanhar o raciocínio do escocês, é melhor começar a ler uns quadrinhos antigos.

Corporação Batman – Volume 1 (Panini Comics, 2012)

Roteiro: Grant Morrison

Arte: Yanick Paquette e Chris Burnham

Páginas: 132

Nota: 7

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Felipe Storino é carioca, criado na Zona Norte do Rio de Janeiro e radicado no Espírito Santo. Possui três grandes paixões: o Flamengo, cinema e games. Sobre os games, começou nessa vida ainda na época do Atari e do Odyssey e nunca mais largou os joguinhos. Quando não está jogando, está assistindo filmes, séries ou lendo gibizinhos. Recentemente virou grande entusiasta dos jogos de tabuleiro, comprando mesmo quando não tem com quem jogar. É orgulhoso possuidor de um Super Nintendo e um Master System 3 originais.

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