Aqui neste lindo e democrático site todos somos auto-pautados, sim senhor, com muito orgulho, com muito amor. Mas essa semana, ao contrário do meu comportamento habitual, resolvi entrar na dança e escrever sobre algo que tem tudo a ver com o momento! Primeiro vamos ao assunto:

O que toda HQ de Daniel Clowes tem em comum é aparentemente não estar indo a lugar algum, ter diálogos rotineiros e relativamente banais, ainda que bastante reais e bem trabalhados. E também o fato de ser muito fácil de gostar, tanto por ser também fácil e muito bom de ler quanto por seus protagonistas, sempre dotados do bom e velho traço de anti-heroísmo, seja por serem tímidos, fracos, perdedores, irônicos ou apenas cansados demais pra se darem ao trabalho de tentar impressionar alguém.

Um meio termo entre Ghost World e Uma luva de veludo moldada em ferro, trabalhos prévios de Clowes, David Boring nada mais é que muito difícil de definir em poucas palavras. Para citar as do próprio autor: “É como se Fassbinder encontrasse um “meio-assado” Nabokov na ilha de Gilligan”, diz ele citando o mais importante representante do novo cinema alemão (de acordo com o Wikipedia), o autor da famigerada obra Lolita  e um seriado dos anos 1960 que se passa (derp) em uma ilha e que eu particularmente nunca vi tampouco havia ouvido falar. Ta-da!

Dividida em três atos, em uma referência às constantes e infrutíferas tentativas do protagonista de escrever um roteiro seguindo a estrutura tradicional, a declaração de Clowes sobre sua HQ pode ser “facilmente compreendida” quando se lê a HQ (e quando se pesquisa um pouco sobre as referências citadas por ele também, embora isso não interfira nem um pouco no deleite da leitura). Nos moldes de crise de identidade de Ghost World, ainda que em um nível mais maduro, David Boring narra sua própria história – que a princípio não parece ter foco algum ou pretensão de fazer muito sentido. E é bem interessante, apesar do que sugere o título.

Um dos tópicos, provavelmente o mais debatido internamente pelo protagonista em sua narrativa, é seu fetiche, que gira de um torno de uma série de características particulares minuciosamente descritas por ele, originadas por um “protótipo”, como o próprio personagem descreve. Aí que entra o Nabokov “meio-assado” (alguém tem uma tradução melhor pra half-baked?), que está na origem do fetiche de Boring, em possível referência ao de Humbert Humbert, o narrador de Lolita. Ambos foram marcados por experiências com jovenzinhas em verões envolvendo furtivas sacanagens. Humbert passou a ter desejos incontroláveis por garotas de no máximo 13 anos, enquanto Boring passou a se interessar por moças adultas que, acima de tudo, tenham bundas bem grandes.

No vai e vem da vida, o melhor amigo de Boring é assassinado, ele não dá muita bola pra isso, mas se apaixona por uma garota muito bunduda no processo, leva um pé na bunda e um tiro na testa e sobrevive só com uma marquinha e vai parar em uma ilha todo enfaixado, junto com uma porção de pessoas que tinham pouco ou nada a ver com a trama até o primeiro ato, enquanto é consumido por alguns mistérios e a obsessão pela bunda, digo, pela moça que lhe deu um pé. Enfim, só lendo pra saber. E como dá pra matar a HQ em menos de duas horas e ela é envolvente o bastante pra que isso aconteça, vale a pena mergulhar no nonsense com o fluxo bem feito dos quadros, nas referências muito bem costuradas pelos diálogos e traço lindão do senhor Clowes, que acontece de ser um dos meus quadrinistas preferidos.

Vale observar: David Boring não foi lançado no Brasil, tampouco traduzido por qualquer meio, sendo que é uma HQ que né? Você por acaso já tinha ouvido falar nela? Desculpaí, FBI, mas eu li o scan. Enfim, Clowes fez HQs ótimas, que realmente vale a pena ir atrás e ler na íntegra, entre as quais estão os já supracitados Ghost World, lançado no Brasil ano passado pela Gal Editora, Como uma luva de veludo moldada em ferro, lançado há aaaanos pela amada e odiada Conrad, e Wilson, lançado recentessíssimamente pela Companhia das Letras!

Vale lembrar também que: Ghost World foi para as telonas em 2001, em uma feliz adaptação que teve até dedo do Clowes no meio e foi estrelado por Thora Birch, Steve Buscemi e uma novinha e fofinha Scarlett Johansson. Outra HQ de Clowes que foi pras telonas e ficou muito bem feita é Art School Confidential, que tem uma trama muito foda, mas deve ser procurada nos recônditos da internê – esse é pra quem se amarra no cara mesmo, embora eu deva avisar que vale a busca (eu garanto!).

Ah, sim! A explicação, vocês querem? O que diabos David Boring, uma HQ de um autor “independente” e alternativão dos EUA, lançada a prestação lá por 2000 e escolhida pela revista Time como uma das 10 melhores graphic novels em língua inglesa em 2005 tem a ver com o momento? Bem, vamos lá: assunto do momento? OS VINGADORES, sobre heróis de HQ, estrelado (e muito comentado) pela presença de SCARLETT JOHANSSON, que além de ter atuado também em GHOST WORLD, é dona de uma respeitável BUNDA – respectivamente HQ de DANIEL CLOWES e assunto muito recorrente em DAVID BORING. Viu? Bunda, Scarlett Johansson, HQ, tudo é assunto do momento!

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Jornalista formada, produzo e consumo literatura, quadrinhos e música.

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