Quem já perdeu alguém muito próximo sabe o quanto esta é uma situação difícil. Ninguém sabe como vai reagir ao luto até que aconteça. Sair desse luto também é um processo lento e a maneira encontrada para superar esse momento varia de pessoa para pessoa. E é exatamente isto que acompanhamos em Demolição, dirigido por Jean-Marc Vallée. Estrelado por Jake Gyllenhaal, que interpreta Davis Mitchell, um homem que perde a esposa em um acidente de trânsito, o filme explora todo o processo de luto do personagem e como isto afeta o relacionamento dele com as pessoas ao redor.

Logo no começo do filme, fica claro que Davis está acostumado a evitar conflitos e expor seus sentimentos. Quando a esposa tenta começar uma discussão sobre uma geladeira com defeito, ele simplesmente concorda com tudo. Logo depois vem o acidente e é como se o personagem simplesmente travasse as emoções, sem conseguir nem mesmo chorar a morte da esposa. Numa tentativa de sentir qualquer coisa, Davis decide seguir ao pé da letra um conselho dado pelo sogro “se você quer consertar algo, você tem que desmontar tudo”. A partir daí começa a desmontar qualquer objeto que pareça defeituoso, desde um computador até uma geladeira inteira. O que à primeira vista pode parecer apenas uma loucura do personagem, acaba oferecendo alguns dos momentos mais angustiantes da produção, já que na verdade isso representa a busca de Davis por algo que está faltando na sua vida. Até mesmo objetos da esposa são destruídos, talvez numa tentativa de esquecê-la simplesmente para não ter que sofrer.

O filme também acaba mostrando que nunca damos a devida atenção a certas coisas e que somente uma tragédia nos faz perceber isso. Em determinado momento, Davis se questiona como ele nunca viu certas coisas, até chegar à inevitável conclusão de que ele via, apenas não estava prestando atenção. Com o foco quase total em Davis, a escalação de Jake Gyllenhaal para o papel foi a escolha perfeita. Competente como sempre, é ele quem carrega o filme nas costas, conseguindo transmitir toda a confusão emocional pela qual o personagem está passando. Em determinadas cenas ele aparece sorrindo porque a ocasião pede isso, porém seus olhos passam uma tristeza profunda. Já em outro momento ele tenta demonstrar tristeza, mas seus olhos mostram uma certa alegria escondida ali.

Outro grande acerto de Demolição está na forma como a personagem Karen Moreno, interpretada por Naomi Watts, é apresentada. Assim que ela surge na história parece que estamos diante de mais um daqueles clichês em que uma grande paixão vai surgir para curar a dor de uma tragédia. Mas não é nada disso. Os personagens acabam estabelecendo uma relação de amizade onde os dois se ajudam, já que ela possui um filho adolescente com quem não consegue dialogar muito bem. O ponto fraco aqui é que, enquanto os sentimentos de Davis por Karen ficam bem resolvidos ao final do filme, os dela por ele deixam no espectador uma sensação de que está faltando algo ali. Faltou uma resolução melhor para a personagem, já que até o filho dela, Chris, tem uma história bem resolvida no final. Aliás, o garoto, interpretado por Judah Lewis, é responsável por alguns dos melhores diálogos do filme quando divide a cena com Jake Gyllenhaal.

O filme derrapa também ao tentar explorar outros temas além do luto do protagonista, como a possível homossexualidade de Chris. Com pouco tempo para desenvolver o tema, fica a impressão de que os realizadores queriam abordar o assunto, porém não sabiam muito bem como fazer. Além disso, o único momento mais criativo da produção é no terceiro ato, quando temos uma rima visual com o começo do filme, mostrando todo o torpor em que o protagonista se encontrava até aquele momento. Apesar desses pequenos deslizes, Demolição ainda é um interessante estudo de personagem e que vale pela atuação de Jake Gyllenhaal.

[quote_box_center]Demolição (EUA/2015)

Direção: Jean-Marc Vallée

Duração: 1h 41min

Elenco: Jake Gyllenhaal, Naomi Watts, Chris Cooper[/quote_box_center]

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