A primeira experiência da Marvel na TV quase foi por água abaixo quando Agents of SHIELD correu o risco de ser cancelada ainda na primeira temporada. Seguindo a velha fórmula de caso da semana, a série apresentava roteiros irregulares, indo de episódios razoáveis a muito ruins. Tudo mudou quando os roteiristas resolveram apostar na inteligência do espectador e começaram a fazer uma grande história que se estendeu por toda a segunda metade da temporada, além de se integrar com a trama de Capitão América 2: O Soldado Invernal. E já que as coisas funcionaram tão bem na TV aberta com um grupo desconhecido, a Marvel resolveu apostar na liberdade criativa da Netflix para adaptar o Demolidor, um dos heróis mais tradicionais da editora. A aposta não poderia ser mais certeira, já que a série do defensor da Cozinha do Inferno é uma das melhores adaptações de um herói para a tela da TV.

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MARVEL'S DAREDEVIL

Apesar de existir no mesmo universo de Vingadores, X-Men e companhia, o Demolidor sempre foi um herói muito mais interessante quando está isolado naquele mundinho dele, lidando com a máfia, assassinos e ninjas. Tanto que uma das fases mais celebradas do herói é a do roteirista Frank Miller, na qual ele passou a agir muito mais em um nível urbano. E é exatamente deste modo que ele é tratado na série da Netflix. A história se passa um pouco depois da batalha vista no primeiro filme dos Vingadores e a cidade de Nova Iorque ainda se recupera dos estragos sofridos. Enquanto Capitão América e companhia se ocupam de coisas muito maiores, alguém precisa ajudar e proteger as pessoas que vivem na cidade, principalmente na Cozinha do Inferno, lar do Demolidor. E mesmo que a série compartilhe o mesmo universo dos filmes da Marvel, ela está longe de ter o mesmo clima. Esqueça os uniformes coloridos e as pancadas que nem deixam hematomas, aqui os personagens sangram (e muito) e ficam à beira da morte.

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Com 13 episódios para desenvolver toda uma longa trama, a série não tem pressa em partir para a ação. Os primeiros minutos são investidos em um diálogo entre Matt Murdock e um padre, onde fica clara toda a dúvida e culpa católica que aflige o protagonista. Aliás, todos os diálogos são excelentes, desde as discussões entre Matt Murdock e Foggy Nelson até os discursos inspirados de Wilson Fisk. Felizmente, os bons roteiros da série são acompanhados por um elenco sensacional que nos entrega atuações convincentes. O grande destaque fica com Vincent D’Onofrio que nos brinda com um Wilson Fisk ameaçador mesmo quando está simplesmente tomando café da manhã. E a voz do ator para o personagem está exatamente como sempre imaginei quando lia os gibis do Demolidor. E é impressionante como D’Onofrio transita com maestria entre a fúria assassina de Fisk e o jeito meigo e carinhoso com o qual ele trata o amor de sua vida, Vanessa. Outra surpresa positiva fica por conta de Elden Henson, que interpreta Foggy Nelson, sendo um alívio cômico na medida certa, sem parecer caricato, além de ser competente nas cenas mais dramáticas.

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Para completar o pacote, a produção da série é sensacional. Apesar de ser a adaptação de um super-herói, Demolidor não é um programa para crianças. Com uma fotografia sempre escura e cenários desolados, sem muitas cores, a série deixa claro desde o início que foi feita pensando no fã que gosta da fase mais urbana e violenta do personagem. A primeira luta do herói, quando ele enfrenta alguns traficantes de pessoas, é empolgante, com o herói utilizando todos os seus movimentos ninjas e já nos dando uma prévia de como funcionam seus poderes. Ele escuta uma arma ser engatilhada e, no momento seguinte, se desvia do tiro já executando um golpe em algum outro bandido. Tudo com sons de ossos sendo quebrados e sangue voando para todo canto. Nos episódios mais pra frente temos ainda cenas de fraturas expostas, mutilações e crianças de 9 anos de idade bebendo uísque, algo que seria impossível de se ver em uma série de TV aberta.

Outra vantagem da produção ser da Netflix é que, sem o limite de tempo imposto pela TV tradicional (os episódios de Demolidor variam de 48 a 58 minutos), os roteiristas e diretores consegue contar a história de cada episódio sem correria. As cenas de luta ficam ainda mais reais pois duram bastante tempo, ao contrário de outras produções em que os combates são resolvidos rapidamente. Sem contar que durante as lutas conseguimos perceber o quanto aquilo vai deixando o Demolidor realmente cansado, afinal, ele ainda é um ser humano normal apesar dos sentidos aguçados. No segunda episódio, a série possui uma cena de luta fantástica que foi toda filmada em um plano sequência que dura quase seis minutos, uma eternidade quando se trata de produções de TV [Nota da edição: Seria inspirada nessa sequência fantástica de True Detective?]. Sem contar o fato da cena se passar no meio de um corredor e fazer uma bela homenagem ao clássico coreano Oldboy.

Demolidor apresenta ainda vários easter eggs para os fãs, além de servirem como pistas do que pode aparecer nas próximas temporadas. Temos menções a uma ex-namorada grega de Matt Murdock (Elektra), o Tentáculo e até uma participação do Stick. Isso sem contar um atirador de elite contratado por Wilson Fisk em um dos episódios que pode muito bem se revelar como o Mercenário no futuro. Com Demolidor a Marvel/Netflix mostra mais uma vez que é possível ser fiel aos quadrinhos, agradando antigos leitores ao mesmo tempo em que atrai um público novo para as produções. Depois desta primeira experiência bem sucedida da parceria, fica a expectativa agora para o seriado AKA Jessica Jones, que já era uma série bem adulta mesmo nos gibis. E vamos ficar na torcida para que um dia a Warner aprenda alguma coisa com a Marvel na hora de adaptar seus personagens para a TV porque, por enquanto, a Casa das Ideias está anos-luz à frente da DC/Warner.

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Felipe Storino é carioca, criado na Zona Norte do Rio de Janeiro e radicado no Espírito Santo. Possui três grandes paixões: o Flamengo, cinema e games. Sobre os games, começou nessa vida ainda na época do Atari e do Odyssey e nunca mais largou os joguinhos. Quando não está jogando, está assistindo filmes, séries ou lendo gibizinhos. Recentemente virou grande entusiasta dos jogos de tabuleiro, comprando mesmo quando não tem com quem jogar. É orgulhoso possuidor de um Super Nintendo e um Master System 3 originais.

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