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Eu quero começar a essa segunda parte da série Desescolarização afirmando o objetivo dela.

Iniciei a série com o artigo “A Sociedade Escolarizada”, onde fiz um breve resgate histórico do surgimento das escolas, além de pedir ajuda ao meu amigo Ivan Illich para tecer duras críticas ao ensino institucionalizado. Mas eu gostaria de reforçar que essa crítica à instituição escolar não é meramente um exercício intelectual, nem uma crítica leviana com o objetivo de desestabilizar instituições apenas para tirar onda.

Meu objetivo com essa série é promover uma relação humanitária e justa entre crianças e cuidadores – sejam eles os pais, professores ou outros adultos que convivem com crianças.

Nesse artigo, quero chamar atenção para uma questão que considero ser a última fronteira da inclusão social de minorias.

Ao longo da segunda metade do século XX, pudemos presenciar um incrível movimento libertário de luta pelos direitos civis. Mulheres, idosos, negros, povos autóctones, pessoas de todas as orientações sexuais, deficientes físicos e mentais, quilombolas, pobres, favelados, idosos… todos foram lembrados, tiveram direitos resgatados, foram protagonistas de lutas por igualdade e conquistaram direitos e políticas reparatórias. E, o mais importante, ganharam mais respeito por parte dos cidadãos e da sociedade.

O mesmo não pode ser dito das crianças. É louvável que tenhamos hoje um documento como o ECA – Estatuto da Criança e do Adolescente, que promove uma série de direitos e deveres das crianças e dos responsáveis, e não posso me esquecer do combate ao trabalho infantil, movimentos pela responsabilidade das mídias perante os espectadores mirins e inúmeras outras lutas por uma infância melhor. Mas na minha humilde opinião, todas essas iniciativas não são suficientes para desafiar e transformar uma sociedade que insiste em ver as crianças como algo menos do que um ser humano.

Fonte: http://bit.ly/1b91QRh

Nossa sociedade tende a retratar as crianças como um ser em construção, que ainda não está pronto, um adulto em potencial. A maneira como a escola é organizada reflete isso. Nesse sentido, o simples fato de segregar toda uma população apenas pelo critério da faixa etária e deixa-la reclusa em uma sala fechada com uma figura autoritária muito mais velha já é alarmante.

Na nossa sociedade, as crianças não tem voz. Elas tem o direito de permanecer caladas, pois tudo que disserem pode ser motivo para “levar uma palmada educativa (sic!)” ou para serem ridicularizadas. Comportamentos que não são aceitos entre adultos são completamente legítimos, quando o alvo é uma criança, como fica bem ilustrado até mesmo na obra de Emanuel Kant:

Não se deve anular a vontade das crianças, mas antes dirigi-la de tal modo que saiba ceder aos obstáculos naturais – os pais enganam-se habitualmente ao recusar aos filhos tudo aquilo que estes lhes pedem. É absurdo negar sem qualquer razão o que esperam da bondade dos pais. Mas, por outro lado, é prejudicial para as crianças deixá-las fazer tudo o que querem; não há dúvida que deste modo impedimos que manifestem o seu mau humor, mas também se tornam mais exigentes. (Emanuel Kant)

A afirmação grande filósofo parece razoável. Todos precisamos de limites. Mas o Dr. Carlos Gonzáles, no livro Besame Mucho, propõe uma reflexão sobre a frase de Kant e dá continuidade a esse raciocínio:

Substitua a palavra filho por mulher no excerto anterior:

Na vida conjugal, a repressão constante e exagerada pode ser tão prejudicial como a complacência contínua e extremosa. É prejudicial para as mulheres fazer tudo aquilo que querem; é certo que, desta forma as impedimos de manifestarem o seu mau humor, mas também se tornam mais exigentes.

Em duas frases, chamamos-lhes exigentes e mal-humoradas. Não é irritante?

Durante séculos, a mulher esteve naturalmente submetida ao marido e escreveram-se frases semelhantes sem que ninguém se escandalizasse. Atualmente, ninguém se atreveria a falar assim das mulheres, contudo, parece natural fazê-lo quando se trata de crianças.

Cena do filme “Forrest Gump – O Contador de Histórias”

Gonzáles também fala daquele que um dos mais comuns comportamentos dos pais bem intencionados e comprometidos com a educação dos seus filhos…. O hábito de obrigá-los a “compartilhar” suas coisas com o “amiguinho” (não importa se for uma criança desconhecida, continua sendo chamada assim). Esse exemplo, colocando um adulto no lugar da criança, nos faz pensar a sobre a faceta artificial e desonesta desse “costume”:

Imagine que é você quem está sentada num banco do parque a ouvir música. Ao seu lado, sobre o banco, está a mala sobre um jornal dobrado. Nisto aproxima-se um desconhecido, senta-se ao seu lado e, sem dizer palavra, começa a ler o seu jornal. Pouco depois deixa o jornal (aberto e atirado para o chão!), agarra na mala, abre-a, olha para o seu interior… Será que a leitora saberia partilhar? Quanto tempo esperaria para dizer duas verdades ao desconhecido ou para agarrar na mala e sair a correr? Se visse passar um polícia ao longe, não o chamaria? Imagine agora que o polícia se aproxima e lhe diz:

– Vá lá, dê a sua mala a este cavalheiro ou vou ficar muito chateado. O senhor desculpe, mas esta senhora não sabe partilhar… Gosta do celular? Telefone, telefone para onde quiser… A senhora cale-se, se continuar a reclamar, vai ver…

(…)

Muitos adultos, ao falar sobre crianças, recorrem ao estereótipo, ao insulto, à desqualificação sistemática. Isso se faz muitas vezes num tom jocoso, quase carinhoso (o monstrinho , os pequenos tiranos , são uns terroristas), mas o dano está feito: transmite-se aos pais a ideia de que os filhos estão contra eles e que não merecem respeito como pessoas. Vejamos alguns exemplos concretos:

-É só tocar no lençol e o malandro começa a choramingar!

O malandro tem dez meses, mas o seu comportamento é considerado não só premeditado e consciente, como também moralmente reprovável; a escolha das palavras não é casual: o bebê não começa a gemer (queixar-se com voz lastimosa , segundo o dicionário) e muito menos a chorar (derramar lágrimas provocadas por uma dor física ou moral), mas a choramingar (gemer, queixar-se ou chorar sem causa justificada). Quem disse que não tem motivo? Vejamos outros insultos retirados de obras conceituadas da pedagogia contemporânea:

As crianças pequenas são negativas, demonstram pouco senso comum e uma completa falta de respeito pelos direitos dos outros.

Não acha que é um exagero? Não lhe parece que esta frase é extremamente insultuosa? Substitua crianças pequenas por negros ou por mulheres e diga-me o que lhe parece agora.

Dez por cento das crianças estudadas eram pequenos terroristas.

Esta é uma acusação muito grave. Substitua crianças por sindicalistas , catalães , clientes , funcionários ou qualquer outro termo que se refira a um adulto e poderia receber uma intimação por difamação.

Fazem com que as mães se sintam inferiores. As crianças pequenas têm uma capacidade incrível para desmoralizar as mães. Muitas agem como anjos quando estão sob o cuidado de outras pessoas, reservando o seu lado demoníaco exclusivamente para os pais.

Que descoberta! Sem necessidade de insultos e exageros como demoníaco , o certo é que todos nos comportamos melhor com desconhecidos do que com familiares. O leitor suporta dos seus companheiros de trabalho e mesmo dos seus chefes desaires que provocariam uma discussão com o seu cônjuge. Queixamo-nos menos da comida num restaurante do que em casa (e quando comemos na casa de um amigo, nunca nos queixamos da comida). Você, caro leitor, onde fazia melhor a cama, onde varria e limpava sem responder, onde obedecia imediatamente e a sorrir? Em casa ou na tropa? Significa isso que respeitava e amava mais o seu sargento do que a sua mãe? Claro que não, simplesmente tinha mais medo dele.

Depois de ler o Dr. Gonzáles, passei a ver o mundo com outros olhos e fiquei realmente chocado com o que me dei conta. Ao substituir imaginariamente a crianças por um adulto em muitas situações cotidianas que eu vivia e presenciava, percebi que um desrespeito escancarado à criança é um comportamento completamente normalizado.

Ainda assim, acredito que é possível resgatar a humanidade nas relações entre adultos e crianças. Também acredito profundamente que todo ser humano nasce com um impulso criativo e curioso, que desde bebê se manifesta numa vontade quase incontrolável de aprender.

Então, só posso concluir que e a aprendizagem em si não é o problema, e que lindos e elaborados métodos pedagógicos e disciplinares só escondem o verdadeiro x da questão: o controle, o poder e a subjugação de toda uma população. Não pensar sobre isso e só reproduzir inconscientemente o tipo de educação que recebemos também não é muito confiável….

Veja esse vídeo abaixo em que crianças “fazem coisas de adultos” e perceba, com horror, a brutalidade da sociedade em que vivemos. É esse mundo que queremos deixar para nossas crianças?

Então bora conversar mais sobre isso. Até o próximo post!

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