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“Ficaram aqui tempo bastante para acreditar em nós, fazer sacrifícios por nós e até que um punhado de escambadores morresse de febre e fosse enterrado aqui, deixando a gente para trás.”

Vivemos numa sociedade cada vez mais consumista, basta ver o alvoroço causado por cada novo lançamento da Apple. Ao mesmo tempo que tratamos esses produtos com verdadeira devoção, não demora para que nossa atenção logo seja desviada para outra coisa nova e o produto anterior seja esquecido. E se esta nossa devoção tivesse o poder de criar novos deuses e derrubar os antigos? Em Deuses Americanos, Neil Gaiman nos apresenta como seria este mundo fantástico, no qual deuses são criados num dia apenas para serem esquecidos no dia seguinte. E como todos eles tentam, à sua maneira, sobreviver.

No universo criado por Gaiman, os EUA são mostrados como um país onde tudo é efêmero, fazendo com que os deuses antigos (trazidos pelos imigrantes) logo percam sua força. Deuses da televisão, da internet, de marcas famosas surgem para tomar o lugar dos antigos panteões. Mas mesmo eles sabem que podem deixar de ser adorados pelos humanos a qualquer instante. Por conta desse medo, eles começam a tentar se livrar dos deuses antigos, na esperança de que isso vá resolver alguma coisa. Em meio a tudo isso, está Shadow, um humano comum que é contratado por Odin (ou a versão ~~estadunidense~~ dele) para ajudá-lo nesta luta por sobrevivência. Contar qualquer outra coisa da história poderia estragar a leitura.

“Nada disso pode estar acontecendo de verdade. Se você se sentir mais confortável assim, pode pensar no acontecimento simplesmente como uma metáfora. Religiões são, por definição, metáforas, apesar de tudo: Deus é um sonho, uma esperança…”

Uma das coisas mais interessantes do livro é a explicação que Gaiman dá para a existência dos deuses em solo americano. Eles são na verdade versões modificadas das entidades originais, que chegaram aos EUA junto com algum imigrante de muita fé. Infelizmente, essa crença acaba não durando muito e as criaturas não podem voltar para seus países de origem, ficando em uma terra que já não acredita neles. A solução é cada um achar uma maneira própria de sobreviver. Deuses da luxúria, por exemplo, encontram na prostituição uma forma de serem adorados e assim ganhar algum poder para se manterem jovens.

Ao final de alguns capítulos, Gaiman apresenta contos sobre algumas divindades, mostrando como era feita a adoração a elas em tempos antigos, ou como eles vivem atualmente. Muitos levam vidas comuns, trabalhando como taxistas ou donos de funerária, sempre perto de algo que lembre seus poderes. As descrições desses deuses também são interessantes, nunca revelando logo de cara quem é quem. O autor apenas vai citando certas características da entidade para que o leitor com mais bagagem consiga descobrir quem é quem. Isso faz com que nos sintamos ainda mais ligados ao protagonista Shadow, uma vez que ele também não faz a mínima ideia de com quem está falando.

“A cabeça branca de bico comprido sacudiu de um lado para o outro, com gravidade:

– Não faz a mínima diferença se você acreditava em nós ou não…Nós acreditávamos em você.”

Neil Gaiman brilha mesmo é na descrição dos lugares, tanto reais quanto mágicos. A maneira como ele descreve o banheiro imundo de uma cela de prisão é quase como se pudéssemos sentir o cheiro do local. E quando ele fala da passagem do mundo físico para o mundo mágico (chamado de Mundo Atrás do Palco), podemos sentir que estamos realmente cruzando e membrana entre os dois mundos. Os diálogos também são bem naturais e acreditamos que os personagens realmente existem. Assim como acontece em Lugar Nenhum, a trama principal de Deuses Americanos não tem nada de muito especial e o plot twist da história já fica bem claro alguns capítulos antes de ser revelado, mas ainda assim é uma leitura agradável e que vale muito a pena.

7438173GGDeuses Americanos 

Autor: Neil Gaiman

Editora: Conrad 

Páginas: 445

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