Leia a parte 01: Diário de um antropologo numa ecovila

Leia a parte 02: Diário de um antropólogo numa ecovila

Leia a parte 03: Mito e realidade da criação de Itapeba

Leia a parte 04: Ritual da ~Amizade~

Leia a parte 05: Convite para ação

Leia a parte 06: Minha apresentação à comunidade

Leia a parte 07: Dialética sujeito/objeto em cheque

A ecovila Itapeba foi criada em 2005 em um terreno de frente para a praia no sul da Bahia.

A partir de 2006, a chegada de novos moradores intensificou-se. Hoje diversidade étnica e cultural da ecovila se faz presente em mais de 20 nacionalidades de todos os continentes. A maioria dos moradores é brasileira, mas há também pessoas de Portugal, Inglaterra, Alemanha, Holanda, França, Suíça, Itália, Romênia, Canadá, Estados Unidos, Israel, Uruguai, Equador e Argentina.

Além dos residentes permanentes, há também um grande fluxo de turistas e um contingente de voluntários e pessoas que residem na ecovila apenas por alguns meses.

No período em que estive lá, entre maio e setembro de 2011, a ecovila era composta por cerca de 30 famílias abrangendo aproximadamente 80 pessoas incluindo crianças e adultos, entre moradores permanentes, voluntários e residentes temporários.

O terreno de 110 hectares foi adquirido em 2003 pela empresa Centro para Desenvolvimento Humano Itapeba (chamada pelos moradores de Centro, e pelos sócios de CUDS). Apenas uma parcela de 10% foi loteada para venda (aproximadamente 12 hectares), o restante pertence à empresa até hoje, uma área que inclui o encontro do rio Itapeba com o mar, a frente da praia e a reserva ambiental de 75 hectares ao fundo.

Quem compra um lote pode construir no máximo 10% do tamanho total do terreno. Estima-se que menos de 1% da área total de 110 hectares será construída.

Itacaré é a cidade mais próxima, distante 12 km. O acesso à ecovila Itapeba é restrito, pois a estrada para chegar lá não é pavimentada e é quase inteiramente composta de areia, com partes alagadas na estação chuvosa (maio a setembro). Assim, em boa parte do ano, apenas veículos com tração nas quatro rodas são capazes de fazer o trajeto. A empresa possui 2 carros desse tipo e oferece o serviço de transporte para moradores e visitantes.

A história da estrada que une Itacaré a Maraú e serve de acesso à Itapeba é curiosa absurda! Durante a Ditadura, o Governo Militar fez o projeto de uma rodovia (BR-030) que serviria para escoar a produção agrícola da região oeste da Bahia (principalmente soja), em direção a um porto na região de Campinho, que foi criado com esse propósito. A rodovia ligaria Brasília ao Porto de Campinho e teria uma extensão de 1.158 km (DNIT).

Porém, como a estrada passava no meio da Mata Atlântica, os custos da obra eram muito altos e o trabalho de asfaltamento não foi concluído. Muitos afirmam que a BR-030 consta como asfaltada nos arquivos de Brasília. Também é muito comentado na região que a estrada serviria de ligação entre a capital do distrito federal e o litoral baiano, e que seu principal objetivo oculto seria permitir o rápido acesso dos deputados e senadores à região mais exuberante do litoral baiano.

Embora alguns trechos tenham recebido melhorias nos últimos anos, a seção da rodovia federal que se situa entre Ubaitaba e Maraú, passando por Itapeba, está completamente abandonada. Em 2010 foi inaugurada uma ponte na rodovia BA-001 que liga Itacaré a Camamu, o que solapou qualquer possibilidade de retomada das obras da BR-030.

A servidão de acesso à Itapeba que sai da BR-030 também não apresenta condições muito melhores do que a rodovia federal. Há inclusive uma pequena ponte que fica submersa durante o inverno chuvoso da região. Além disso, o acesso amis curto entre Itacaré e Itapeba tem mais um obstáculo, pois atinge o Rio de contas em um ponto onde não há nenhuma ponte. A travessia tem que ser feita com canoas ou pequenos barcos de pescadores que oferecem esse serviço.

Barco “pópópó” e canoa que fazem a travessia do Rio de Contas

Mas a dificuldade de acesso parece ser entendida pelos idealizadores da ecovila como uma forma de proteção que serve como desestímulo para curiosos e outras pessoas que, por não estarem dispostas a encarar a aventura de chegar a Itapeba, desistem da comunidade antes mesmo de conhecê-la.

No terreno da ecovila a servidão de acesso desemboca numa espécie de rua principal que passa na divisa entre a área loteada para particulares e a faixa de terreno da empresa que fica de frente para a praia, onde foi instalada a pousada e o restaurante. O acesso às casas é feito por travessas para carros e pequenas trilhas para pedestres e bicicletas. Todas as casas têm acesso a carros, mas, apesar disso, hoje são poucos os moradores que possuem automóveis particulares, enquanto a maioria usa o serviço oferecido pelo Centro ou se organiza em caronas solidárias. Pedestres, bicicletas e animais circulam tranquilamente pelas ruas de Itapeba, pois o fluxo de carros é baixo.

Cada casa pode ter o seu próprio estacionamento e existe também espaço para estacionamento e manobra de veículos próxima à sede da empresa. A circulação é livre, não há cercas nos terrenos, mas há poucos espaços legitimamente públicos, com exceção da praia, do rio e de um lote que foi reservado para esse fim, mas que atualmente abriga um galinheiro pertencente à empresa.

A rede elétrica não chega à região, o que obrigou a ecovila a adotar meios alternativos. Todos utilizam energia elétrica gerada por painéis fotovoltaicos e armazenada em baterias. A empresa possui uma central própria para gerar sua energia, enquanto as casas particulares zelam por seus sistemas de energia solar individualmente.

A rede de distribuição de água também não atua na região, nem tampouco há nascentes ou fontes de água mineral no terreno, por ser ele à beira da praia e completamente plano. A solução encontrada foi instalar cisternas e poços artesianos nas casas e outras construções.

As casas que são construídas atualmente empregam técnicas de bioconstrução, mas originalmente não havia essa preocupação. As primeiras construções da ecovila – que incluem a estrutura toda do Centro – são completamente convencionais, exceto pela obrigatoriedade de utilizar telhados de piaçava, um tipo de palha oriunda de uma palmeira típica da região, matéria prima ecológica, mas que foi adotada inicialmente por seu valor estético.

A partir de 2009 a ecovila incorporou a noção de ecologia como norteadora das construções, passando a exigir que novas casas tivesses fossas ecológicas e círculos de bananeiras para tratar as águas cinzas. No período em que vivi na ecovila, havia duas equipes de construção trabalhando intensivamente em pelo menos cinco canteiros de obra simultâneos. Uma das equipes é a do Seu Severino, com um estilo mais convencional, que foi a responsável pela construção do Centro e da maioria das casas de Itapeba. A outra equipe é a do bioconstrutor Jair, que depois de realizar alguns cursos na ecovila, se estabeleceu por lá em 2010.

Construções ecológicas em Itapeba (imagem: o autor)

Com exceção dessas limitações, quem compra um lote em Itapeba tem liberdade para fazer sua casa como quer, contanto que respeite a ocupação de apenas 10% do solo e a legislação referente à construção em área rural. Como o tamanho dos lotes varia entre 400 m2 e 3000 m2, alguns compradores optam por verticalizar suas construções para fazer casas maiores e ainda respeitar o limite imposto.

Essa foi a segunda parte do meu diário de campo. Dessa vez, fui bem mais descritivo do que na primeira parte. Prometo voltar à narrativa no próximo artigo, que sai mês que vem, quando contarei como foi minha chegada à Itapeba.

Até lá!

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