Pagando mico em Itapeba
Pagando mico em Itapeba

Leia a parte 01: Diário de um antropologo numa ecovila

Leia a parte 02: Diário de um antropólogo numa ecovila

Leia a parte 03: Mito e realidade da criação de Itapeba

Leia a parte 04: Ritual da ~Amizade~

Leia a parte 05: Convite para ação

Leia a parte 06: Minha apresentação à comunidade

Leia a parte 07: Dialética sujeito/objeto em cheque

 

Alguns dias depois da minha apresentação à comunidade, Cristina me procurou e pediu para mudar o horário da reunião para o período da tarde, pois ela havia se esquecido de que muitas das pessoas importantes da comunidade trabalham no Centro e não poderiam estar presentes na hora que havia sido marcada originalmente, pela manhã. Sem refletir muito sobre a questão e tendo total flexibilidade de horário, aceitei a mudança.

No dia seguinte, diversas pessoas (nenhuma delas ligadas ao Centro) vieram me procurar revoltadas, dizendo que esta prática da Cristina de ficar mudando os horários que foram acordados pelo grupo todo é inaceitável, que seria uma estratégia dela para demarcar seu controle sobre o encontro e afirmando que ela tem o costume de fazer isso. Percebi que havia cometido um erro ao aceitar tão prontamente a sugestão dela.

Fui procurá-la, e ela me informou que já havia avisado todos os que estavam presentes na minha apresentação de que a reunião havia mudado para o período da tarde. Sugeri que a reunião permanecesse no horário que havia sido decidido em consenso pelo grupo, e ela ficou irritada dizendo que não participaria mais, pois isso iria inviabilizar a participação das pessoas mais importantes da comunidade, que são as que trabalham no Centro e que moram há mais tempo em Itapeba.

Fui consultar os participantes da minha apresentação e muitos deles não haviam sido informados ou consultados sobre a mudança do horário. Alguns deles teriam impedimento de participar no novo horário. Assim, buscando manter um papel de neutralidade em face à clara divisão que existe na comunidade, resolvi enviar um e-mail para todos propondo a realização de duas reuniões, uma no período da manhã conforme havia sido originalmente acordado, e outra no período da tarde, atendendo ao pedido de Cristina.

Expliquei que nesta fase inicial, era muito importante para mim ouvir o maior número de pessoas interessadas, para que eu pudesse entender o quadro geral, e enfatizei que nenhuma decisão seria tomada naquele primeiro momento.

Olá, pessoal!
Gostaria de convidar a todos para participar da discussão sobre a criação da Associação da Comunidade de Itapeba. Nosso primeiro encontro foi muito positivo, mas foi apenas o começo.

Para possibilitar a participação de todos, na próxima terça-feira (21 de junho) teremos a discussão acontecendo em dois horários:
9h – 10h30 e 16h30 – 18h

O horário da manhã foi combinado originalmente pelos participantes da última reunião. Já o horário da tarde foi solicitado por Cristina para permitir a participação dos funcionários do Centro e da escola.

Resolvi manter o acordo que foi firmado de maneira consensual entre todos os presentes. Não é justo mudarmos este horário sem consultarmos todos os envolvidos, especialmente fazer isso por e-mail.

Mas fui sensível à solicitação de incluir pessoas que não poderiam estar presentes de manhã. Por isso, aceitei a sugestão de Cristina e marquei um horário extra à tarde. Não é o ideal, mas é o possível. É improvável encontrarmos um horário em que TODOS possam estar presentes, mas quero muito acreditar que isso não vai inviabilizar meu trabalho.

Eu reconheço que seria melhor que todos estivessem presentes em ambas as discussões. Por isso, o convite está aberto: quem achar importante pode tentar reorganizar seus horários e comparecer de manhã e à tarde.
Simbolicamente, o que pode parecer um ato de desunião pode ser encarado também como a descentralização do espaço para discussões em Itapeba para permitir a participação de todos que assim desejarem.

Peço desculpas àqueles que já se organizaram para estarem presentes de manhã e que não poderão comparecer à tarde. Essa confusão de horários não voltará a ocorrer. Nenhuma decisão definitiva será tomada, apenas discutiremos qual o significado e a importância da associação para cada um dos interessados.

Estou muito entusiasmado com as possibilidades. Espero que possamos aproveitar bem o tempo em que estarei aqui!

Abração, Gabriel Siqueira

Cristina respondeu o e-mail dizendo que não estava certo começar a Associação dividindo a comunidade, e afirmando que se recusaria a participar das reuniões.

Oi Gabriel
Obrigado pelo convite, mas eu não acho correcto para a comunidade ser dividida num primeiro encontro onde todos deveriam estar juntos para partilharem os seus pontos de vista, para se escutarem uns aos outro, para tentarmos encontrar um ponto de vista comum e juntarmos a nossa energia em criar algo que beneficie a comunidade e unifique Itapeba. Fazer duas reuniões é separar as pessoas, pois a maior parte das pessoas não irá às duas reuniões, vai escolher só uma reunião para ir, para nós que trabalhamos em Itapeba já é difícil ir a uma reunião, duas é demais …e assim não poderemos estar todos juntos e criar algo juntos, simbolicamente é estranho começar encontros para uma associação criando separação .
O que eu pedi a todos esta manha foi que mudássemos a reunião das 9h para a tarde para que muitas pessoas pudessem participar, pois todos estariam trabalhando da parte da manhã e de tarde todos poderiam participar .
Então por este motivo eu decido não participar de nenhuma das reuniões na terça feira.
Participarei de reuniões quando a comunidade que vive em Itapeba estiver junta e pensarmos em todas as pessoas que vivem aqui já há muito tempo e trabalham e não podem participar de encontros durante a semana em certos horários. Para todos os professores da nossa escola será impossível participar nas reuniões programadas para as manhãs durante a semana, por exemplo.
Sempre perguntamos uns aos outros quando seria um bom horário para todos e sempre fizemos reuniões pensando em todos, para mim este aspecto é muito importante .
Desejo-vos uma boa reunião.
Um abraço
Cristina

Logo, chegaram mais três e-mails de funcionários do Centro, incluindo Joana, concordando com Cristina. Não cabe aqui reproduzir seu conteúdo, pois o argumento que utilizaram era muito semelhante ao da líder do grupo.

Já os moradores que não fazem parte do Centro apoiaram minha decisão de manter a reunião da manhã.

Dick and I cannot both come to a meeting at 4.00 or later. The help with our children goes home at 4pm. This 9am meeting was organized last Thursday when we were all there. At the time, nobody objected to this arrangement. Cristina suggested this time, everyone agreed. Since then, people have made plans so they can be available for the scheduled meeting. Changing meetings is very complicated. Let’s go ahead as planned and make a commitment to be more focused in scheduling meetings in the future. I think it is great there are two meetings tomorrow, it means we can really get some momentum with Gabriel who is here for such a short time. We will never find a time when everyone can come to the same meeting, so we must learn how to progress without everyone being able to attend every meeting.
If we have so much trouble just to organize a time for a meeting, how are we ever going to organize an Association?
Discussions must start, Gabriel’s email explained that no decisions will be made without everyone have a chance to contribute.
This is such an opportunity for us all, I hope we can all do our best to help Gabriel with this, rather than get bogged down with meeting times.
Beijos
Lidia
– – –
Hopefully everyone who is able to will come to both these association discussions will do so. I think that this is one of the most important things that is happening in this community, and represents a new level of organization and empowerment for those who live here, or those who are planning to make a life here. We can get over past difficulties, and take advantage of new energy to make this happen. I fully support Gabriel in this work, and can see that he is truly open to all ideas, and is trying to make it work. I will come to both meetings. I can’t think of anything more important to do those 2-3 hours.
Luke

Outros moradores que não tem ligação com o Centro também ficaram insatisfeitos comigo por ter marcado um novo horário a pedido de Cristina. Ao tentar agradar gregos e troianos, acabei desagradando a todos. Tornou-se ainda mais claro para mim que existe uma divisão entre Centro e Ecovila, sendo o primeiro grupo o que detém maior poder.

Ao menos eu tinha o apoio de Moksha, que havia concordado em me auxiliar com a facilitação e a comunicação não-violenta. Moksha tem um papel relativamente neutro na ecovila, pois faz massagens e recebe muitos clientes pelo Centro, mas não é funcionário e me pareceu sensível às preocupações dos moradores que não fazem parte do Centro.

Juntos, preparamos algumas regras que deveriam ser respeitadas nas reuniões, utilizando como inspiração um modelo de tomada de decisão por consenso que foi desenvolvido numa ecovila alemã especializada em resolução de conflitos:

1) Pessoas que não são afetadas pelos efeitos da decisão ou que não estão prontas para se comprometer com os resultados dessa decisão não podem decidir.
2) Quem não estiver presente em dois encontros seguidos ou demonstrar que não tem interesse na preparação para a tomada de decisão e a consideração de alternativas não terá poder de veto.
3) Caso uma pessoa exerça seu direito de veto, ela deve estar preparada para encontrar uma nova alternativa para solucionar a questão em pauta.
4) Consenso -1: caso apenas uma pessoa tenha vetado uma decisão, e depois de mais um encontro ela continuar sendo a única a vetá-la, a decisão será tomada sob o consenso – 1.
5) Nos comprometemos a evitar decisões coletivas se não houver necessidade disso.
6) Tentaremos separar o aspecto emocional do componente pragmático. Para as questões emocionais, o espaço adequado é o Ritual da Amizade promovido por Moksha. Caso contrário, poderíamos perder tempo e energia que poderiam ser empregados de forma mais pragmática.
7) Sempre estipularemos um horário para encerramento dos encontros, e esse horário será respeitado a não ser que o grupo decida prorroga-lo por mais alguns minutos.

Finalmente chegou o dia das reuniões. No período da manhã, cerca de 15 pessoas compareceram, dos quais apenas duas faziam parte do Centro, Joana e Mauro. Todos expressaram suas expectativas com relação à associação. Um dos pontos que foi reforçado pela maioria das pessoas foi a necessidade de um espaço para que elas pudessem se manifestar livre de constrangimentos, ao contrário do que costuma acontecer nas reuniões que acontecem no Centro por iniciativa de Cristina, em que impera um clima de autoritarismo onde as pessoas só podem falar de coisas boas e agradáveis.

Muitos agradeceram o trabalho que eu estava fazendo, oferecendo a oportunidade de discutir abertamente os problemas da comunidade. Alguns consideravam que ainda não era possível dizer que existia uma comunidade em Itapeba, enquanto outros avaliaram que existe uma comunidade divida entre dois grupos, o Centro e a ecovila.

Gostaria de aproveitar a ocasião para esclarecer as questões de liderança na ecovila. Cristina é líder espiritual de apenas uma parte da comunidade, eu não me incluo nesse grupo (Moksha).

A última a falar, Joana, discordou da percepção de muitos dos desabafos que emergiram, afirmando que não consegue enxergar que a comunidade esteja dividida entre Centro e Ecovila ou Frente e Fundo, isso era algo do passado que já não mais acontecia.

Já a reunião da tarde contou com a presença de cerca de 30 pessoas, incluindo Cristina e boa parte das pessoas ligadas ao Centro, além de todos que estiveram presentes no período da manhã. Cristina solicitou que eu fizesse um breve resumo do que havia sido discutido pela manhã, para evitar que houvesse segredos e fofoca. Procurei ser imparcial e não mencionei o nome das pessoas, apenas o conteúdo de suas falas.

Durante meu relato, fui interrompido diversas vezes por Cristina. A título de exemplo, destaco as seguintes passagens:

– Algumas pessoas consideram que não existe uma comunidade em Itapeba. Outros enxergam uma clara divisão entre Centro e Ecovila (o autor).
– Quem disse isso? (Cristina)
– Durante a manhã, uma questão emergente foi a maneira como a liderança é exercida em Itapeba. Ninguém aparentemente foi contra a existência de líderes, mas alguns gostariam que esses fatos fossem mais explícitos, como por exemplo o fato de Cristina ser a líder espiritual de um grupo de moradores (o autor)
– Que absurdo! Quem falou isso?!? Eu não sou líder de ninguém, aqui todos somos iguais (Cristina).

Depois do meu relato, abri o espaço para que todos pudessem se colocar. As pessoas ligadas ao Centro focaram suas falas em enfatizar que não era preciso discutir a comunidade, pois não existem problemas. De acordo com eles, já existem espaços para falar abertamente, como as reuniões presididas por Cristina, as leituras de aura e outros trabalhos espirituais.

Para eles, a associação deveria ser focada em questões práticas como regras ecológicas, manutenção das estradas e outras funções típicas de associações de condomínio. Além disso, reclamaram da presença de pessoas que não são donas de terrenos na reunião, afirmando que era necessária apenas a presença de “moradores” (leia-se: proprietários de terrenos e casas) nessa discussão.

Finalmente chegou a vez de Cristina falar, e ela não abordou a questão que estava sendo proposta, se concentrando em desqualificar minha habilidade de liderar o processo de discussão de uma comunidade que eu não conhecia.

Não foi pra isso que eu te convidei para administrar a ecovila. Você foi chamado para cuidar da parte técnica, terminar o estatuto que já fizemos e fazer a burocracia para legalizar a associação (Cristina)

Percebi que minha posição de neutralidade estava solapada. Tentei contornar a situação, relembrando a todos que o relato que eu havia feito sobre a reunião da manhã não foi baseado em opiniões minhas, mas tinha emergido das falas dos participantes. Para mim, o fato da questão ter emergido com tanta força indicava uma forte necessidade de falar sobre os conflitos e discordâncias.

Escorpião: animal que frequenta assiduamente as reuniões da ecovila
Escorpião: animal que frequenta assiduamente as reuniões da ecovila

Depois disso, diversos membros da comunidade manifestaram seu apoio ao meu trabalho.

O clima dessa reunião da tarde está muito pesado. De manhã nós nos sentimos bem e fomos embora felizes. Agora tem uma tensão no ar! (Moksha).

Me senti muito mais à vontade para me expressar livremente hoje de manhã na reunião do Gabriel do que em todas reuniões da comunidade que participei antes (Luke).

Se algumas pessoas estão reclamando que não se sentem bem nem conseguem se expressar, acho que devemos ouvir o que elas têm a dizer ao invés de negar sem nem pensar a respeito (John).

Contrariada, Cristina deixou a reunião antes do final, mas nenhum dos membros do Centro a acompanhou. Entre os que permaneceram, ficou decidido que queriam continuar a realizar o trabalho comigo e marcamos a próxima reunião para a semana seguinte, no período da tarde.

Joana, Mauro e Moksha solicitaram que o próximo encontro tratasse do resgate do que já havia sido discutido anteriormente, para aproveitar a curva de aprendizagem e evitar desgastes ao debater pontos que já haviam sido acordados no passado.

Encerro aqui a sétima parte desse diário de campo.

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