Magia? Conspiração? Mera coincidência? Na mesma semana em que a presidenta Dilma Roussef instala a Comissão da Verdade é anunciado o lançamento do segundo volume da HQ “Ditadura No Ar”. Ambos projetos voltam seu olhar para um dos períodos mais conturbados e obscuros da história recente do Brasil: a Ditadura Militar.

Para quem não teve a pachorra de folhear NENHUM jornal nos últimos dias, fique sabendo que nos próximos 4 anos esta comissão irá apurar violações aos direitos humanos ocorridas entre 1946 e 1988. A ditadura militar ocorrida no Brasil está dentro deste período. A grande treta é sobre qual será o foco da apuração: somente as violações cometidas pelos militares ou se também para as ações dos guerrilheiros.

Em meio a essa polêmica toda, uma história em quadrinhos nacional lançada de maneira independente nos traz uma abordagem não maniqueísta da época, onde convicções políticas e questões pessoais misturavam-se, gerando consequências inesperadas.

Ditadura No Ar é uma história em quadrinhos policial ambientada no regime militar brasileiro. Esse verdadeiro thriller de ação policial foi criado pelo roteirista e editor Raphael Fernandes (MAD, Wizmania) e pelo desenhista Abel (Almanaque Gótico, CecilleVeronika).

Até o momento, acompanhamos o fotógrafo freelancer Félix Panta investigando o paradeiro de sua namorada comunista Nina (vulgo Lenina), capturada pelo DEOPS durante um protesto contra o regime militar. Seus planos deram errado e, além de não encontrar a garota, teve sua máquina fotográfica danificada.

Na segunda edição, Félix é contratado para acompanhar um repórter novato ao esconderijo de Samarca, um guerrilheiro de esquerda que conseguiu fugir de um presídio militar. Sabendo que ele foi capturado no mesmo final de semana que Nina, o fotógrafo carcamano vê neste trabalho uma chance de conseguir alguma pista.

Fortemente influenciada por “Agente Secreto X-9″, “Sin City”, “100 Balas”, cinema noir, fumetti, Clint Eastwood e Quentin Tarantino. A narrativa foi construída para simular as tiras clássicas de aventura, que geravam uma tensão cativante, mas sem revelar o desfecho da cena, obrigando o leitor a voltar na semana seguinte. Tudo isso dentro de um período ainda obscuro na história recente do Brasil.

Inicialmente publicada no  Contraversão, Ditadura No Ar cresceu e migrou para o formato impresso, rendendo ao roteirista Raphael Fernandes a indicação na categoria Roteirista Novo Talento no Troféu HQMix de 2012. O final do arco “Covil Vermelho” permanece inédito na web e finalmente é revelado nesta edição impressa.

Confira abaixo uma entrevista com o roteirista Raphael Fernandes. Arrancamos coisas que nem a comissão da verdade conseguiria fazer!

De onde surgiu a ideia de escrever “Ditadura no ar”?

Eu sofro de insônia. Certa noite, comecei uma conversa com o Abel (que estava ligeiramente de pileque) no meio da madrugada sobre como a gente queria fazer alguma história em quadrinhos com clima noir. Como havia acabado de ler as coletâneas do “Agente Secreto X-9” e  do “Garra Cinzenta“, me empolguei na hora e falei da gente fazer aquilo pra valer. Nem que fosse pra publicar no meu blog. Só que pra sair das histórias óbvias a gente podia ambientar a HQ no Brasil. E a grande questão que me veio a mente foi: qual foi o período mais tenebroso e perigoso do Brasil? Uma época em que ninguém podia confiar em ninguém. Daí pra frente, não tivemos dúvidas sobre o contexto da HQ. O nome foi um trocadilho que surgiu como piada, mas depois tornou-se impossível de ser substituído por outra coisa.

Como é o processo criativo para escrever cada capítulo?

Quando fazíamos as tiras semanais no Contraversão, eu costumava bolar o que queria contar com o arco todo e ir construindo tira por tira. Cada tira deveria relembrar o que aconteceu até ali sem ser repetitiva, desenvolver um pouco a história e deixar um gancho para a próxima semana. A ideia era brincar com as antigas tiras de aventura, que faziam os leitores voltarem para ler todos os dias. Muitas coisas foram decididas de última hora ou de forma intuitiva. Após a impressão do primeiro volume, o Abel começou a pegar trabalhos loucamente e tivemos que diminuir o ritmo de publicações online. Tanto que hoje a série só terá continuidade no meio impresso. O processo criativo agora é pensar no arco como um todo, ouvir muita música de época, conversar com gente que viveu por lá, ler entrevistas e viajar dentro do imaginário coletivo sobre o regime militar brasileiro. Teve uma tira que passei 3 meses escrevendo e hoje é a página central do segundo número. Outras tiras foram feitas em 20 minutos.

Quando começou a sua parceria com Abel, o desenhista? Ele opina no roteiro?

O projeto é nosso. Nada foi criado sozinho na série. Desde o começo discuti o visual de todos os personagens com ele, que dava pitacos em várias partes do roteiro. A sensação é de estar em uma banda de rock que você se dá muito bem com todos os músicos. Para fazer uma página, o baterista nem precisa gritar: 1, 2, 3, 4!

Houve muita pesquisa histórica? Algo lá é baseado em eventos reais mais específicos?

Fiz pouca pesquisa histórica para compor o cenário. Desde o começo da tira, eu queria fazer como nas histórias americanas. Você já viu um filme de gangster que fica fazendo contextualização histórica? O clima era mais importante e isso só conseguiria acessar através dos papos que tive sobre o assunto durante toda a vida, relatos de professores da faculdade, os medos dos meus familiares e toda a cultura de época. Ouvi toneladas de discos e acabei virando fã do Tropicalismo (tanto que odeio ainda mais esses caras pelo que se tornaram), li algumas revistas de época, pesquisei os carros do ano e etc. A única regra é que a história se passa em 1968. Quando tenho alguma dúvida, pesquiso e adapto para o que existia até aquele ano.

Ditadura no ar começou como uma HQ online. Por que escolheu este formato?

Sou um atolado de trabalho desde sempre. Meu maior problema em escrever era que eu não conseguia desenvolver o hábito e o Abel havia me dito que sofria do mesmo na época. Por isso, tivemos a ideia de fazer uma parte por semana para a internet e com isso desenvolver essa rotina de produção. Sem falar, que assim a gente podia ver o resultado instantâneo daquele trabalho, enquanto ele era construído. Foi a melhor coisa! Depois disso, ambos entramos em um ritmo frenético e produzimos MUITA coisa em pouco tempo.

Quando foi que resolveu “migrar” a HQ para o formato impresso?

Foi uma decisão de impulso. Tive um presságio de que não deveria ir ao Rio Comicon 2011 e que deveria usar o dinheiro, que seria usado na viagem, para produzir meu primeiro projeto impresso. A ideia era lançá-lo no FIQ (Festival Internacional de Quadrinhos) que aconteceria em dois meses. Foi assim que a gente juntou todo o material de Ditadura no ar e passou pro Thiago Hara montar no formato de uma revista. O interessante é que o lançamento fechou um ciclo, pois, no FIQ anterior, conheci o Abel e o pessoal do Café Nanquim – os principais responsáveis pela realização do meu interesse de produzir quadrinhos independentes.

Qual foi a repercussão para você da primeira edição?

Eu não imaginava o real alcance da revista. Fui para o FIQ com 300 exemplares, algumas camisetas da série e uma porção de bottons. Em apenas dois dias de evento, quase tudo o que levei havia sido vendido. Todo mundo falando que o trabalho estava bacana e que esperavam essa edição impressa. Nesse FIQ, o Abel conseguiu um trabalho com uma boa editora nacional para fazer uma adaptação em quadrinhos. “Ditadura No Ar” foi a forma mais sincera de dizer ao mercado de quadrinhos que eu não sou humorista e que gostaria de ir além do que já fazia como editor da revista MAD.

Você foi indicado para a categoria Roteirista Novo Talento do troféu HQMIx, a maior premiação nacional de HQ. Como foi receber essa notícia?

Na pré-indicação, meu nome não estava entre os indicados e achei isso muito bom. Não queria logo no meu primeiro trabalho ganhar a confiança que torna a gente cego para a própria mediocridade. Ainda preciso crescer muito como roteirista e temia que uma indicação atrapalhasse esse processo. O mais interessante foi que o Zé Oliboni, do Universo HQ, me chamou em um chat para me falar que eu deveria estar ali. E que ele havia me indicado. Sinceramente, isso foi emocionante demais. Alguém que nem mesmo é fã da MAD, havia gostado de Ditadura no ar.

A indicação surgiu em boa hora também, pois eu havia acabado de perder uma oportunidade de trabalho e ela veio para me reanimar. Ou seja, ao invés de me tornar um fanfarrão, a indicação me incentivou a produzir mais e melhor.

O que você pode adiantar sobre a terceira edição de Ditadura no ar?

A terceira edição será focada na tímida Anselma. Vamos mostrar o preço que ela teve que pagar por ser amiga de Lenina, nossa querida revolucionária de butique. Claro que o Félix terá que ajudá-la, mas não sairá ileso desta vez. Outra coisa que quero destacar nessa edição são os movimentos estudantis e como era estar no meio de uma manifestação nessa época. O nome do arco é resultado da minha paixão pela música de protesto: “Eu quero é botar meu bloco na rua”.

A HQ tem um final ou pretende continuar “para sempre”?

No formato tira, eu pretendia levar a série pelo infinito e além. Porém, com o lançamento da edição impressa, encontrei um final muito interessante para a história. Contei para o Abel o que pretendia e ele gostou bastante da ideia. Só achou que eu deveria parar de matar tantos personagens. Se tem alguns caras vivinhos da Silva no segundo número, agradeçam ao Abel. (risos)

Além da MAD e do Contraversão, está envolvido em algum outro projeto?

Minha vida é regida pelo arcano O Carro e isso significa que estou sempre envolvido com realizações de projetos. Desde o começo do ano, decidi mergulhar de cabeça no mundo dos quadrinhos independentes. Estou seriamente ligado às coletâneas “Imaginários em Quadrinhos” da Editora Draco, que vai publicar apenas histórias de ficção científica, terror e fantasia. Será uma espécie de Heavy Metal brasileira para livrarias. Também produzi algumas HQs curtas para introduzir RPGs independentes, como a história desenhada pelo Dalton Soarez para “Abismo Infinito” do John Bogéa. Há o início da minha parceria com MJ Macedo, autor da adaptação de “Cidade de Deus” ainda inédita, que sairá no RPG “Space Dragon”. Além de publicações independentes com Pedro Pedrada, Camaleão, Doug Lira, Germana C. Viana e Magenta Hi, além de uma parada muito doida que estou desenvolvendo com o pessoal do meu curso de roteiro. Sem falar na minha participação no próximo número do Almanaque Gótico, em uma HQ macabra com o desenhista Victor Freundt. Será que sou workaholic?

Deixe ume pérola de sabedoria para nossos leitores.

Agradeça a todos que fizeram bullying com você, ofereça rosas para todas as namoradas que te sacanearam, aproveite as demissões que sofreu e tenha orgulho de qualquer desavença que você tenha tido com seus pais e autoridades sociais, pois foi tudo isso que te ajudou a ser o que é hoje. Se mesmo assim você ainda consegue ver o mundo à sua própria maneira… Parabéns, você saiu da Matrix.

A revista será lançada no próximo 26 de maio, a partir das 14h, na Comix Book Shop (Alameda Jaú, 1998, São Paulo, SP).

Para mais informações, visite a fanpage da revista: http://facebook.com/ditaduranoar

“Ditadura No Ar #2” tem 28 páginas coloridas, formatinho e custa apenas R$ 8,00.

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É um cara que já trabalhou (e trabalha) em muitas coisas e nas poucas horas que tem dá uma de escritor/poeta/jornalista/roteirista. Quando tem vontade atualiza seu blog, o “O Protagonista 2.0”. Foi colaborador do blog Cultura Nerd e atualmente escreve para os blogs sites Novelas Teen, Contraversão e Revista Entremundos. Pode ser encontrado a noite cambaleando bêbado pelas ruas de São Paulo ou falando seu nome três vezes em frente a espelhos em botecos suspeitos da Augusta e da Mooca. Uma mistura de Spider Jerusalem e John Constantine, ou não.

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