Django-Unchained

Quentin Tarantino passou anos produzindo filmes que homenageavam seus gêneros cinematográficos preferidos, como o blaxploitation e principalmente o western spaghetti. De tanto misturar referências, ele acabou criando seu próprio estilo, sempre com muita violência e diálogos que se estendem por longos minutos. O cara contou histórias sobre assalto à banco, máfia, samurais modernos e até reescreveu a história da Segunda Guerra Mundial, mas até hoje não tinha feito um western, apesar de sempre declarar paixão pelo gênero. Talvez ele tenha passado esses anos todo justamente criando coragem para filmar algo do seu gênero preferido, até que finalmente chegou com Django Livre.

Apesar de ter reescrito a história em Bastardos Inglórios, Django talvez seja o filme mais corajoso de Tarantino. Simplesmente porque aqui ele se livra de todas as “muletas” que ele utilizou durante anos e, ao invés de homenagear gêneros cinematográficos, ele filma um western do começo ao fim. Se não fosse a violência estilizada, típica do diretor, talvez Django Livre pudesse passar como um western típico. Mas voltando às tais “muletas”. Gosto de praticamente todos os filmes do Tarantino, mas sempre achei que ele se apoiava demais na divisão em capítulos e na montagem muitas vezes fora de ordem de seus filmes. Era como se ele não conseguisse contar uma história em linha reta, sem interrupções e usasse a desculpa do estilo para passar por cima disso.

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Em Django Livre isso se foi, a história possui começo, meio e fim, sem a divisão em capítulos. Quando um flashback é mostrado, ele está no contexto do filme, sem interromper abruptamente a narrativa principal. E falando em narrativa, ela está muito mais agradável do que em seu último filme. Mesmo com suas quase três horas de duração, Django parece passar bem rápido. Os diálogos em algumas cenas continuam tarantinescamente gigantes, porém duram o tempo certo para não cansar o espectador. Em Bastardos Inglórios, por exemplo, muitas cenas eram arrastadas demais, como acontece na cena do bar quando os Bastardos vão se encontrar com Bridget von Hammersmark. O que começa como uma parte bem tensa do filme (afinal, tudo pode dar errado ali) acaba se tornando cansativo e, no lugar da tensão, o espectador só quer que o filme siga adiante de uma vez.

Os atores, como sempre acontece nos filmes de Tarantino, estão excelentes em seus papéis. Christoph Waltz rouba a cena novamente, dessa vez no papel do dentista/caçador de recompensas King Schultz. Mesmo passando a maior parte do tempo contracenando com Jamie Foxx, parece que Waltz é o verdadeiro protagonista do filme. Foxx é, na minha opinião, o elo fraco no elenco da produção. Achei o personagem Django bem sem graça e em nenhum momento me vi torcendo por ele, como fiz tantas vezes pela Noiva em Kill Bill. E nem posso dizer que não gostei dele, ele simplesmente se tornou indiferente, não sentiria nada se Django caísse morto a qualquer momento.

Felizmente, o filme tem outros personagens interessantes para compensar, como Calvin Candie, interpretado por Leonardo DiCaprio. Competente como sempre, o ator consegue transmitir toda a loucura contida no personagem, apenas com algumas pequenas mudanças de olhar e nos trejeitos. E claro que não podia faltar ele, o parceiraço do Quentin Tarantino, Samuel L. “motherfucker” Jackson. Não convém falar o modo como o personagem é mostrado justamente em uma época de escravidão, já que pode estragar algumas surpresas, mas é hilário o modo como ele puxa o saco de seu dono Calvie Candie, sempre repetindo as frases mais importantes dele.

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Sobre a grande polêmica que houve antes do filme estrear, dizendo que ele era violento e racista demais, é tudo uma grande besteira. Django Livre possui muita violência sim, mas ela é bem menor do que em filmes anteriores do Tarantino. Sem contar que ela continua com a toda aquela estilização que faz com que o público até dê risadas de tão absurda que é a cena. Quanto ao racismo, a palavra nigger nem é tão falada assim como andaram alardeando por aí. Além disso, o filme se passa numa época em que negros eram tratados como mercadoria e os brancos utilizavam todo tipo de linguagem humilhante para se referir a eles. Por mais que Tarantino não esteja contando uma história real, ficaria bem estranho se os personagens se comportassem de outra maneira.

Entre as duas últimas produções de Quentin Tarantino, pessoalmente eu gosto mais de Bastardos Inglórios, apesar de seus pequenos defeitos, mas Django Livre é um dos maiores e mais bem acabados filmes do diretor. E agora que Tarantino finalmente produziu um western (gênero que ele tanto homenageou), fica a curiosidade de saber o que vem a seguir. Agora que o cara finalmente se libertou das suas “muletas” cinematográficas, então qualquer coisa boa pode vir por aí. Quem sabe um filme de samurais no Japão Feudal?

Django Unchained (EUA, 2013)

Direção: Quentin Tarantino

Duração: 165 min

Nota: 9

Fiquem agora com alguns cartazes oficiais do filme:

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Felipe Storino é carioca, criado na Zona Norte do Rio de Janeiro e radicado no Espírito Santo. Possui três grandes paixões: o Flamengo, cinema e games. Sobre os games, começou nessa vida ainda na época do Atari e do Odyssey e nunca mais largou os joguinhos. Quando não está jogando, está assistindo filmes, séries ou lendo gibizinhos. Recentemente virou grande entusiasta dos jogos de tabuleiro, comprando mesmo quando não tem com quem jogar. É orgulhoso possuidor de um Super Nintendo e um Master System 3 originais.

1 COMENTÁRIO

  1. Pessoalmente gostei muito do filme, mostra também um lado da cultura americana e que hoje mudou muito pois elegeram até um presidente negro. No Brasil os escravos também eram tratados desta forma quem sabe o Diretor José Padilha não possa criar uma superprodução nacional que remeta aquela época?

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