Eu dirijo. Isso é tudo que faço. Você me diz onde começamos, em que direção devemos ir, para onde devemos seguir depois, em que horário. Não me meto, não conheço ninguém, não ando armado. Eu dirijo.

Eram tempos difíceis. Um quarto da população americana estava desempregada e os que conseguiram manter seu trabalho tiveram que aceitar reduções salariais, cidades colocavam avisos de “Não temos empregos” para não atrair pessoas de outras regiões, grandes empresários viam seus negócios falirem todos de uma vez. De fato, chega a ser curioso que foi justamente neste período de vacas magras e bolsos vazios que as pulps magazines proliferaram pra valer, ocupando o lugar que as séries de televisão ocupam hoje. Impressas em papel de pouca qualidade feito a partir da polpa da madeira das árvores e sempre extremamente baratos (cerca de quinze centavos cada edição na época), as publicações mais famosas chegavam a vender milhões de exemplares. Consideradas baixa literatura e seu público de baixo nível pelos setores mais convencionais da sociedade, era possível encontrar de tudo nelas. Revistas de horror barato como na célebre Weird Tales, histórias de bang-bang na Western Tale e West Weekly, ficção científica na Astounding Stories, entre centenas de outras. Nessas revistas, autores desconhecidos tentavam a sorte, ganhando apenas um centavo por palavra escrita. Era o caso de autores tão díspares quanto Robert E. Howard, criador do Conan, H. P. Lovecraft, Robert Bloch, Isaac Asimov, Ray Bradbury, Raymond Chandler e Dashiell Hammett. Esses dois últimos foram alguns dos principais responsáveis pelo surgimento de um dos mais importantes subgêneros da literatura policial, o noir. Em uma época em que os detetives da ficção eram sempre máquinas de dedução, as mulheres bondosas e os policiais honestos, o noir praticamente redefiniu o que se esperar de uma boa história de crime. Ultraviolência, sarcasmo, detetives finalmente humanizados, cínicos e durões, policias corruptos, mulheres que esbanjam sexualidade e veneno.

Hoje um estilo reconhecido pela crítica, o noir atinge e inspira até hoje várias classes e gerações de pessoas. Desde autores como Ross MacDonald, James Ellroy, James M. Cain até filmes como O Falcão Maltês, Pacto de Sangue e a grande homenagem de Quentin Tarantino, Pulp Fiction.

A vida nos manda mensagens o tempo todo – e depois fica sentada, dando gargalhadas enquanto observa o quão ineptos somos para descobri-las.

Substitua o tão característico deteve do noir por um piloto e a sua arma por um carro turbinado e você terá Drive, do americano James Sallis. Atualizando e subvertendo as regras do gênero para o século XXI, é possível sentir o mesmo clima de solidão que povoa as histórias do Philip Marlowe de Chandler e o Sam Spade de Hammett. Além da mesma crítica potente à sociedade americana ou, mais especificamente, à Los Angeles. A cidade parece um lugar bastante ruim para se morar e um destino sombrio parece se esconder por trás de cada beco. Até mesmo oz vizinhos são completos estranhos, entrando e saindo de suas casas e apartamentos sem que nunca se saiba quem são e o que fazem.

Era uma parte da cidade em que histórias sobre a máfia circulavam como se fossem a última piada.

O Piloto sempre usava seu próprio carro. Os automóveis não eram roubados. Esse era o primeiro erro que tanto os profissionais quanto os amadores cometiam. Em vez disso, ele os comprava de pequenas lojas de carros usados. Era preciso procurar por algo que não chamasse a atenção, que se perdesse na paisagem. Entretanto, também era preciso que o veículo fizesse com que os outros comessem poeira caso fosse necessário.

O Piloto, o qual Sallis nunca nos permite conhecer o nome, divide seu tempo entre duas atividades distintas. Pelo dia, usa suas habilidades para dirigir gravando perigosas cenas de filmes de ação como dublê em Hollywood. Pela noite, é piloto de fuga em assaltos. Em ambos os trabalhos ele não é apenas bom ou excelente. É o melhor que se pode contratar. Não apenas por dirigir como ninguém (talento que abraçou com todas as suas forças), mas por conhecer todas as rotas possíveis de fuga e sempre saber qual a melhor para cada tipo de situação. Por ter um instinto de sobrevivência quase selvagem, matando sem hesitar quem quer que entre em seu caminho. Cada ato seu, por mais insignificante que pareça, é pensado com cuidado. Jamais deixa rastros, como fazer pagamentos com cheques ou se registrar com seu nome verdadeiro em hotéis, muda-se constantemente de endereço e está sempre alerta ao menor sinal de movimento ou ruído.

A primeira coisa que se deve fazer, seja num quarto de hotel, bar, restaurante, cidade ou cafofo, é checar e memorizar as saídas.

O Piloto não é o único personagem de Drive a não ter nome. Eles estão por todo o livro, sejam tão anônimos como o protagonista ou com apelidos genéricos. O Cozinheiro, Novato, Doutor, Nino, Manny. Eles são apenas alguns entre milhares de outros espalhados por aí, Sallis parece nos sugerir. Figuras anônimas à margem da sociedade, planejando seus próximos crimes.

Como todo bom livro o que importa mais não é a história em si, mas a forma como ela é contada. Se o escritor tiver uma grande idéia em mente, mas não souber como contá-la o resultado será nada menos que medíocre. Felizmente, a maneira como Sallis conta a história do Piloto é o maior trunfo de Drive. O livro é simplesmente o Pulp Fiction da literatura. Da mesma forma que na obra-prima de Tarantino aqui não há ordem cronológica alguma. É tudo tão fora ordem que às vezes parece que Sallis derrubou o manuscrito no chão sem querer, misturando todas as páginas e enviou para a editora assim mesmo. Cada capítulo é formado por acontecimentos soltos que formam a vida do piloto, desde à sua infância até o período atual. Drive é como um grande e intrincado quebra-cabeça, que vai sendo montado pouco a pouco pelo leitor, que precisa ficar sempre atento para não se perder enquanto as peças se encaixam.

Não era preciso pressionar o carro, mas apenas deixa-lo solto, ver para onde ele iria. Observe e sinta como ele dobra as esquinas, como seu eixo continua ressoando quando você o acelera, freia, realiza ultrapassagens. Mais que tudo, escute. A primeira coisa que fez foi desligar o rádio. E, então, teve de pedir que o vendedor calasse a boca.

Se fosse escrito forma convencional Drive provavelmente seria apenas mais um livro de mistério como muitos outros por aí. Mas sem a ordem cronológica ele se torna um dos mais potentes suspenses escritos dos últimos anos, soltando doses de adrenalina sempre maiores. Com acontecimentos se concluindo sem que ainda tenhamos ideia de como se iniciaram ou situações que jamais são resolvidos logo no capítulo seguinte, é impossível não querer lê-lo em uma tacada só para ver como tudo se completa.

Não bastasse isso, Drive é todo pensado para ser lido rapidamente. Sallis escreve sempre com o pé no acelerador. Sua linguagem é simples e direta, recheada de palavrões e termos de baixo calão. A descrição se resume apenas ao estritamente necessário, jamais se apegando a detalhes de como um personagem quebrou o braço, traços dos personagens ou descrições de cenários. Tudo mantido da maneira mais sucinta possível para manter a adrenalina em nível máximo. Não que ele não pise no freio de vez em quando. Há capítulos mais lentos, onde o leitor pode respirar um pouco e entender melhor o Piloto.

Às vezes as coisas dão errado nos trabalhos, começando de maneira tão sutil que nem se percebe. Outras vezes, é tudo dominós e fogos de artifício.

– Rina sempre reclamou que eu esperava pouco da vida – disse Standard.

– Bem, pelo menos você nunca ficará desapontado.

– É isso aí.

Outra semelhança com Tarantino que se pode encontrar em Drive, embora o Piloto assumidamente não seja de falar muito e use o anonimato como arma é o realismo dos diálogos. Os personagens fazem piadas em horas difíceis e reclamam de seus trabalhos como qualquer pessoa normal. Claro que James Sallis, como roteirista, não perde a oportunidade de escrever marcantes frases de efeito, mas mesmo elas soam possíveis em uma situação normal.

A TV estava ligada, mas não era possível ouvi-la, graças a Deus. Alguma comédia desmiolada em que atores com dentes brancos perfeitos diziam suas falas e depois congelavam no lugar para dar voz às risadas pré-gravadas.

O antigo automóvel de Jodie era um Ford-150, tão sem graça quanto um carrinho de mão, tão confiável quanto a iminência da ferrugem e dos impostos, indestrutível como um tanque. Freios que poderiam conter uma avalanche, um motor poderoso capaz de rebocar geleiras. Se bombas caíssem do céu e varressem a civilização como a conhecemos, duas coisas sairiam das cinzas: as baratas e as F-150.

Com uma linguagem rápida, simples e bastante cinematográfica, sem citar o fato de o protagonista trabalhar em Hollywood, não é de se estranhar que Drive logo ganhasse uma versão no cinema. Ela veio em 2011, dirigido por Nicolas Winding Refn e estrelado por Ryan Gosling, foi aclamado em Cannes e considerado por muitos críticos como um dos melhores filmes do ano. Mesmo sendo bastante diferente da obra original, a adaptação conseguiu ser sensacional, superando em diversos aspectos o livro que o originou. Empolgado com o sucesso, Sallis decidiu continuar a história do Piloto e escreveu Driven, publicado em 2012 nos Estados Unidos.

Ler Drive não vai transformar sua vida ou te fazer ter grandes elucubrações. É entretenimento puro, inteligente e bem feito, como está cada vez mais raro de se encontrar, que ele nos oferece. De encher de orgulho os grandes autores do noir.



Autor: James Sallis

Editora: Leya

Páginas: 160

Preço: 31,90

Nota: 8,0

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Atrapalhado, paranóico, assíduo falante, leitor e cinéfilo voraz, teve desde muito novo os livros e os filmes como grandes companheiros da sua vida. Graças a eles desbravou novos mundos e universos, venceu batalhas e guerras e conheceu pessoas e povos de diferentes tempos. Tem como seus maiores ídolos Louis Ferdinand Céline, Machado de Assis, Jack Kerouac, Charles Bukowski, Um dia pretende concluir seu próprio livro. Enquanto isso não acontece, escreve críticas literárias na Mob Ground. @MuriloAndrade Facebook

5 COMENTÁRIOS

  1. Como assim um filme com Ryan Gosling e eu ainda não assisti?! Vou procurar, com certeza!! rsrs
    Então, Murilo, fala a verdade, você está sendo patrocinado pela Leya?? Tô brincando. Mas aproveita pra pedir a coleção Dragões de Éter.
    O livro parece interessante, não tinha ouvido falar. Gosto de autores com a ‘escrita rápida’ que você citou, quem sabe um dia não o encontro em promoção…

    =)

  2. Estava interessado no filme, mas não sabia que era baseado em um livro, a resenha me deixou ainda mais interessado em ambos.
    No entanto, em alguns pontos, não se confundiu “Noir” com “Pulp”? Por exemplo, Pulp Fiction não é um filme Noir, mas sim uma homenagem às pulp fictions em geral.

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