Um Bom Dia Para Morrer

Em certo momento de Duro de Matar: Um Bom Dia Para Morrer, o filho de John McClane pergunta ao pai “Essas encrencas perseguem você ou é você que as persegue?”. Os fãs de longa data da série sabem que a resposta para essa pergunta é a primeira opção. A graça dos filmes sempre foi o fato de McClane ser aquele cara comum que tem a incrível capacidade de estar sempre no lugar errado e na hora errada. Até o vilão do quarto filme diz isso pra ele em uma determinada parte. Ele nunca procurou confusão, pelo contrário, a única coisa que ele queria era ser deixado em paz. E é justamente aí que reside um dos grandes problemas desse novo filme, pela primeira vez é ele quem vai atrás de encrenca, mudando uma de suas características.

Ao descobrir que seu filho foi preso na Rússia por ter cometido um assassinato, John McClane não demora para ir até o país com a desculpa de que precisa se acertar com o filho que ele não vê há anos. Claro que as coisas fogem do controle e os dois acabam em fuga, enfrentando uma organização terrorista. Nesse contexto, o personagem interpretado por Bruce Willis parece totalmente deslocado. As suas reclamações constantes não fazem sentido, uma vez que foi ele quem escolheu se meter naquela situação. Se no primeiro filme era engraçado ver McClane reclamar o tempo todo que só queria curtir o natal, em Um Bom Dia Para Morrer soa forçado quando ele repete, a cada cinco minutos, que estava apenas de férias na Rússia.

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O fato de John McClane dessa vez agir junto com seu filho deixa as coisas ainda mais estranhas. Ele sempre teve ajudantes ocasionais (com exceção de Samuel L. Jackson), mas sempre resolvia as paradas sozinho e, geralmente, no improviso. Neste novo filme ele parece muito mais contido, já que precisa planejar algumas ações com o filho. Aliás, o ator Jai Courtney, que interpreta o filho de McClane, não possui metade do carisma de Bruce Willis. Na tentativa de estabelecer um relacionamento entre pai e filho, o filme traz ainda cenas meio patéticas, como John McClane desabafando com um total estranho sobre os erros que ele cometeu como pai.

Tendo que desenvolver o relacionamento entre pai e filho e ainda encher o filme de cenas de ação, acaba sobrando pouco tempo para outra coisa que era marca registrada da série: os vilões terroristas. Por mais que os motivos deles sempre fossem coisas simples, como dinheiro ou vingança (ou as duas coisas), eles eram bem desenvolvidos. Até mesmo o relacionamento entre eles e McClane era bem desenvolvido, fazendo com que o espectador realmente odiasse aqueles caras. E quando finalmente o herói se encontrava cara a cara com o vilão (ou falava com ele via rádio) e mandava a clássica frase “Yippee-ki-yay, motherfucker” era um momento de catarse no cinema. Os vilões deste quinto filme parecem que estão ali apenas fazendo figuração e, quando McClane solta sua frase de efeito, ela é simplesmente jogada no ar, apenas para manter a tradição de aparecer nos filmes.

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A ação do filme também não apresenta nada de muito interessante. A cena de perseguição em uma auto-estrada começa divertida, mas acaba ficando longa demais. Os veículos dos envolvidos na situação parecem indestrutíveis, passando por tudo que tem na sua frente. Nestes tempos em que temos perseguições como as da série Bourne ou de 007 Skyfall, a corrida frenética pelas ruas da Rússia em Um Bom Dia Para Morrer é apenas cansativa e acaba tomando boa parte do tempo do filme. Apesar da classificação indicativa ser para maiores de 18 anos nos EUA, o filme apresenta poucas mortes violentas. Tem um tiro na cabeça aqui e outro ali, mas nada impactante nem empolgante. Aliás, a ação do filme só ajuda a descaracterizar ainda mais o nosso querido John McClane. O mais divertido da série é o fato do personagem ser extremamente humano, quando sangra ele sente dor como qualquer um de nós. No primeiro filme temos a clássica cena em que ele se machuca com simples cacos de vidro no chão e tupo porque tinha tirado os sapatos que estavam apertando seus pés. Neste novo filme, McClane e seu filho chegam a cair do alto de um prédio atravessando umas três camadas de vidro e saem como se nada tivesse acontecido.

A GOOD DAY TO DIE HARD

Sempre fui grande fã da série Duro de Matar e do personagem John McClane e fiquei realmente empolgado com uma continuação. Mas, infelizmente, Duro de Matar: Um Bom Dia Para Morrer nem de longe lembra os bons tempos em que Bruce Willis derrotava terroristas sozinho em um prédio lacrado. Até mesmo o quarto filme, que possui classificação 13 anos, é mais divertido que esta continuação. É realmente uma pena que os roteiristas não tenham conseguido fazer com McClane o mesmo que Sylvester Stallone fez com Rambo e Rocky, que conseguiu fazer novos filmes respeitando as principais características dos personagens.

A Good Day to Die Hard (EUA, 2013)

Direção: John Moore

Duração: 104 min

Nota: 5

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Felipe Storino é carioca, criado na Zona Norte do Rio de Janeiro e radicado no Espírito Santo. Possui três grandes paixões: o Flamengo, cinema e games. Sobre os games, começou nessa vida ainda na época do Atari e do Odyssey e nunca mais largou os joguinhos. Quando não está jogando, está assistindo filmes, séries ou lendo gibizinhos. Recentemente virou grande entusiasta dos jogos de tabuleiro, comprando mesmo quando não tem com quem jogar. É orgulhoso possuidor de um Super Nintendo e um Master System 3 originais.

1 COMENTÁRIO

  1. Duro de Matar 5 faz parte de uma safra e de uma onda que a cada dia mais vem crescendo em Hollywood: a volta dos filmes de ação onde o protagonista é macho.

    Tudo começou com Mercenários e agora os cinemas estão recuperando o brilho de antigamente com os filmes cheios de ação, e com altas doses de mongolismo.

    E Duro de Matar 5 cumpre muito bem essa função. A relação entre pai e filho é brega, porém necessária. John McClane não se machuca? É basicamente o All Star Batman do Frank Miller, só que com doses cavalares de testosterona.

    A cena de perseguição na estrada russa quase me fez chorar no cinema tamanha emoção e perfeição.

    O filme que precisamos mas não o que merecemos.

    Abraços. Outro.

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