Eudes Honorato é um sujeito pacato e aparentemente normal. Se por um acaso o encontrasse em de suas andanças pelas ruas do Rio de Janeiro não passaria pela sua mente que ele é um dos primeiros blogueiros da internet brasileira e um dos maiores compartilhadores de arquivos digitalizados, também. Na web é conhecido simplesmente por Eudes, mas anteriormente seu alter-ego era OutsiderZ, quando iniciou sua aventura nas salas de discussão sobre cinema do site Uol e depois nas primeiras HQ´s em scans. Recentemente, no Twitter, ele se denomina Rapadura Man.

Pela lei do direito autoral brasileiro, as histórias em quadrinhos e outros produtos culturais, são proibidos de ser reproduzidos em qualquer meio – em especial na Internet – sem a devida autorização das editoras responsáveis. Neste ponto da cena que entra Eudes, que continuou o trabalho deixado pelos responsáveis do site chamado Toca de Carcaju, retirado do ar em 2002, por disponibilizar na internet versões escaneadas das revistas em quadrinhos publicadas pela editora Abril. Antes disso, no Estados Unidos já existia grupos que realizavam a mesma atividade que os brasileiros, mas foi Eudes que continuou o trabalho, logo após a mesma editora perder os direitos de publicação dos personagens da DC no país.

Eudes mantém o blog Rapadura Açucarada (RA) há mais de oito anos. Em média, por dia, o blog é acessado por 800 visitantes e gera 200.000 páginas impressas por mês.* Além disso, em 2007, ele criou o Fórum de Agrupamento dos Revolucionários da Rapadura Açucarada (F.A.R.R.A), junto com os leitores do blog. Com a função compartilhar filmes, séries de televisão e principalmente as histórias em quadrinhos que não tinham sido publicadas no Brasil em Scans e as edições raras, depois de inúmeras trocas de servidor o fórum foi retirado do ar em maio de 2010. Abaixo você confere a conversa que tive com ele.

1. Para muitos dos blogueiros e leitores, você foi o pioneiro em escanear as revistas em quadrinhos e compartilhar com o público. Qual foi motivação para iniciar o blog e publicar as edições “scaneadas” na Internet?

Eudes: Iniciar o blog não teve nada a ver com os scans. Os scans começaram depois que eu comecei o blog. A motivação para o blog foi mesmo na onda dos blogs, lá por 2002, que eu insistia que era besteira, mas acabei entrando, depois de muito criticar. Eu fazia parte de um grupo de doidos que se reuniam num fórum do UOL, chamado uol.cinema, em que falávamos de tudo, menos cinema, e acabaram sendo os que me apoiaram quando comecei o Rapadura Açucarada (RA). Visitavam o blog por que eram meus amigos, já que não era grande coisa como blog. Não era diferente dos tantos que surgiam naquele momento. Uns dois meses depois, quando descobri por acaso que sabia escanear, é que surgiu a idéia de colocar os quadrinhos, baseado no fato de que uns seis meses antes eu me deparei com um site na Internet chamado Toca do Carcaju*, que foi obrigado a fechar por ordem da Editora Abril*. Passado alguns meses, quando a Abril perdeu os direitos de republicar as histórias dos Super-heróis da Marvel e DC, eu pensei que então poderia tentar fazer o mesmo que o site fazia, mesmo não sabendo muito bem como era aquilo. Fui aprendendo enquanto postava, com a ajuda do pessoal que visitava o blog. Muitos scans tiveram que ser refeitos de tão ruins que ficaram no começo. Então, resumindo: a motivação para o blog foi um grupo de amigos virtuais. E a minha motivação para os scans foi continuar o que o Toca do Carcaju não podia mais fazer.

2. Há uma rixa entre os fãs das histórias em quadrinhos que apreciam o gênero dos super-heróis, nesta briga eles se dividem em dois grupos; os que preferem a Marvel e aqueles que gostam da DC, em qual grupo você se enquadra, já que sua primeira HQ scaneada foi uma edição do Deadpool*. Afinal, para você qual é a melhor: Marvel ou DC?

Eudes: Mesmo não querendo, eu acabo sendo um DCnauta e, no meu caso, nem é por questão de uma ser melhor que a outra. O que noto é que parece ter a ver com a personalidade de cada fã de quadrinhos escolherem uma ou outra. As duas têm seus defeitos e qualidades e suas épocas. Gosto das duas.

3. No inicio de seu trabalho você escaneava o que era publicado pelas editoras nacionais, mas depois, você começou a traduzir e diagramar as HQs, em especial as séries Planetary* e Preacher* que foram interrompidas no Brasil…

Eudes: Foi diferente, eu nunca tinha feito algo parecido antes, e nem tinha idéia de como faria, apenas fui lá e fiz, outra vez com a ajuda inicial dos amigos do “uol.cinema”. Alguns deles conseguiam os Scans em inglês (coisa que eu não sabia fazer) e outros traduziam (uma atividade que eu também não sabia e nem sei fazer) e eu apenas juntava tudo, editavas os balões com as falas traduzidas e diagramava. Com o tempo mais e mais pessoas começaram a fazer isso a ponto de eu mesmo não precisar mais me preocupar em traduzir, já que não faltava quem fizesse, sendo um bom exemplo o atual o blog Vertigem*.

4. Em 2002 foi lançada no Brasil a primeira edição da história em quadrinho The Authority, imprevistos aconteceram e a republicação no Brasil foi cancelada, mas você foi responsável por continuar o trabalho que a editora tinha deixado e lançou no RA as versões em scans. Os leitores elogiaram o seu trabalho pela qualidade na tradução e na edição das sutis referências histórias e de cultura pop que continha no roteiro. Como foi este trabalho?

Eudes: Em Authority, as referências não eram tantas, nada que uma boa pesquisada na internet não resolvesse, ou até mesmo um pouco de conhecimento acumulado. Isso tudo se dá por causa de um perfeccionismo até exagerado, mas que acabou tendo um resultado positivo.

5.  Você foi ameaçado a retirar o material disponibilizado no blog por alguma editora de HQs?

Eudes: Na verdade, diretamente eu nunca fui ameaçado por editora nenhuma (até então). Oito meses depois, entraram em contato com o servidor que hospedava os scans, que na época era pago, e ordenaram que tirassem do ar as HQs. Naquele ponto minha última opção era parar de colocar os scans, devido ao problema de ter que arranjar lugar onde pudesse hospedá-los. Desta forma, decidi parar.

6. Qual história em quadrinho não pode faltar na sua estante?

Eudes: Camelot 3000*.

7. Pensando no leitor que quer iniciar sua jornada pelo maravilhoso mundo dos quadrinhos, qual HQ que você recomendaria?

Eudes: Planetary*.

8. O Fórum de Agrupamento dos Revolucionários da Rapadura Açucarada (F.A.R.R.A)* foi outro projeto de sucesso na web, com milhares de usuários cadastrados e diversos filmes e HQs raras que eram compartilhadas para o público, como surgiu a idéia e se você obtinha lucro com o fórum?

Eudes: O FARRA, como a maioria das coisas que fiz na internet, surgiu por acaso. Eu estava cansado de sempre ter que fazer upload scans assim que eram deletetados dos servidores, seja lá qual fosse o motivo, então, junto com uma amiga, pelo MSN, comecei a matutar sobre montar um fórum, mesmo não gostando da estrutura de um fórum. A idéia era que os usuários também postassem os scans, logo, haveria uma divisão do trabalho e eu não precisaria me preocupar tanto. Também queria que houvesse variedade, com coisas sendo postadas que eu poderia não conhecer. E nem se falava em filmes, já que isso foi acontecer depois do fórum criado, aos poucos. Dinheiro? Nunca ganho com esses projetos, e na verdade, apenas gasto, seja aumentando a velocidade da minha banda de conexão, adquirindo gibis antigos, e até mesmo comprando e alugando DVDs que distribuía no fórum. Sempre achei que ganhar alguma coisa com isso, no caso dos downloads, fosse como estar indo contra mim mesmo, contra o que eu gostava de fazer. Se eu não gostasse e se achasse que me dava prejuízo arcar com as despesas, teria parado por conta própria.

9. Como leitor, o que você pensa sobre a “Revolução Editorial da Panini”?

Eudes: “Revolução editorial” é só outro nome para: “O que fizermos está bom, por que vocês não tem outra opção a não ser que comprem os importados”.

10. Com a popularização da Internet por banda larga e o surgimento de novos blogs, qual sua opinião a respeito do status que alguns blogueiros ganharam?

Eudes: Novamente, é natural também. Muita gente tem o blog como um trabalho, até mesmo quando ele é pra diversão, pode se tornar famoso e ver seu trabalho reconhecido, isto é uma recompensa. Claro, que como cada um vai lidar com isso, é que vai dizer bastante daquele blogueiro.

11. E você, se vê como um blogueiro famoso? Pelo seu trabalho com o blog e pela sua dedicação em produzir os scans?

Eudes: Famoso pra mim é quem está montado na grana da sua fama, e eu, bom…

12. Como um dos primeiros blogueiros brasileiros, quais as mudanças que você vê na blogoesfera atual?

Eudes: Não sei exatamente quais são. Não estou tão “antenado” assim, mas o Twitter, Facebook, Vlogs, me parece que forçosamente geraram certa mudança… muitos dos blogs são abandonados, aqueles que ficam se profissionalizam e/ou ao menos vão tentando. Eu sou um blogueiro péssimo, estou mais por fora da blogosfera do que a sunga do Super-Homem.

13. Mesmo com a popularidade dos scans você se considera um leitor da velha guarda, daqueles que se aventuram pelos sebos em busca de gibis antigos?

Eudes: Não, não sou muito nostálgico com gibis, não o suficiente pra ser considerado “leitor da velha guarda”. Só procurava gibis antigos nos últimos tempos, com intenção de escanear e compartilhar, não exatamente de reler. Pra isso eu espero as edições encadernadas da Panini, ou reedições de qualquer outra editora, como por exemplo a do Tarzan, pela Devir. Não sou muito chegado a gibi com cheiro de mofo. Tenho uns poucos, mas só esperando pelo dia que serão escaneados.

14. Além de blogueiro, disseminador dos Scans no Brasil, ex-líder do FARRA, você também é autor de contos, em especial do personagem do Jerusalem Jones, como foi o processo de criação do personagem e se pretende lançar por alguma editora?

Eudes: Eu escrevia contos variados, sem um tema específico, como ainda escrevo até hoje. Então resolvi que tinha que escrever um texto de faroeste, e que precisava de um personagem para isso. Fui pensando em alguns nomes e o batizei de Jericho Jones, mas em uma busca no Google revelou que havia uma banda com esse nome, e eu desisti. Mas, resolvi manter a coisa  pros lados de Israel e coloquei Jerusalem Jones, que acabou sendo melhor. Era pra ser apenas um conto entre tantos e não teria seqüência, mas eu comecei a gostar do personagem talvez do nome e da personalidade, e resolvi escrever mais contos com ele, e acabou se tornando fixo. Não tenho nenhum plano de lançar por nenhuma editora.

15. Se você fosse para uma ilha deserta e pudesse levar simplesmente uma história em quadrinho, qual levaria?

Eudes: Difícil essa pergunta… O que pode servir pra um pode não servir pra outro.

Mas se é pra escolher uma que seja Batman Ano Um.

16. Com o surgimento dos tablets e a popularização do Ipad, o futuro dos quadrinhos será para um suporte virtual?

Eudes: É uma opinião pessoal, mas acho que não. Pode até ser que quando os atuais leitores sumirem, os colecionadores forem escassos, que isso pode acontecer, mas apenas quando uma nova geração de leitores substituir a atual.

Notas:

  1. Vertigem HQ: Blog que desde de 2006 compartilha scans de HQs voltados para o público adulto, edições traduzidas que não possuem versão nacional e principalmente da editora Vertigo (DC).
  1. Camelot 3000: história em quadrinhos escrita por Mike W. Barr e Brian Bolland responsável pela arte gráfica, publicada pela editora DC de 1982 e1985. Ahistória gira em torno do Rei Artur e os cavaleiros da Távola Redonda em um mundo futurista no 3000 para defender a Terra de uma invasão alienígena.
  1. Planetary: série publicada pelo selo Wildstorm da editora DC, escrita por Warren Ellis com arte de Jonh Cassaday de 27 edições, iniciada em 1999 e finalizada em 2009. No Brasil parte da série foi publicada pela extinta editora Pandora Books, depois os números 1 ao 12 foram re-publicados pela editora Devir e em 2007 a editora Pixel re-iniciou a publicação da série, entretando, a editoria foi a falência.
  1. Preacher: A série inicialmente teve sua publicação nos Estados Unidos no ano de 1995-2000 com 66 edições regulares, quatro miniséries e cinco edições especiais, escrita por Garth Ennis e com arte de Steve Dillon. No Brasil a história em quadrinho sofre da maldição de Preacher, a série passou por oito editoras e nenhuma finalizou a publicação. Entretanto, graças a pirataria com os scans as revistas da série pode ser encontrada com todas as edições traduzidas compartilhadas para os leitores.
  1. Carcaju: Mamífero pequeno, agressivo com outros animais que vive nas zonas frias do hemisfério norte, encontrado na sibéria, alasca e canadá. Nas histórias em quadrinho é o codinome em inglês para o personagem Wolverine editora da Marvel.
  1. Editora Abril: Editora que publicou edições das revistas da Marvel e Dc de 1979 até 2002.
  1. The Authority: História em quadrinho do gênero de super-heróis, do selo Wildstorm da DC Comics, criado por Warren Ellis e Bryan Hitch, primeira publicação em maio de 1999.
  1. Deadpool: Personagem da Marvel, autoria de Fabian Nicieza e Rob Liefeld originalmente criado para parodiar outro personagem da editora DC denominado Slade, primeira aparição na HQ The New Mutats nº 98.
  1. Fonte: Trendcounter (Julho/2010).

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10 COMENTÁRIOS

  1. Euq queria mandar um beijo pro meu pai, pra minha mãe e pra Xuxa!!! rsrsrsrs. Bom, é uma coisa lisonjeira estar por aqui e agradeço a todos… ok, tá acabando o tempo, né? Já vou

  2. Grande entrevista com essa celebridade, Eudes, que foi um dos que tiveram iniciativa para possibilitar a leitura de grandes quadrinhos que não estavam acessíveis a nós, pobres internautas oprimidos pelos especuladores do Mercado Livre e pelas editoras que não relançam com frequência obras obrigatórias para todas as estantes e outras com uns atrasos absurdos…

    Ainda acesso o site RA e acessava também o Supersônico a Carvão (sacanagem o que fizeram tirando ele do ar).

    Antes que o troll apareça, quero expressar aqui que foram os scans que me levaram a ser ávido consumidor
    de quadrinhos (pelo menos para o meu orçamento), e não tenho duvidas que foram eles que levaram muitos outros leitores para as bancas e livrarias também, alem de ter resolvido o problema das obras que por puro descaso das editoras foram publicadas pela metade por aqui…

  3. Excelente entrevista! Sempre acompanhei o trabalho do Eudes, graças a ele pude ler muitos quadrinhos excelentes, por causa disso sabia que era uma boa comprá-los quando foram relançados.

  4. Posso dizer que voltei a ler gibis por causa do Eudes (e nesse caso, as editoras tem que agradecer a ele! hauhauhua). E também andei vendo muitos filmes difíceis de encontrar, por indicação dele.

    Sou muito grato por todo o trabalho que o Eudes (e tantos outros pela web) nos prestam sem ganhar nada com isso. São verdadeiros heróis.

    Muito boa a entrevista.

    Valeu!
    Té.

  5. Caralhoo!! O Eudes é o OutsiderZ das salas da UOL???
    Eu era frequentador da salas dos “Entediados no trabalho” mas sempre dava meus rolés pelo cinema.

    Bom demais encontrar um sobrevivente daquelas salas verde calcinha!

  6. Porra, sou fã do Eudes!
    Já disse isso a ele, mas reforço aqui: Ele é o cara dos scans!
    Meu humilde blog mesmo, só começou depois que tive contato com o Rapadura Açucarada e o F.A.R.R.A, onde me iniciei no mundo dos scans, pra nunca mais sair (e pra nunca mais parar de comprar hqs também, viu editoras!)
    Excelente entrevista feita pelo amigo Zippo, estreando com o pé direito aqui na mobground!

  7. Eu também fui impulsionado nas HQs pelo blog do Eudes e suas histórias e cara o F.A.R.R.A. era o melhor fórum que eu já vi, saudades eternas.

  8. Olá,

    Um amigo meu me passou essa entrevista e me disse “Ih, William, falaram do seu site… Olha o Will fazendo história na internet brasileira”… e vim ler essa entrevista. Fiquei muito alegre em saber que ainda tem gente que lembra da finada Toca do Carcaju. Apesar de o domínio ainda existir e de ainda ter uma cacetada de quadrinhos guardados esperando o scan, não publico mais na web. Mas com essa entrevista, o dedo coçou para voltar a scanner as revistas que estão lá.
    Abraço a todos,

    William Neves

  9. Hitler fez maravilhas na economia alemã, mas ainda assim ele era o Hitler, todo recalcado e de cabecinha fechada.

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