[ARTE DA VITRINE]: Thiago Chaves (@chavespapel)
Texto publicado originalmente em: 29/10/2011

Time Is A Four Lettered Word” publicado em outubro de 1978 na edição nª. 2 da Near Myths foi a primeira obra pela qual Grant Morrison recebeu alguma grana pra fazer. Este seu primeiro trabalho “profissional” contou com apenas cinco páginas e ainda eram no final da revista, o que deixa claro que entre todos os outros autores ele era o menos prestigiado. Até porque era novo na equipe. Na edição nª. 5, o último suspiro da Near Myths no mercado de quadrinhos britânico antes de morrer asfixiada, a magistral história “The Checkmate Man” de Morrison seria a primeira da revista, deixando registrado o quanto ele convenceu o público e os editores quanto a qualidade de se não seus desenhos, pelo menos seus roteiros.

A Near Myths era uma revista pequena e seu caráter inovador na questão da mudança de foco dos super-heróis para público infantil, agora redirecionado para ficção científica para adultos, não era muito promissora nas perspectivas de vendas, então era normal que o editor só pegasse trabalhos completos de um artista ou outro e publicasse. Se houvesse divisão do trabalho entre roteirista e desenhista, isso iria significar mais grana a se pagar; ou pro artista, menos a se receber porque teriam que dividir. Então enquanto publicava na Near Myths, Morrison tanto desenhava quanto criava os roteiros. Ele queria trabalhar com quadrinhos, mas exatamente em qual das duas áreas ele ainda não tinha se decidido.

Grant Morrison era o “cara de Glasgow”, como Rob King diz no editorial da ed. nª. 2. Ele ainda aponta que no próximo número, Grant iria começar uma série de histórias chamada “Gideon Stargrave”, que era seu trabalho principal. “Gideon Stargrave” era aquele trabalho apresentado por Morrison a Rob King na Primeira Convenção de Quadrinhos de Glasgow, quando ele procurava desesperado por uma oportunidade.

Mas afinal de contas, do que se trata “Time Is A Four Lettered Word”?

Do fim do mundo através paradoxos temporais/dimensionais, como quase tudo que Morrison trabalhará depois. Desde o princípio, como nessa obra, ele estava envolvido com noções como “saturação do tempo”, no entanto nessa história, esse plot é enfeitado com toques da mitologia celta.

A narrativa é dividida em três histórias localizadas em tempos e situações diferentes que se passam confusamente misturadas nas mesmas páginas. A arte é horrível e confusa demais até pra coisas complicadas como paradoxos temporais… Morrison pode ser um bom desenhista de esboço, mas não de obra final. Dizem que ele tem vergonha desses trabalhos iniciais, porque ele não costuma mencionar, diz apenas que trabalhou pra Near Myths, no máximo comenta sobre Gideon Stargrave, porque o personagem se tornaria importante na trama de Invisíveis.

Em “Time Is A Four Lettered Word” a primeira narrativa é sobre Beachdair, um guerreiro que vai até a Stonehenge atrás do Deus Chifrudo e encontra uma mulher estranha por lá. Ele não aceita a presença da mulher naquele local sagrado dos druídas e quer retirá-la, através de ameaças, a mandando de volta aos campos da “deusa mãe”. A mulher o chama de tolo e diz que a “deusa mãe” está presente ali e que “o ciclo agora está terminando”.

O segundo plot é o principal, se passa em 1982, nele tem um cara chamado Quentin e uma bruxa nomeada de Dana, que analisam pontos de saturação no tempo. Quentin descobre que todo o mundo está prestes a entrar numa transbordação temporal generalizada.

A terceira narrativa é sobre, (aparentemente) um druida (“heathen slut” pra sacerdotisa) que vê uma sacerdotisa da deusa da colheita (Corn Maiden) tomando banho num rio em um período sagrado no qual ela não pode ser tocada (May Day) e a estupra.

Quentin e Dana acabam parando na Stonehenge. Eles encontram lá uma força guardada por milhares de anos, uma força mágica contida que parece estar esperando por algo, que eles não sabem o quê, para ser liberta. E descobrem tardiamente que são eles mesmos os últimos elementos do quebra-cabeça que desencadeia o poder da Stonehenge. Juntamente com eles a combinação é completa pela presença de Beachdair no local e o sangue do druida que violentou a sacerdotisa, ambos em outras temporalidades. No penúltimo quadro da HQ vemos as três mulheres juntas, talvez sejam a mesma pessoa… talvez sejam justamente a “deusa mãe” pela qual Beachdair tanto pedia para encontrar. E no último quadro, uma visão em perspectiva do universo, talvez para dizer que o tempo havia se extinguido, ou reiniciado, naquele instante.

Em geral “Time Is A Four Lettered Word” é muito confusa. Há uma deficiência de Morrison em tentar contar três histórias de uma vez. O roteiro é mais ou menos bem interligado, apesar de cortes bruscos e pouquíssima explicação de qualquer coisa, mas o que atrapalha mesmo é a incapacidade do desenho transparecer sequer a diferença anatômica entre os personagens… talvez por isso em geral, esse seja um trabalho que ele realmente não queira lembrar muito. De qualquer forma, é importante pra trajetória de Morrison porque já estão dispostos nesse primeiro trabalho temas que serão bem abordados em seus trabalhos futuros, tanto na Near Myths como em outras editoras maiores, que nesse momento ele nem sonhava que poderia um dia fazer parte.

(A próxima análise será de Gideon Stargrave no nª. #3 e /#4 da Near Myths)

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Anarco-parasita; místico urbano; aprendiz na arte-sabotagem; divulgador dos beneficios do DOUBLE VEGETTA; historiador perdido na cozinha do caminho entre a antiguidade e a contracultura; outsider caçado pelo Diretório da interzone; sempre de olho nos arcontes do cosmos e nos UFOs que eventualmente aparecem, além de muitas outras coisas sem sentido que se tem por aí. @Agrt

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