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Todos foram alertados de que um dia poderíamos sofrer com a degradação de nosso meio ambiente. Sendo assim, irremediavelmente, a mãe natureza se tornou impiedosa, e o resultado desta fúria – combinada com estratégias científicas completamente equivocadas – foi o congelamento total do planeta Terra e a quase extinção da raça humana. Quase. Os poucos sobreviventes não tiveram outra escolha senão embarcar como tripulantes definitivos do gigante trem batizado como Snowpiercer, uma verdadeira maravilha da engenharia moderna.

Estamos falando de uma locomotiva auto-suficiente, forte o bastante para furar seu caminho por entre o gelo que domina tudo. Não existem estações para o Snowpiercer, ele se move sem parar, eternamente alguns diriam. Quando completa seu trajeto (um círculo disforme ao redor do globo), todos a bordo celebram com palmas mais um aniversário, 365 dias. E é mais ou menos dezoito voltas depois de sua derradeira partida que a história do Expresso do Amanhã se inicia.

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Este trem representa a humanidade, uma nova humanidade, e também a única que resta. E como é de costume dos homens, separações de classe devem existir – nada mais apropriado para o meio de transporte em questão. Sendo assim, o Snowpiercer se transmuta em uma espécie de gráfico horizontal, que resume perfeitamente nossa raça humana: na frente vai a primeira classe, formada por centenas de pessoas que não se importam com as milhares de pessoas da segunda classe, estas localizadas na cauda do trem. Classes nunca se misturam. Ninguém de trás sabe como é a frente e vice-versa.

Neste confinamento existencial, o famoso engenheiro Wilford – criador da milagrosa locomotiva auto-suficiente, mestre recluso e mítico – se tornou um novo papa a ser adorado, o pai fecundador do motor eterno. Seu trabalho é preservar e resguardar a santa peça de metal. Ele foi um dos principais idealizadores desta racional ideia: dar esperanças a raça humana.

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Nossa primeiro contato, como audiência, é com a segunda classe, cuja simples concepção de vida provoca calafrios. Todos os dias os tripulantes desafortunados são contados e doutrinados pelos lacaios da primeira classe. Eles recebem sua alimentação de forma controlada, uma barra gelatinosa de cor preta e de aspecto asqueroso. Uma deliciosa iguaria proteica feita de… bem, nem queira saber do que ela é feita.

Submissão é palavra de ordem para a segunda classe. Punições severas desmembram de forma simbólica aqueles que se opõem. Houve revoluções anteriormente, e muitos perderam a vida para que o controle deste status quo se mantivesse. Mas para o passageiro Curtis, um novo levante é mais do que necessário.

Sendo assim, a desafiadora progressão dos sobreviventes da cauda até o santo motor, e a problemática transformação de Curtis em um novo líder, se revelam as bases fundamentais do eficiente roteiro do longa, talhado de maneira inspirada por Kelly Materson e o diretor sul-coreano Bong Joon-Ho. A obra é uma adaptação da HQ O Perfuraneve (Le Transperceneige), de Jacques Lob, Benjamin Legrand e o ilustrador Jean-Marc Rochette – tendo este último colaborado com o filme, provendo os retratos que servem como importantes arquivos históricos do Snowpiercer.

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Expresso do Amanhã é um Sci-Fi genial. A direção arrojada de Joon-Ho faz da experiência algo memorável. A mistura multicontinental dos envolvidos na produção, oferta uma personalidade distinta, com os exageros romantizados do cinema oriental se misturando ao realismo asséptico do cinema europeu. E de quebra, o protagonista é o Capitão América, conhecido também como Chris Evans. O ator entrega sua melhor interpretação até então, o que não deixa de ser uma surpresa.

Na verdade, todo o elenco é uma grata surpresa. Temos grandes participações de atores como Jamie Bell, John Hurt, Octavia Spencer, Alison Pill, Ed Harris e Tilda Swinton, sendo esta última destaque absoluto dentro do eficiente grupo.

Enfim, o resultado alcançado foi sensacional. Expresso do Amanhã é um passeio sangrento por vagões que escondem segredos revoltantes e mortais. A cenografia consegue reproduzir com perfeição a claustrofobia suja do fundo do trem, sempre abarrotado de pessoas. As câmeras de Joon-Ho desfilam com precisão por corredores estreitos e cantos apertados, tudo com extrema maestria, desviando de balas e machados, dividindo pouco espaço com dezenas de figurantes. E mesmo diante de tamanha destreza cinematográfica, é o sombrio, violento e criativo cenário apocalíptico o melhor de tudo. Uma imagem desfigurada, mas ainda sim realista, do que é nossa sociedade hoje e sempre. Recomendado.

Expresso do Amanhã – Snowpiercer : (2013/ Coreia do Sul, EUA, França, Repúlica Tcheca)

Duração: 126 min

Direção: Bong Joon-Ho

Elenco: Chris Evans, Jamie Bell, John Hurt, Octavia Spencer, Alison Pill, Ed Harris, Tilda Swinton.

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Jornalista guerrilheiro, entusiasta de games ligeiramente sangrentos. Já teve banda de Heavy Metal, hoje toca Beatles no violão. Ama a sétima arte de forma visceral, prefere dramas reais - pois acha que a vida em certos momentos é incrível demais para ser verdade. Já escreveu sobre cinema, música e jogos em alguns lugares, hoje é editor do site Crítica Daquele Filme... e precisa fazer mais exercícios.

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