Família do BagulhoSim, o título nacional é horrível. E o filme também não é grande coisa.

O principal problema de Família do Bagulho é seu título nacional a péssima história do “Bagulho” por trás da tal “Família”. Tudo começa quando um grupo de perdedores se une para um golpe arriscado: atravessar a fronteira do México com os Estados Unidos trazendo uma quantidade exorbitante de maconha. Guiados pela sabedoria desmedida do pequeno traficante de drogas David, estes indivíduos se disfarçam de uma típica família americana itinerante – daquelas que rodam por todos os lados dos EUA em trailers, os famosos RVs – no intuito de, com sua imbecilidade aparente, despistar os guardas da fronteira. Eles são os Millers.

Bem, sem querer parecer um especialista em tráfico de drogas, a ideia de se buscar toneladas de maconha no México, e atravessar a carga pela fronteira, por si só já é um absurdo tremendo, algo bem difícil de engolir, mesmo para uma comédia – creio que os últimos que tentaram isso (com sucesso) foram os malucos Cheech & Chong em Queimando Tudo, só que ao invés de contrabandearem a droga, eles dirigiam uma van feita inteiramente de marijuana (gênios!).

O argumento dado, de que o produto seria “prime”, se revela irrisório quando todos sabem que a produção e alteração genética da droga, nos dias de hoje, é algo amplamente consolidado, principalmente nos Estados Unidos, que beira a legalização da erva e blá, blá, blá. Ou seja, o enredo é muito fraco. Nos anos oitenta ele até funcionaria, mas hoje? Vemos apenas uma enorme falta de lógica. Outro detalhe… você não vê ninguém fumando um baseado no filme, isso porque moleques de 14 anos precisam pagar pela custo da produção. Ironia ou hipocrisia? Você escolhe.

Tá certo, quem gostou do filme deve estar pensando, no mínimo, que minha análise é exagerada (e você provavelmente está correto!), pois afinal a produção é uma comédia, e todo mundo é muito louco, e por aí vai. Só que não é bem assim. O grande problema deste plote é que ele é uma grandessíssima desculpa esfarrapada, e nem tenta disfarçar isso. O diretor Rawson Marshall Thurber propositalmente engana a todos com este papo furado de tráfico de drogas para reunir a disfuncional família na estrada, onde finalmente alguns pontos positivos surgem, mas que são bem escassos. Não sei você, mas eu não gosto de ser enganado por 110 minutos para dar risada em duas ou três cenas.

Voltando mais uma vez para o início. No intuito de fazer as motivações da viagem algo crível, o roteiro tenta humanizar, ou mesmo desumanizar, a vida de seus protagonistas. Mas tudo é ofertado de maneira medíocre, sem alcançar em momento algum aquela sensação almejada de “vida desintegrada, sem outra opção”. Somos apresentados então a stripper Rose, dona de uma moral invejável, o traficante David, cara boa praça que poderia trabalhar de babá para seus filhos, o garoto virgem e extremamente idiota Kenny, e a adolescente revoltada Casey. Toda a construção do background do grupo é de uma artificialidade gritante, cheia daquela sujeira falsa, que apenas tenta parecer suja, mas que simplesmente não é. Uma verdadeira bagunça empurrada com a barriga até o momento deles se tornarem, finalmente, os Millers.

Ou seja, o início e o fim do filme são sofríveis, pois eles têm de lidar com o tal transporte da maconha, lideres criminosos patéticos, resoluções morais descartáveis e romances óbvios. Já o segundo ato traz os melhores momentos da fita, quando todas as atenções estão voltadas para o seio falso da família Miller. O elenco finalmente se mostra mais confortável, e algumas boas sequências surgem desta dinâmica.

Were-the-Millers-Red-Band-Trailer

Apesar do comediante Jason Sudeikis (revelado no “Saturday Night Live“) não convencer em momento algum como traficante, o cara sabe ser engraçado, principalmente quando interpreta o típico americano idiota de classe média – o humor dele é basicamente alicerçado neste princípio. Já Jennifer Aniston chama bastante atenção com suas performances como stripper, o que compensa a superficialidade da personagem. Quando a atriz se traja de mãe de família, também consegue arrancar algumas boas risadas do público.

Emma Roberts e Will Poulter, que interpretam os “irmãos” Casey e Kenny, somam um peso positivo na balança, em especial o estranho britânico Poulter (do excelente O Filho de Rambow), com sua cara que parece ter sido inventada por um caricaturista. Os hilários Nick Offerman (de Parks and Recreation) e Kathryn Hahn, que dão vida ao casal viajante Don e Edie, também colaboram para que a experiência não seja totalmente perdida.

Resumindo: apesar de possuir alguns bons momentos, Família do Bagulho fica simplesmente abaixo da média. O trabalho não pode ser considerado uma comédia sobre drogas, nem uma comédia sobre família. Tudo que é oferecido são personagens mentirosos, que hora ou outra são engraçados. Mas um filme é feito de histórias, não personagens, e aqui eles esqueceram completamente disso.

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Família do Bagulho – We’re the Millers (2013/ EUA)

Duração: 110 min

Direção: Rawson Marshall Thurb

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Jornalista guerrilheiro, entusiasta de games ligeiramente sangrentos. Já teve banda de Heavy Metal, hoje toca Beatles no violão. Ama a sétima arte de forma visceral, prefere dramas reais - pois acha que a vida em certos momentos é incrível demais para ser verdade. Já escreveu sobre cinema, música e jogos em alguns lugares, hoje é editor do site Crítica Daquele Filme... e precisa fazer mais exercícios.

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