Novembro de 1937, cinco meses após uma batalha sangrenta entre o despreparado exército chinês e o exército imperial japonês, a cidade de Xangai é conquistada. Batendo em retirada em direção a Nanquim, os militares chineses e os civis destroem em vão todos os recursos e as estruturas da então capital chinesa. Liderados pelo Príncipe Tenente General Asaka Yasuhiko, todas as unidades do exército japonês atacam simultaneamente a cidade de Nanquim em 13 de dezembro de 1937. Matando não só os militares e presos de guerra, mas também os civis que ali se encontravam, incluindo mulheres e crianças. Os militares japoneses deram início a uma das maiores e pouco divulgadas atrocidades da história – O Estupro de Nanquim (Nanjing Datsusha).

O exército japonês agia de forma repugnante e desumana. Em uma espécie de “esporte” grotesco, os militares japoneses disputavam com katanas quem decapitava com mais rapidez os prisioneiros de guerra, bem como os civis, ou ainda usando-os como alvos vivos nos exercícios de assalto com baionetas. Vivissecções eram praticadas constantemente como em animais, crianças eram enterradas vivas. Mulheres e adolescentes eram caçadas nas ruas, templos religiosos e em todos os cantos da capital chinesa, arrastadas pelas ruas a fim de serem estupradas individual e coletivamente pelos soldados japoneses.

O massacre durou até 1938, mas o fim da guerra se deu somente em 1945 com a derrota do Japão na Segunda Guerra Mundial. Não se sabe ao certo o número de mortos (estima-se que seja entre 150 e 300 mil mortos), pois o governo japonês nega inúmeros relatos e fatos descritos por oficiais chineses e as ONG’s que tratam do assunto. A lembrança do confronto foi retirada dos livros de história por determinação do governo japonês, mas não esquecido pelo povo chinês. Hoje, a 16 km de Pequim existe o Museu da Guerra e da Resistência do Povo Chinês Contra os Agressores Japoneses, que mostra os horrores dessa guerra escabrosa que ainda traz tamanho rancor entre japoneses e chineses nos dias de hoje. É com esse pano de fundo que Flores do Oriente, dirigido por Zhang Yimou (O Clã das Adagas Voadoras), se veste.

Em meio ao caos instaurado pela invasão em Nanquim, um grupo de estudantes católicas não consegue pegar um dos últimos barcos que deixava às pressas aquela cidade. Lideradas apenas por um menino que não passava de um ajudante do falecido padre, elas retornam para a igreja de onde saíram. É nesse momento que surge John Miller (Christian Bale), um agente funerário beberrão, mulherengo e que só quer fazer o seu trabalho: enterrar o falecido padre, receber o seu dinheiro e voltar para casa. As coisas se complicam ainda mais quando um grupo de prostitutas se refugiam na igreja. Os conflitos, sejam por espaço ou por uma futilidade qualquer, são constantes e em diversos momentos John acaba tendo que intervir.

Yu Mo (Ni Ni), a líder das prostitutas é uma mulher misteriosamente bela e consegue ver em John uma oportunidade de sair daquele conflito com vida. Usando toda a sua sensualidade, ela resolve propor um acordo ao agente funerário, que consistia basicamente em ajudá-las a sair daquele local e a certeza de que ele seria bem recompensado com seus “dotes”. Embora tivessem um acordo, as coisas não saem como o planejado. O exército japonês que não respeita nada e nem ninguém invade a igreja. As prostitutas escondidas no porão ouvem apavoradas a forma covarde e vil como os soldados japoneses caçam e violentam as estudantes, que nada mais eram do que crianças. Vivenciando aquele ato de beligerância, John se vê obrigado a tomar um partido. Assumindo então o papel de padre, o agente funerário se vê obrigado a negociar com os japoneses, e ao mesmo tempo criar um plano para que possa salvar as jovens que ainda restaram, bem como as prostitutas.

Mais uma vez Zhang Yimou abusou da capacidade visual, sua marca registrada. Contudo, ao mesmo tempo em que ele consegue fazer com que o público tenha sensações antagônicas (sejam elas pela dura realidade daquele ambiente hostil, sejam bela beleza com que elas se apresentam), peca em um aspecto de suma importância: os personagens.

O personagem de Bale, apesar de ter sido representado pelo mesmo com maestria, não traz nada novo: o cara que sofreu um trauma em algum determinado momento da vida que se redime, após a ocorrência de um fato posterior que remonte àquele trauma pretérito (diga-se de passagem, foi uma mudança meio sem pé nem cabeça, mas nada que interfira no filme como um todo). Por outro lado temos a prostituta, que apesar de aparentemente gostar do que faz descambou para esse lado por algum infortúnio da vida, esta representada com uma beleza ímpar por Ni.

Apesar da indiferença por parte do diretor com os personagens, Flores do Oriente é um filme que consegue te prender justamente pelas sensações que ele te faz sentir como dito anteriormente. Ao mesmo tempo em que você se encanta com mulheres dançando e cantando de forma poética em meio à guerra, momentos depois você se depara  com uma cena de estupro e assassinato, ao exemplo em que duas das prostitutas retornam ao bordel onde trabalhavam para buscar um par de brincos e uma corda para o seu pipá (uma cena que não recomendo para quem se impressiona facilmente, pois é realmente absurda), que faz nascer um ódio momentâneo só em imaginar que um ser humano poderia chegar a tal ponto.

O filme é recheado de cenas marcantes e igualmente impressionantes. Mesmo não sendo uma obra prima de Yimou seu estilo se apresenta de forma perfeita e fantástica. Flores do Oriente, por seu pano de fundo em si já merece ser visto, seja pelos amantes de história, seja pelos amantes do cinema, e é claro pela denúncia que ele traz desse massacre monstruoso.

Filme: Flores do Oriente (Jin líng shí san chai / Flowers of War)

Diretor: Zhang Yimou

Duração: 146 min

Nota: 7,5

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