Uma nova geração de campeões

Gamers de todo o mundo ficaram mais que surpresos quando foi anunciado (lá em 2011) que o primeiro torneio de “Dota 2” para equipes (batizado como “The International”) premiaria com um milhão de dólares seus vencedores. 

Realizado na feira GamesCom, o evento se tornou o epicentro de uma nova geração de campeões. Nunca uma competição de jogos eletrônicos (ou eSports) havia oferecido tanto dinheiro. 

A brincadeira então se tornou algo muito sério, e por isso a mítica empresa Valve decidiu realizar o documentário “Free to Play”, que descreve detalhadamente todo o efeito transformador desta verdadeira revolução, e que também investiga auspiciosamente o “lado humano” dos jovens por trás das máquinas. Por algum motivo a fita foi liberada só agora.

Para aqueles que não sabem, “Dota 2” é um jogo multiplayer online insanamente consolidado. Seus conceitos são básicos: dois times de cinco jogadores se enfrentam em uma arena, e cada um tem uma base para defender. A equipe que primeiro conseguir quebrar a defesa do time adversário e destruir sua base vence a partida.



Toda a essência técnica de “Dota 2” é muito bem explanada, e a esquemática das partidas se torna compreensível para todos. Algumas animações feitas em computação gráfica, visualmente deslumbrantes, remontam os pontos altos do torneio. Podemos acompanhar de perto, literalmente dentro do campo de batalha, o momento exato em que personagens alcançam a glória ou fatidicamente encontram somente desolação. 

No entanto, a abordagem do tema vai muito além desse aspecto competitivo. “Free to Play” analisa a fundo o perfil dos jogadores de “Dota 2”, e constata que, para alguém se tornar campeão mundial deste eSport, é necessária dedicação descomunal, além de extrema coragem. 

O preconceito enfrentado por aqueles que ganham ou pretendem ganhar a vida jogando vídeo game é sempre constante, e muitas vezes oriunda do próprio núcleo familiar. Para alcançar o entrosamento perfeito, equipes passam centenas de horas na frente do computador, muitas vezes se privando de noites de sono, para assim lapidar estratégias de um time multicontinental, que não divide o mesmo fuso horário, por exemplo. 

O futuro destes caras é totalmente incerto, pois apesar do patrocínio de equipes crescer cada dia mais, muitos deles não recebem salários e não possuem garantias por anos dedicados ao ofício. Eles vivem basicamente de competições, por isso a possibilidade de derrota se torna, acima de tudo, moralmente cruel.



Todos estes jogadores que se entregam totalmente aos eSports são desbravadores e revolucionários, que apostam alto em algo arriscado. Quanto mais tempo eles jogam, menos se dedicam a uma possível carreira que lhes forneça segurança e estabilidade. Porém, a possibilidade de se tornar um grande herói dos games é tentadora, e neste campeonato de “Dota 2” em particular, a chance se fez valiosa

E para exemplificar estas diferentes adversidades e paixões que fazem o universo gamer girar, “Free to Play” acompanhou três profissionais de “Dota 2”. São eles: Danil “Dendi” Ishutin (da Ucrânia, equipe Na`Vi), Clinton “Fear” Loomis (EUA, equipe OK.Nirvana) e Benedict “HyHy” Lim (Sigapura, equipe Scythe). Por entre distintos relatos, somos apresentados ao núcleo familiar de cada um, e podemos conhecer melhor seus medos, tristezas, dilemas, e também suas habilidades acima da média.    

Dandi por exemplo gostava de dançar e tocar piano quando jovem, e hoje é considerado praticamente um jedi do “Dota 2”. Já Fear foi abandonado pelo pai, e mesmo tendo sido expulso de casa, recebe total apoio da mãe para a vocação. HyHy por sua vez, enfrenta a mais genuína pressão negativa por parte da família, e para piorar, sua namorada o abandonou antes do mais importante campeonato de sua vida, só que ele não desiste dela assim tão fácil – até mesmo história de amor o documentário oferece.



“Free to Play” é antes de tudo um filme motivacional, que fala sobre a conquista de sonhos e a superação necessária para isso. O roteiro consegue amarrar muito bem a evolução do torneio com a exploração de seus protagonistas. Toda a parte técnica da produção se mostra eficiente, principalmente trilha sonora e edição, tornando a mensagem cool e atual.

No final, podemos constatar que estes profissionais de “Dota 2” dividem angústias semelhantes a de muitos outros jovens que hoje tentam fazer parte de um massacrante mercado de trabalho. Mas para os gamers existe uma solução simples para a equação: escolher uma carreira e ter todo o resto da vida para trabalhar nela, ou ter a chance de ser um deus dos vídeo games, respeitado e até mesmo idolatrado por milhares de pessoas. Como competir com isso? 

Assista o documentário, com legendas em português, logo abaixo:

Free to Play: 2014/ EUA/ 75 min/ Elenco: Benedict Lim, Danil Ishutin, Clinton Loomis

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Jornalista guerrilheiro, entusiasta de games ligeiramente sangrentos. Já teve banda de Heavy Metal, hoje toca Beatles no violão. Ama a sétima arte de forma visceral, prefere dramas reais - pois acha que a vida em certos momentos é incrível demais para ser verdade. Já escreveu sobre cinema, música e jogos em alguns lugares, hoje é editor do site Crítica Daquele Filme... e precisa fazer mais exercícios.

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