Rachel, interpretada brilhantemente por Emily Blunt, é uma mulher alcoólatra e recém divorciada que está claramente à beira do abismo emocional. Todo dia, ao ir de trem para o trabalho, ela observa um jovem casal que mora em uma casa perto de uma das paradas do trem. De longe o casal parece viver o ápice da felicidade, representando para Rachel a esperança de que ainda possa existir um amor eterno no mundo. A obsessão da personagem com o casal é tanta que ela faz desenhos deles e cria nomes e histórias para eles, sempre com muita felicidade envolvida. Até que, num dia de bebedeira, Rachel observa algo estranho na casa e acaba tomando para si a missão de descobrir o que aconteceu.

A partir daí, A Garota no Trem se torna um suspense contado na forma de um quebra-cabeças, já que Rachel, devido ao problema com o álcool, nunca se lembra completamente das coisas. Cabe ao espectador tentar juntar as peças para resolver o mistério junto com a protagonista. Além dos apagões de Rachel devido à bebedeira, também não podemos confiar completamente na personagem por causa do seu histórico de mentiras e perseguições. Ela é especialista em perseguir o ex-marido, por exemplo, ligando para ele diversas vezes por dia, além de ficar sempre acompanhando sua vida pelo Facebook (quem nunca?). Essas características da personagem deixam tudo mais interessante, pois em certo momento passamos até a acreditar que tudo não passa de invenção da cabeça perturbada dela.

Para reforçar essa confusão mental, sempre que Rachel está contando algo para uma pessoa, o diretor Tate Taylor mostra as imagens meio tremidas, borradas e com cortes rápidos. Isso reforça o fato de que nem a própria personagem confia de verdade no que está contando, já que ela admite que tem problemas sérios com a bebida. Também é interessante notar que quando Rachel está sozinha com seus pensamentos e lembranças, a imagem está sempre fechada em seu rosto, ressaltando como a personagem se sente sufocada o tempo todo pelos seus próprios demônios. Além disso, no começo do filme ela é sempre mostrada do lado esquerdo da tela e, conforme o tempo passa, ela começa a aparecer do lado direito, que é o lado mais forte da imagem, mostrando que ela está finalmente se encontrando.

Além de Rachel, o filme possui outras duas personagens femininas importantes para a trama: Megan e Anna. Com isso, além dos problemas psicológicos da protagonista, o filme ainda encontra espaço para abordar o tema dos relacionamentos abusivos. E aqui vale ressaltar o grande trabalho das atrizes Haley Bennett (Megan) e Rebecca Ferguson (Anna), que conseguem transmitir a todo momento um sentimento de insegurança, mesmo quando o roteiro não deixa isso explícito. Reparem como Megan, que possui um casamento aparentemente bem sucedido, está sempre com uma expressão triste e demonstra até uma certa apreensão quando o marido chega perto dela. Já Anna parece estar sempre insegura e com medo de que o marido vá abandoná-la a qualquer momento, já que antes de serem casados ela era amante dele. Não é à toa que ela vive de sorrisos forçados para o marido, numa tentativa de nunca desagradá-lo.

A Garota no Trem nos reserva ainda alguns momentos bem tensos, daqueles que nos fazem sentar na beirada da poltrona para acompanhar o que vem a seguir. Com uma montagem que alterna entre o presente e o passado das personagens, é o tipo de filme que consegue prender o espectador não só pela sua história intrigante, mas também pela maneira como essa história é apresentada.

The Girl on the Train (2016)

Direção: Tate Taylor

Duração: 1h 52min

Elenco: Emily Blunt, Haley Bennett, Rebecca Ferguson, Justin Theroux, Luke Evans.


RELACIONADO:

Livro: A Garota no Trem

Autora: Paula Hawkins

Páginas: 378

Editora: Record

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Felipe Storino é carioca, criado na Zona Norte do Rio de Janeiro e radicado no Espírito Santo. Possui três grandes paixões: o Flamengo, cinema e games. Sobre os games, começou nessa vida ainda na época do Atari e do Odyssey e nunca mais largou os joguinhos. Quando não está jogando, está assistindo filmes, séries ou lendo gibizinhos. Recentemente virou grande entusiasta dos jogos de tabuleiro, comprando mesmo quando não tem com quem jogar. É orgulhoso possuidor de um Super Nintendo e um Master System 3 originais.

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