Falar de Glee quando a série inicia sua quarta temporada parece meio nada a ver. A questão é que devido à minha vida corrida fiquei sem assistir do meio da segunda temporada para cá. Eis que de repente surgiu uma oportunidade de ouro de fazer uma maratona e por tudo em dia. Sorte minha, pois se antes já gostava da série, passei a gostar muito mais.

Eu sei que muita gente tem críticas, em geral as reclamações são por causa dos números musicais. Talvez minha maior sorte esteja ai, como não sou muito ligada em música, não me interesso tanto pelas cenas cantadas. Para mim tanto faz se tal versão foi profanada ou qualquer coisa semelhante, como meu parâmetro de comparação é zero, para mim está de bom tamanho a forma como são apresentadas na série.

Portanto, não são os musicais que me fazem gostar tanto de Glee e sim as histórias que são desenvolvidas. Também não estou me referindo ao velho clichê “grupo de looser que supera todas as dificuldades e blablabla”. Falo daquelas histórias que contam os problemas da vida real e que, em geral, só aparecem em seriados de cunho dramático. Que eu me lembre, me corrijam se estiver errada, até então esse lado mais humanizado não figurava em séries de comédia, ainda mais uma que foi pensada para o público jovem.

Em Glee, temas como deficiência física e mental, acessibilidade, homossexualidade, homofobia, violência doméstica, gravidez na adolescência e na quase menopausa, e tantos outros temas forte, são explorados de uma forma tão bem colocada que dá para entender o sucesso da série. Gostaria de destacar alguns deles que realmente me surpreenderam ao serem incluídos na história.

Para mim o que mais se destaca é o caso de violência doméstica que ocorre na terceira temporada. E justamente com uma personagem que creio, a maioria diria que jamais sofreria um abuso deste tipo. E é ai que Glee acerta. Ao colocar a personagem da treinadora de futebol americano, Shannon Beiste, uma mulher que para muitos é a personificação da antítese do conceito de feminilidade, o roteiro mostra que não existe um estereótipo para a violência doméstica, que qualquer mulher pode ser vítima.

Sem perder o humor que lhe é característico, a série aborda com genialidade a questão. Entre as tiradas impagáveis de Sue Sylvester, a treinadora das cheerios (“Shannon, preste atenção. Vai ficar comigo esta noite, certo? Se não tiver uma muda de roupa, tenho uma barraca que pode usar”) e a apresentação praticamente misândrica de ‘Cell Block Tango’, executada pelas meninas que zoaram com Beiste pelo olho roxo, o tema indigesto é apresentado com leveza sem deixar a seriedade de lado.

Outro momento que considero marcante é a questão da primeira relação sexual na adolescência. Glee se supera ao fugir do clichê “a primeira vez do casal de protagonista” e acrescenta à receita do bolo, a primeira vez de um casal homossexual.

O episódio é bem interessante com Artie, o rapaz cadeirante, ao dirigir Rachel e Blaine no musical ‘Amor, Sublime Amor’, questionar a intensidade da interpretação dos dois e sugerir que o que falta é perderem a virgindade para dar mais veracidade aos personagens.

 

A forma como o roteiro vai conduzindo o carrossel de emoções que Rachel, Finn, Blaine e Kurt vivenciam, é perfeito. No final, cientes que não precisam apressar as coisas somente para dar mais credibilidade aos personagens, Rachel e Blaine acabam naturalmente tendo a primeira vez e com muita maturidade. As cenas em que são mostrados os dois casais se iniciando sexualmente é de uma delicadeza sem fim. O destaque vai para o casal Kurt e Blaine que derrubam com marreta a muralha do preconceito e mostram que uma relação homossexual não tem nada de grotesco ou pecaminoso.

Ainda no tema homossexualidade, o episódio final da terceira temporada, em que Burt, pai de Kurt, presenteia o filho com a performance de ‘Single Ladies’, é divertido e emocionante. Ao longo da série é mostrado como esse pai de aparência tão rude, se despe de todos os preconceitos e por amor ao filho aceita incondicionalmente a sua orientação sexual. Burt se revela um personagem fascinante que ao se dar conta da crueldade do mundo em relação ao filho, assume de vez a condição de pai-mãe. Na ausência da esposa falecida, ele vai adquirindo as características que são rotuladas como essencialmente feminina e materna.

Por fim, na segunda temporada um tema bem interessante foi explorado. Sam e sua família perdem tudo com a crise econômica e são obrigados a morar em um quarto de um motel de quinta. A forma crua como é mostrada a realidade de milhões de estadunidenses que, de uma hora para a outra se veem na condição de miséria, é impactante, principalmente por ser retratada na figura de um dos personagens mais carismático da série.

Eu poderia citar muitos outros momentos incríveis, mas o post ficaria grande demais. Talvez Glee não seja a melhor série da atualidade, mas seguramente seu sucesso, amplamente reconhecido, não se dá, como eu disse antes, apenas pelos covers de músicas famosas. Definitivamente ao tocar em assuntos com o qual o público se identifica, Glee sai do lugar comum e oferece entretenimento com reflexão.

Abaixo deixo o vídeo da apresentação – divertidísima – da personagem Burt Hummel, ao som de Single Ladies.

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