Se você nunca assistiu Into The Wild (Na Natureza Selvagem, em português) você perdeu duas coisas : primeiramente, uma trilha sonora fantástica. As músicas ficaram por conta de Eddie Vedder (vocalista do Pearl Jam), que assumiu voz e violão desse filme incrível.

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Em segundo plano, mas não menos importante, a narrativa contada por Sean Penn no longa. É a história real (portanto, não me acusem de spoiler) escrita pelo jornalista Jon Krakauer e publicada em 1996, sobre Christopher McCandless.

Chris era um jovem formando de vinte e poucos anos que resolveu largar tudo (e quando eu digo tudo, é tudo mesmo : dinheiro, família, amigos, documentos, tudo) pra ir pro Alasca. Ele havia se cansado da sociedade e queria viver « na natureza selvagem ». Aí, ele muda seu nome para Alexander Supertramp (em português, Super-andarilho). Ele consegue viver isolado por dois anos, em um ônibus abandonado no meio da floresta, até se consumar o seu destino inevitável.

Tenho que admitir que mesmo sabendo o final do filme antes de ver, ele me emocionou muito, muito mesmo. Precisei de um tempo pra pensar. Poxa, quem nunca quis chutar o balde, tocar o foda-se e se isolar da vida? Pra agravar tudo, temos nossos autores, cantores, pintores, compositores favoritos nos incentivando a fazer isso mesmo, como foi o caso de Chris, já que a única coisa que ele não abandonou foi a sua amada literatura. E foi aí que eu descobri a semelhança sutil entre o personagem retratado e uma personalidade muito importante para o cenário musical brasileiro : Raul Seixas.

Seu pai ouvia muito. Sua mãe ouvia muito. O Brasil ouvia muito. O cara era um mito, um gênio, um profeta. Até hoje, 24 anos depois de sua morte, ele ainda é considerado um dos maiores compositores brasileiros. Falando a língua do povo, sem delongas, criticando grandes nomes da bossa nova, colocando o dedo na ferida da nação ditatorial e passando a mensagem de paz e amor do seu jeito, Raul também se isolou do câncer coletivo, e chegou até a fundar sua própria sociedade, a Alternativa, que tinha até lei [http://letras.mus.br/raul-seixas/90574/]. Mas o refrão mais famoso é o tatuável « Faz o que tu queres, há de ser tudo da lei »

E foi assim, notando essa semelhança, que eu me dei o direito de brincar de refazer a trilha sonora do filme, com as músicas do Raul (que até tinham um quê de Eddie Vedder) :

1. Sapato 36 
Essa é bem óbvia. Mostra a falha na relação de um filho com o pai. « eu calço é 37, meu pai me dá 36. Dói mas no dia seguinte eu aperto meu pé outra vez ». Christopher McCandless tinha uma relação conturbada com sua família, já que eles valorizavam muito o material e o financeiro, a moral e os bons costumes. Logo no início do filme há um conflito familiar, quando Chris não aceita o presente que seus pais querem lhe dar : um carro novo.

Destaque para o trecho : « pai, já tô indo-me embora. Quero partir sem brigar. Já escolhi meu sapato, que não vai mais me apertar »

2. Loterias da Babilônia
Essa canção é o grito de liberdade. De quando Christopher finalmente se forma na Universidade, queima seus pertences, picota os cartões de banco e doa todas as suas economias (24 mil dólares, aproximadamente) para instituições de caridade. Se eu pudesse, colaria a letra inteira aqui, mas o post ficaria muito extenso.

Então, destaque para o trecho : «tudo que tinha que ser chorado já foi chorado, você já cumpriu os Doze Trabalhos […] sabe trechos da Bíblia de cor, sabe receitas mágicas de amor […] mas o que você não sabe por inteiro é como ganhar dinheiro. Mas isso é fácil e você não vai parar… »

3. Novo Aeon 
‘’O sol da noite agora está nascendo, alguma coisa está acontecendo. Não dá no rádio, nem está nas bancas de jornais. Em cada dia ou em qualquer lugar, um larga a fábrica, o outro sai do lar…’’ É a música de cair na estrada. Quando Chris pega o carro e sai rumo a norte. Essa canção é como um hino da nova vida e para mim, mereceria até o título do álbum.

Destaque para o trecho : « Querer o meu não é roubar o seu pois, o que eu quero é só função de ‘’eu’’. Já que é assim, baseado em que você pune quem não é você ? »

4. Rockixe
Christopher mostra doses de arrogância misturadas com egocentrismo ao tomar essa decisão de deixar tudo pra trás. Na real, todo mundo tem um pouco disso, e é preciso um certo sangue frio pra sair da zona de conforto e adentrar no mundo cão. Essa coragem é o que Raul celebrou numa das músicas mais bem conceituadas de sua carreira.

Destaque para o trecho : «eu tinha medo de ter que dormir mais cedo numa cama que eu não gosto só porque você mandou […] O que eu quero eu vou conseguir. Pois quando eu quero, todos querem, quando eu quero, todo mundo pede mais »

5. Eu Sou Egoísta
Seguindo a mesma linha da música anterior, Raul e Christopher estão contentes com o sucesso de seus planos, e como as coisas estão dando certo e indo bem. E como estão sozinhos na estrada com o leme da vida nas mãos, se exaltam sem culpa. Nesse momento, Chris muda seu nome para Alexander Supertramp.

Destaque para o trecho : « eu sou estrela no abismo do espaço, o que eu quero é o que eu penso e o que eu faço, onde eu tô não há bicho papão […] eu provo sempre o vinagre e o vinho, eu quero é ter tentação no caminho, pois o homem é o exercício que faz. O que eu como a prato pleno, bem pode ser o seu veneno, mas como vai você saber sem tentar ? »

6. Metamorfose Ambulante
Nesse momento, Alexander conhece um casal de hippies que dá carona para ele. O casal indaga sua decisão de fugir das coisas, mas Supertramp se mantém firme na escolha, e desenvolve um afeto pelo casal mais velho, como se eles fossem os seus novos pais. O casal parece compreender sua decisão, e o apoia. Alex também defende que o dinheiro é desnecessário e faz as pessoas terem cautela demais.

Destaque para o trecho (clássico): «é chato chegar a um objetivo num instante, eu quero viver essa metamorfose ambulante […] do que ter aquela velha opinião formada sobre tudo »

7. Sociedade Alternativa
Essa música serve de ilustração para todos os que cruzaram o caminho de Alexander Supertramp. Todos eles tiveram uma curva em suas vidas e continuaram seguindo do jeito que deveria. Nenhum deles fugiu para as montanhas quando a dificuldade apertou, mas todos arrumaram um jeito de fazer a sua própria Sociedade Alternativa, ou seja, sua própria filosofia de vida. O curioso é que Alex teve o apoio de todos, já que ele estava realizando um sonho coletivo.

Destaque para o trecho (clássico também) : « Se eu quero e você quer tomar banho de chapéu, ou esperar papai noel, ou discutir Carlos Gardel, então vá. Faz o que tu queres pois é tudo da lei. »

8. Paranoia
Depois de um tempo na vida pé-na-estrada, alguma coisa começava a mudar na cabeça de Tramp. Viver na selva não é pra qualquer um, e é preciso, talvez, mais sangue frio para matar pra comer do que simplesmente sair pela porta da rua, sem destino. O medo estava começando a chegar.

Destaque para o trecho: « Quando esqueço a hora de dormir e de repente chega o amanhecer, sinto uma culpa que eu não sei de que. Pergunto o que é que eu fiz, meu coração não diz, mas eu sinto medo! »

9. A Hora do Trem Passar
Uma curiosidade : logo no começo do filme, aparecem cenas de um trem seguindo viagem com um nome rabiscado : Alexander Supertramp, 1990. Ele seguiu viagem clandestinamente em um trem, mas foi descoberto e expulso violentamente do vagão. Alex também conheceu uma garota durante a viagem, mas também a abandonou para ir ao Alasca. Esta música ilustra uma ligeira frustração surgindo em nosso herói, depois do medo de ficar sozinho.

Destaque para o trecho : « Tudo já passou, o trem passou, o barco vai. Isso é tão estranho que eu nem sei como explicar […] Vou aproveitar a solidão do amanhecer pra ver tudo aquilo que eu tenho que saber »

10. How Could I Know
Uma das poucas músicas em inglês do Raul, talvez seja a que mais represente a surpresa de Alex ao sentimentos ruins que vieram junto com seu isolamento. Alex rejeitou todos os que tentaram um contato afetivo com ele, e permaneceu imutável em sua decisão. Porém, os reveses do destino o fizeram ter apenas uma dúvida : como ele poderia saber ?

Destaque para o trecho : « Reformulation, rearrange the game you’re in. Let it start from the begin, with confidence you’ll win, That’s the reason you’re born. »

11. Ouro de Tolo
A frustração total acontece quando Alex caça um alce, mas não consegue armazenar sua carne. A ideia revolucionária de ir morar na selva do Alasca não era mais tão revolucionária. Pra piorar, o inverno havia chegado, e a comida havia acabado. De que adiantou tanto esforço para acabar daquele jeito : com fome, com frio e solitário ?

Destaque para o trecho : « eu devia estar contente por ter conseguido tudo que eu quis, mas confesso, abestalhado, que estou decepcionado. Porque foi tão fácil conseguir e agora eu me pergunto ‘e daí ?’. Eu tenho uma opção de coisas grandes pra conquistar e eu não posso ficar aí parado »

12. Por Quem os Sinos Dobram
E Alex não queria ficar parado mesmo. Depois dessa forte reflexão, resolveu juntar suas coisas e sua força restante e voltar pra casa. Ele sabia que cedo ou tarde teria que partir. Há, inclusive, um relato em seu diário : ‘’Felicidade só é real quando compartilhada’’

Destaque para o trecho : « Nunca se vence uma guerra lutando sozinho […] É sempre mais fácil achar que a culpa é do outro. Evita um aperto de mão de um possível aliado. Convence as paredes do quarto e dorme tranquilo, sabendo no fundo do peito que não era nada daquilo. Coragem, coragem, se o que você quer é aquilo que pensa e faz. Coragem, coragem, eu sei que você pode mais »

13. Cachorro Urubu 
Mas Alex se complicou ao tentar retornar. Com o inverno, o rio subiu e ele não conseguiu atravessar. Mais um fracasso. Teve que ficar no ônibus e se virar novamente, por mais algum tempo. Sem comida e sem caça, teve que apelar para os livros sobre plantas silvestres da região, e tentar diferenciar as comestíveis das venenosas.

Destaque para o trecho : « Baby, essa estrada é comprida, ela não tem saída, é hora de acordar pra ver o galo cantar pro mundo inteiro escutar […] Sempre a mesma batalha por um cigarro de palha, navio de cruzar deserto. […] Todo jornal que eu leio me diz que a gente já era, que já não é mais primavera, oh baby, a gente ainda nem começou… »

14. Canto para Minha Morte
Alex sabia o que lhe esperava. Se confundiu com as plantas e acabou comendo a venenosa. A planta causava inanição e, se não fosse tratada corretamente, poderia levar á morte. Sem força e sem ajuda, Alex preferiu passar seus últimos dias dentro do ônibus.

Detalhe para o trecho : « Eu sei que determinada rua que eu já passei não tornará a ouvir o som dos meus passos. Tem uma revista que eu guardo há muitos anos, e que nunca mais eu vou abrir. Cada vez que eu me despeço de uma pessoa, pode ser que essa pessoa esteja me vendo pela última vez. A morte, surda, caminha ao meu lado, e eu não sei em que esquina ela vai me beijar. »

Ressalva :
Você chegou até o fim do post, parabéns. Esse, talvez tenha sido o texto mais longo que eu já escrevi, mas não pense que acabou por aqui. A história é longa e emocionante, mas vou te poupar da bad trip que rola pós filme. Portanto, aqui vai uma música mais alegre para os créditos do filme.

15. S.O.S

Destaque para o trecho : « ô seu moço do disco voador, me leve com você pra onde você for. ô seu moço, mas não me deixe aqui, enquanto eu sei que tem tanta estrela por aí »

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