Esses dias eu tive a oportunidade de jogar Nanashi no Game, de 2008, desenvolvido pela Square-ENIX. A premissa do game é simples, mas inova em trabalhar seu meio, o Nintendo DS. Na pele de um estudante universitário, você descobre por acaso sobre a lenda urbana do videogame amaldiçoado que mata seu jogador após sete dias.

Este tipo de história é recorrente no folclore moderno japonês. Na década passada , impulsionados pelo sucesso do filme The Ring, o ocidente presenciou uma onda de adaptações de filmes orientais de terror, como Ju-on, Kairo, Dark Water e Chakushin Ari.

Conhecido pelas audiências ocidentais como “J-Horror”, o gênero ficou famoso por possuir uma série de peculiaridades: costumam contar histórias de fantasmas e assombrações,  geralmente do sexo feminino, além de relaciona-las a algum meio de comunicação e difusão, como fitas-cassetes, SMS, websites e outros.

Geralmente nesses filmes o protagonista é um inocente ou curioso que, por uma fatalidade, precisa descobrir a verdade por trás da assombração antes que a mesma tome a sua vida.

Explorando as razões por trás desse gênero, percebemos que ele é intimamente relacionado a cultura popular japonesa, assim como o Xintoísmo, a principal religião do país.

Kayako, de Ju-on
Kayako, de Ju-on

De acordo com a tradição xintó, todos os seres humanos carregam o “reikon”, um conceito muito similar ao de espirito ou “alma” em religiões ocidentais. Quando o corpo morre, a alma parte para o purgatório, onde espera por seus ritos fúnebres apropriados, para só então partir do mundo físico.

Porém, pessoas que morrem de forma súbita e/ou violenta, como acidentes ou homicídio, sem que recebam os rituais necessários ou que em vida, carregaram sentimentos negativos fortes como fúria, inveja ou ciúmes, acabam acumulando “kegare”, uma espécie de impureza espiritual que precisa ser exorcizada. Caso o exorcismo do “kegare” seja negligenciado, o reikan se torna um yurei e passa a assombrar aquilo que ainda o prende no mundo material.

É interessante saber que o “kegare” em si não é maligno, mas sim relacionado à noção de higiene espiritual praticada pelo Xintoísmo, o mesmo também é relacionado a pessoas vivas, objetos inanimados e até lugares, não se limitando a espíritos.

O Fantasma de Oyuki, 1750
O Fantasma de Oyuki, 1750

Apesar de mesclar folclore japonês e literatura de terror ocidental, a série de videogames Silent Hill ilustra bem o conceito de “Kegare”. Nela, o personagem constantemente é levado para um “outro mundo”, uma versão sombria da cidade homônima do jogo, lá tudo é repleto de ferrugem, desgaste, manchas de sangue e objetos abandonados.

No século XVII, as histórias de terror (conhecidas como “kaidan”, dos kanjis “kai” estranho e “dan” contar) se popularizaram entre as castas mais nobres da sociedade japonesa, impulsionado também pela tecnologia de reprodução gráfica importada da China, o país vivenciou uma explosão de contos de fantasmas, principalmente relacionados a figura do Yurei.

Nesta mesma época, o artista Maruyama Okyo, após sonhar com Oyuki, uma antiga gueisha falecida e querida por ele, iria pintar o ukyo-e “O Fantasma de Oyuki”, que se tornaria a inspiração para todos os fantasmas modernos do folclore nipônico. Oyuki é interpretada no quadro como uma mulher pálida, de longos cabelos negros, trajando um yukata branco, seu corpo é quase imaterial e parte de sua cintura não pode ser vista.

Retomando a nossa época, observem, por exemplo, a personagem Sadako Yamamura (conhecida no ocidente também como Samara Morgan), a assombração da fita amaldiçoada do filme Ring é apenas uma leitura moderna do “Yurei”, tanto em aspecto quanto em sua história trágica.

Hoje, o Kaidan é um gênero literário extinto, porém sua influencia deixou marcas nas gerações seguintes de japoneses, uma inspiração comum para o J-horror são as histórias conhecidas como “Toshi Densetsu”.

Sadako Yamamura, de Ring
Sadako Yamamura, de Ring

Bastante populares entre adolescentes, um Toshi Densetsu não é muito diferente das lendas urbanas ocidentais com suas loiras do banheiro ou bonecos assassinos, a diferença é que no resgate aos valores folclóricos, na adaptação de seus temas para o mundo contemporâneo, com o advento de novas narrativas e da própria internet, a capacidade de disseminação de mitos e rumores apenas aumentou.

Esses mitos costumam ter moral similar a uma fábula, advertindo pessoas sobre perigos relacionados ao ambiente urbano, mas resgatam noções como o Yurei e até mesmo Yokai, bestas místicas do folclore oriental.

Um exemplo é o mito da Kuchisake-onna, uma mulher que teve sua face mutilada nos extremos do rosto, cortando as bochechas e o lábio e que pode ser encontra tarde da noite vagando nas ruas.

A lenda começou há 400 anos, no Periodo Edo da história japonesa e sobrevive até hoje, durante a década de oitenta a mesma ganhou uma máscara cirúrgica – acessório comum no cotidiano japonês – o espirito, por sua vez, passou a abordar pessoas, questionando-os sobre sua aparência e, dependendo da resposta, assassinando ou mutilando aqueles que ousarem responder.

O mito ganhou tanta projeção durante a década de oitenta, que existem relatos de escolas onde estudantes pediram permissão a seus professores para saírem da escola em grupos ou acompanhados de um responsável.

Kuchisake-onna, na cada de "Carved", de 2007
Kuchisake-onna, na cada de “Carved”, de 2007

A popularidade do mito da Kuchisake-onna é tamanha que em 2007 sua figura inspirou o J-horror Carved, onde temos o espirito vingativo em vida uma mãe solteira que foi mutilada pelo próprio filho. A história vai além do mito urbano e agrega comentário social sobre o bem-estar infantil, maternidade e ser mãe solteira em uma sociedade como a japonesa.

É preciso entender que mitos não são esquecidos ou abandonados por suas sociedades. Eles evoluem, acompanham novos adventos – sociais e tecnológicos – e principalmente, transcendem para novas mídias, adaptam seus diálogos para novas audiências, e quando tramamos de histórias sobre fantasmas, estamos falando de quatrocentos anos desde o surgimento do Kaidan até o surgimento do J-Horror nos cinemas orientais, uma história que está longe de acabar.

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