Uma das primeiras memórias televisivas que eu tenho é da novela Ambição e de sua protagonista vilanesca, uma velha de tapa olho que se vestia como o Cauby Peixoto e não tinha dó de passar por cima de seus desafetos (talvez envenenando-os), no início dos anos 90. Eu não assistia à novela, mas os comerciais, que eram exibidos a cada intervalo de Carrossel, no SBT, eram suficientes para me deixar aterrorizado e ao mesmo tempo fascinado com aquela personagem. Na minha cabeça de seis ou sete anos de idade, eu já conseguia entender que aquilo era um grande clichê sem deixar de ser uma grande forma de contar a história. Para comprovar que a minha memória infantil não estava me enganando, conferi na Wikipédia e confirmei o que eu já sabia, Catarina de Larios, a tal protagonista, foi “uma das maiores vilãs da dramaturgia mundial”.

É só pegar qualquer outra novela mexicana transmitida pelo SBT na época para encontrar aqueles clichês que tanto amamos, como a própria Carrossel, que contava com uma trama que girava em torno do amor impossível entre um menino negro e pobre (Cirilo) e uma menina branca e rica (Maria Joaquina). Essas histórias nunca envelhecem e sempre são um sucesso estrondoso (para quem não lembra, a Professora Helena, de Carrossel, chegou a ser recepcionada em Brasília pelo então presidente da república, Fernando Collor).

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Corta para 2016 e temos Jane the Virgin, série americana que caminha para a sua terceira temporada e cuja primeira já está disponível na íntegra no Netflix brasileiro. Jane é uma moça simples, virgem e católica, que sofre uma inseminação artificial acidental. Sua vida vira de cabeça pra baixo, uma vez que o dono do esperma congelado que a deixou grávida é um charmoso e riquíssimo dono de uma rede de hotéis, e Jane estava prestes a se casar com seu noivo, um modesto, porém esforçado, detetive policial. A série é baseada em uma novela de grande sucesso, não mexicana, mas venezuelana, Juana la Virgen, que foi exibida no Brasil pela Record, entre 2002 e 2003, com o nome de… Joana, a Virgem.

Considerando que se trata de uma produção americana, ficamos com um pé atrás, achando que pode se tratar apenas de uma “paródia” tirando sarro das novelas latino americanas que há tempos aquecem nossos corações passionais, cheia de clichês e estereótipos, porém a abordagem de Jane the Virgin é em linha reta e dá espaço para todos os personagens brilharem tridimensionalmente e a história fluir tão suavemente quanto o balão da abertura de Vovô e Eu. É louvável ver uma série feita nos Estados Unidos colocar um elenco tão diverso e com tanta naturalidade sem parecer que está preenchendo algum tipo de cota para minorias. Inclusive, não é exagero dizer que apenas 10% do elenco é genuinamente branco e não deixa de ser surpreendente que um dos personagens principais (a avó de Jane) não fala inglês em nenhum momento.

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Jane (Gina Rodriguez), sua mãe, Xiomara (Andrea Navedo) e sua avó, Alba (Ivonne Coll), formam a tríade principal na saga para dar uma vida digna e “normal” ao bebê que está a caminho. Enquanto Jane é certinha, estudiosa e um poço de honestidade (porém, nunca irritante, é bom frisar), Xiomara é uma explosão de sensualidade e impulsividade sem deixar de ser super emocional. Os conflitos entre as duas são os pontos altos da série. Torcemos pelo sucesso amoroso de Xiomara e para que Jane se entenda com os homens de sua vida.

Não tenho mais 6 anos de idade, mas personagens espalhafatosos e personalidades fortes ainda me fascinam. Os atores da série são tão carismáticos e os personagens tão bem construídos e apegáveis, que o narrador vira o nosso melhor amigo e torcemos até pelos vilões. Petra (Yael Grobglas), a mulher de Rafael (Justin Baldoni), o dono do hotel Marbella e pai do filho de Jane – e dono do melhor abdômen do audiovisual recente -, é provavelmente a antagonista mais charmosa da teledramaturgia dos últimos tempos. Petra passeia de shortinho pelos corredores do colorido Marbella e faz de tudo para conseguir o que quer, criando caras e bocas para conquistar os seus homens, assim como os telespectadores. Sua mãe, Magda (Priscilla Barnes), é a vilã clichê de Ambição, andando pra cima e pra baixo de cadeira de rodas e tramando contra os mocinhos. Quando as duas se juntam é sempre um espetáculo à parte.

Rogelio de la Vega

Mas quem rouba a cena mesmo é Rogelio de la Vega, o astro da novela fictícia The Passions of Santos, a favorita da avó de Jane. Rogelio é o maior expoente da exuberância do latin lover, uma força da natureza que traz brilho para cada cena em que aparece. Viciado no Twitter e na sua própria carreira de ator e cantor, Rogelio é certamente a parte mais engraçada de uma série que já é bastante engraçada por si só. Tudo o que for falado sobre este homem não vai fazer jus à grandeza de Rogelio de la Vega. A trivia sobre o ator Jaime Camil, que interpreta Rogelio, no IMBD, é nada menos que fascinante, uma vez que descobrimos que ele já namorou Thalia e é amigo íntimo de Cláudia Leitte.

Jane the Virgin poderia ser apenas uma comédia romântica baseada nos clichês da teledramaturgia latino americana para agradar nostálgicos por Maria do Bairro e Marimar, porém a série tem muita vida própria e as referências aos dramas mexicanos viram apenas um tempero especial nessa incrível jornada. Jane the Virgin é protagonizada por mulheres determinadas, Jane the Virgin é composta por um elenco multicolorido, Jane the Virgin entende o nosso tempo, entende as redes sociais e sabe fazer humor com piadas de bom gosto. Jane the Virgin é a coisa mais 2016 que você vai assistir este ano.

ciro_hamenColaborador:

Ciro Hamen

Jornalista, santista, 31 anos; já colaborou com veículos como Vírgula, Trip, Rolling Stone. Diretor da web série e filme Meninos da Fila. Gosta de praia, calor e da internet. Especialista na palavra top e em tweets do Neymar.

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