Muito se fala a respeito do tema scans – termo utilizado para a digitalização das Histórias em Quadrinhos que vão do papel para a mídia virtual, e difundida através da Internet – e todas suas idiossincrasias no que tange a leitura, cultura e o tema do momento: o Compartilhamento.

Este texto se propõe a dissecar alguns pontos do trabalho realizado pelos scanlators – as pessoas que escaneiam quadrinhos, americanos em sua maioria, mas também de outros países -, assim como nós, “piratas tupiniquins”. Vamos tentar elucidar a evolução do quadrinho em scan através do tempo até sua “publicação” nacional traduzida pelos grupos informais espalhados pelo Brasil. É interessante falar também a respeito do leitor que consome esse tipo de publicação, o nosso mercado editorial e a visão maniqueísta que vem pairando sobre este assunto.

Faz tempo que a recessão mundial vem podando o lado mais fraco do consumo mundial, ou seja, o entretenimento, o supérfluo, ou a “cultura inútil”, como alguns dizem. O certo é que a balança sempre vai pender para o lado mais forte, e numa economia mundial desestabilizada, o consumidor médio irá privilegiar vestuário, alimentação e moradia em detrimento a teatros, cinema e também quadrinhos. É um movimento lógico, entretanto triste para os amantes da cultura. Sim, é certo que existe a indústria do entretenimento que move bilhões anualmente; mas também é advinda deste cenário econômico no qual a classe média é a que mais precisa controlar seus gastos, uma difusão da “pirataria”, entre aspas, pois é uma terminologia que divide opiniões, mas não entraremos no mérito da questão aqui. O certo é que estes fatores acima proporcionaram uma busca pelo entretenimento grátis! Os consumidores que antes separavam uma parcela de seus ganhos para serem gastos com diversão e cultura, se viram diante de um infeliz dilema: parar definitivamente com seus hobbies e coleções, ou procurar vias alternativas para continuar seu consumo. Dizer que é fácil deter o anseio, principalmente dos chamados “nerds”, por seus itens colecionáveis e afins, não conhece verdadeiramente o Mundo Geek.

Dessa forma então, surgiram diversos modos de adquirir esta cultura alternativa. E tudo que possibilita um crescimento intelectual, seja em níveis baixos, como saber o nome de todos os Pokemons, ou mais altos, como conhecer os fundamentos da magia negra de Aleister Crowley, é cultura! A superficialidade disso diante dos problemas econômicos e políticos não deve ser tão exacerbada, pois estamos vivos, somos seres sapientes e de livre arbítrio, o que nos faz buscar sempre um bem que nos aconchegue. E de certo, que este complexo ser humano iria achar formas de continuar seus vícios. Assim surgiu a Pirataria, assim surgiu o Compartilhamento, tendo nas vias da Internet seu veículo imprescindível para a difusão de seus itens.

No que tange aos quadrinhos – e vamos nos focar apenas nas HQs brasileiras – tudo começou da mesma forma que em todo mundo. Uma pessoa, seu quadrinho preferido, um scanner e uma conexão. Não precisamos entrar em questões sobre como escanear uma revista, pois um pouco de bom senso e um equipamento de boa qualidade faz quase que o serviço sozinho. Mas o que houve no Brasil foi que, quando começou a Era dos Scans por aqui, viu-se que existiam imensos furos cronológicos, histórias incompletas, e muita coisa inédita e de imensa qualidade que nunca seria vista nestas bandas. Coisas que só acontecem neste seu país tropical abençoado por Deus e bonito por natureza, parafraseando Jorge Benjor.

O que houve a partir daí pode sim ser chamado de Revolução Editorial. Num mercado que o editor de sua revista em quadrinhos favorita responde apenas, “não há planos para este material no momento”, e aprender uma língua estrangeira em um curso básico não é uma opção tão viável assim para ler as gírias, expressões e locuções singulares que fazem de certas histórias a cereja no bolo, e que te fez querer ler mais, neste mercado, criou-se, quase que involuntariamente, uma editoração paralela. Histórias que nunca tiveram final publicado no Brasil, cortes e mais cortes realizados na época do formatinho pela Editora Abril, e muita coisa nova, inédita para aqueles apenas acostumados a ler Homem-Aranha e Batman mês a mês, tudo isso foi apresentado ao leitor virtual, que lia, ainda incomodado, seus quadrinhos numa tela de computador. Foram-lhes apresentados novos universos, foram-lhes abertos os olhos para os talhes editoriais, e principalmente, foram-lhes dados de graça. Com alguns cliques eles poderiam voltar a ler e colecionar aquilo que lhes havia sido tirado por conta da recessão.

Como argumentar com isso? Como ser hipócrita a ponto de declinar a esta proposta, por ser um cidadão honesto e do bem? Como ser contra algo que estaria abrindo sua mente?

A verdade é que a partir deste momento, tudo mudou e este movimento nunca mais parou. Como tudo na vida, isto também divide opiniões, e o lado dos direitos autorais é que mais tem pesado contra os scans. Mas, de outro lado, apesar de não haver pesquisas oficiais, apenas indícios fortes, este quadrinho informal pode ter aberto portas para a chegada de material que, outrora, nunca daria as caras por aqui. Dois exemplos rápidos: The Walking Dead, de Robert Kirkman e Fell de Warren Ellis e Ben Templesmith. Com certeza, estes títulos no passado, nunca teriam uma chance, pois o medo do fracasso editorial e a aposta em títulos undergrounds nunca foram características das editoras brasileiras. Neste ponto entraram os grupos de tradução informal, que viram potencial nos títulos e arcaicamente, no início, traduziram estas revistas e as disponibilizaram gratuitamente na Internet. O sucesso foi tão grande que extrapolou o universo virtual e chegou às portas das editoras reais, que só aí abriram os olhos para tais títulos. Eles finalmente foram publicados em solo nacional com relativo sucesso! Será que os scans são tão maus assim? Fica a dúvida.

Mas nem tudo são flores, o que mais pecava neste tipo de produção independente era qualidade. Por serem apenas fãs tentando divulgar um material que, às vezes, só ele e amigos conheciam, a tradução e rediagramação deste material continham alguns problemas, advindos principalmente da inexperiência e falta de conhecimento aprofundado a respeito da tradução e letreiragem de quadrinhos. Então, diversos erros de concordância e gramática, páginas com qualidade duvidosa e outras coisas do gênero, um pouco que marginalizava este trabalho e era criticado ferrenhamente pelos detratores de tal prática. De novo, havia uma divisão.

Vejam bem, estamos na aurora do Século XXI, a juventude e o leitor virtual são criados graças à velocidade da informação e à efemeridade da Internet, num universo onde importa mais “ter visto” do que “ver” realmente. Absortos em múltiplas ações, é certo que muitos não ligavam para tais erros e o importante para eles era apenas o acesso ao material inédito. Pode parecer absurdo, mas o número deste tipo de leitor é maior do que se possa imaginar. Na outra margem, estavam aqueles puristas (por vezes, mais velhos) que preferiam ver estes materiais com a mesma qualidade de tradução que estavam acostumados desde a tenra infância. Essa dicotomia estende-se até hoje, apesar de que muitos já viram que a qualidade sempre vai superar, em longo prazo, a pressa e a ansiedade pelo novo e o fugaz.

Apesar de ser um trabalho informal, não remunerado e feito por fãs e não por profissionais da área, a tradução e diagramação de uma HQ pode sim ser feita com certa qualidade. Não é bom para a imagem dos scans e scanlators disponibilizar material com muitos erros, desmerece o serviço e dá margem às críticas daqueles que são contra. Acredito que estamos em um novo nível editorial, estamos vivendo a evolução dos quadrinhos, e por estarmos dentro dela não conseguimos enxergar todas as peculiaridades deste universo. Talvez os quadrinhos online substituam o de papel, talvez não (acredito piamente nesta última), talvez os leitores prefiram ler menos e cada vez menos balões a cada revista, contudo ainda podemos ter nas histórias em quadrinhos bases para a educação. Ainda é necessária uma renovação de leitores, crianças não estão lendo, e os quadrinhos, por vezes, se fecham a novos leitores devido às complicações cronológicas ou preços altos. É aí que entram essas vias alternativas de compartilhamento. O ambiente virtual possibilita mais acesso e assim, mais visibilidade. A opção mais interessante seria ainda uma parceria entre os scans e as editoras. Se ambos pudessem caminhar juntos no sentido tanto da produção como da divulgação, quem sabe as HQs pudessem chegar a mais leitores, e impulsionar esse marasmo editorial que vive a Nona Arte no Brasil, onde não há a propagandas nas revistas; não há diálogo claro entre editor e leitor/consumidor; não há pesquisas; e os números de vendas, tiragem e etc. são envoltos em mistério e nunca revelados. Onde o feedback de um blog é maior que de uma editora oficial. Unir essas forças que hoje se digladiam pode ser uma saída, uma luz praqueles que querem continuar a viver neste universo maravilhoso dos desenhos e das palavras, mas que são impedidos por forças maiores. É uma divagação, mas há pontos que deviam ser repensados por editoras, editores e também leitores.

Estamos seguindo um rumo evolutivo, não há mais como deter a maré da tecnologia, a Internet e a velocidade comunicacional, o que deve ser feito por parte das editoras (assim como produtoras e afins) é se adaptar, entrar nesse mundo e aceitar a mudança. Não há mais como impedir os scans, eles são realidade, não há como agir como uma Inquisição e “queimar” as bruxas do compartilhamento. Precisa haver uma conscientização de que estamos em uma nova era da informação, e que existem várias singularidades neste novo mundo virtual, mas que ACIMA DE TUDO o leitor não é um vilão que consome gratuitamente para destruir as editoras. Querer minar a leitura, da forma que for, é como apoiar o analfabetismo.

A ideia primordial deste texto era expor um lado mais técnico dos scans, mas basta dizer neste ponto que imagens são editáveis, programas como o Photoshop, o mais utilizado pelos scalantors, fazem quase tudo que se possa imaginar. E existe muita gente boa, em nível profissional, que faz este trabalho por prazer e com imensa qualidade. Porém, ainda existe muito a melhorar, a língua portuguesa é seguidamente maltratada em muitas HQs virtuais, tal coisa devia ser aprimorada, quadrinhos como já dito são uma fora de cultura e educação. Leia, leia muito, e espalhe o que você leu, da forma que puder.

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5 COMENTÁRIOS

  1. Então Von, achei bem legal o seu post, mas acho que ainda estamos muito longe de uma aliança entre Editoras e Scanlators. Como você mesmo disse, “…existiam imensos furos cronológicos, histórias incompletas, e muita coisa inédita e de imensa qualidade que nunca seria vista nestas bandas. ” Isso não só acontecia, como acontece até hoje!

    Sou fã de Hqs, mas atualmente tenho me voltado mais para os mangás, noto que os trabalhos das editoras muitas vezes são “ruins”. Você saber muito bem, que se pegarmos a obra original e compararmos a obra publicada no Brasil, veremos cortes e censuras, outro ponto muito a favor dos scanlators, não é verdade?

    Um forte abraço.

  2. Ainda estou iniciando neste mundo de HQ’s. Fui uma criança feliz por exercitar minha leitura com Turma da Mônica e os amigos do Mickey.

    Teu texto é bem didático, informativo. Dá para sentir como está o cenário atual e, infelizmente, não é só com HQ’s.

    As editoras têm que perceber que não é só o conteúdo de massa que dá dinheiro, que conteúdo, cultura, não é algo que se pode medir por produtividade, número de vendas. Temos que ter acesso a tudo, sem restrições.

  3. Boa Dews. Tenho o prazer de diagramar a HQ que mais gosto, Transmetropolitan, que é traduzida por você, e sempre achei que esse seu modo de lidar com as scans, buscando a perfeição na lingua portuguesa (Muita gente acha suas traduções melhores que a da Panini) o correto.

    VIDA LONGA AOS SCANS!

  4. Ótimo artigo, Von Dews. Toca em pontos polêmicos da questão dos scans.

    Eu também já topei com edições onde a língua portuguesa foi mal tratada. E isso me incomodou muito. Ainda incomoda, na verdade. Mas, como você mesmo disse, existem bons e maus trabalhos feitos pelos voluntários dos scans. A questão é selecionar.

    Abraço.

  5. Eu posso falar por experiência própria que os scans me trouxeram de volta ao mundo dos quadrinhos. Comprava X-Men no fim dos anos 90, até que veio a “revolução” Abril e suas super-heróis Premium… eu, pré-adolescente fudido, comprei 6 números e pedi pinico.

    Depois de muito tempo (tempos do glorioso Eudes!) voltei a acompanhar uma ou outra série mutante via scans. Enfim, fui voltando.

    Hoje em dia, já com algum dinheiro, não acompanho edições mensais, mas sempre compro encadernados, que é um modelo que gosto. Acompanho várias séries encadernadas, uma grana que nunca imaginaria que iria “gastar” com quadrinhos.

    Mas sou curioso para saber como as editoras farão com seu modelo de negócios digital daqui há alguns anos. Isso porque, bem, eu curto quadrinhos físicos, folhear as páginas, a lombada na estante, etc. Mas a geração atual, ainda bem jovens, tem uma relação muito diferente com o papel quando comparado com a da qual faço parte.

    Enfim, estou muito curioso com os próximos anos.

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