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Como Magia funciona? Se você praticou nesses quase seis anos desde que escrevi a primeira parte dessa série, talvez a pergunta tenha lhe chegado à mente. Se você foi científico nesse período — e com isso não quero dizer um cético que não acredita em nada, mas sim criterioso com os resultados dos seus feitos — provavelmente deve ter elaborado alguma resposta baseado nos resultados de ritos e práticas.

Eu planejava escrever este texto muito antes, comecei umas quatro vezes de vários jeitos diferentes, mas nunca rolou. Ontem, o Chaves lembrou do aniversário da Mob (hoje estamos completando 6 anos) e vi que era a oportunidade de terminar de alguma forma o que comecei lá atrás. E aqui estou.

Antes de tudo, devo dizer que fiz bastante magia nesse período: alguns posts no meu blog Sabotagem (vários deles vieram parar aqui também) e dois livros: um com mais de 800 páginas que vou demorar um bocado para editar (deixei de lado há três anos), e outro, mais recente, com pouco mais de 400, que alguns amigos já estão lendo a primeira versão.

Isso demonstra um pouco como Magia funciona. Sem se submeter ao tempo, imersa em Caos, muitas vezes parecendo até superar nossas vontades. Com o tempo você aprende que Magia não é apenas ritos repetidos e palavras de poder, mas colocar sua Vontade e Intuição para trabalhar. Eu mesmo não sou o maior dos magos práticos, mas enxergo magia e mensagens universais para quase tudo que olho.

Mais cedo ou mais tarde todo o Mago vai se perguntar, mesmo que de forma despretensiosa, como ele foi capaz de ser contratado após carregar um sigilo, como um servidor astral o fez comprar um carro, como viu um inimigo tombar de forma ridícula após colocar areia suja no caminho dele, como cristais ficam carregados de energia negativa ao ponto de fazer alguém vomitar após passar a noite num ambiente podre. Como isso acontece? Como coisas tão diferentes, estranhas e inexplicáveis acontecem, superando todas as estatísticas para considerarmos tudo isso um acaso bobo?

Cada um responderá de uma forma diferente e a resposta está justamente nessa diversidade. Alguns acreditam em alienígenas do bem (e outros do mal) que ajudam a humanidade e dão poderes para pessoas que os buscam — uma versão moderna da teoria da ação dos espíritos, principalmente da chamada Fraternidade Branca, que me causa risadas sempre que ouço tal nome. Outros, em energias que permeiam o cosmos que podem ser controladas. Outros, na ação psíquica, através do Inconsciente. Outros, em Informação, cujo alcance e interação causa esses estranhos acontecimentos. Eu pendo para um modelo que une os dois últimos.

A Magia é subjetiva, funciona com e através do cérebro humano, o mais poderoso mecanismo conhecido na natureza (e, bem, conhecido pelo próprio cérebro, em última análise). Tudo passa pelo cérebro, todo o seu mundo é seu cérebro e exatamente por isso acho (Eu, pessoalmente) complicado todo o papo de que temos alma, reencarnamos, o corpo é veículo de nossas almas imateriais, perfeitas, etc.

A Carne é tão importante quanto a Informação. Tudo é informação. E o cérebro é o mecanismo através do qual essa informação é processada, filtrada e transmitida. Para isso, ele utiliza um mecanismo poderoso que jamais entenderemos completamente: o Inconsciente. É lá que a mágica funciona (ao menos no meu modelo de Magia). É lá que estão as versões pessoais de pacotes de informação universal (os conhecidos Arquétipos), que as processa (cérebro não processa nada, mas não possuo analogia melhor no momento) e no fim as direciona para desdobramentos que indicam como ela agirá em nós.

Um exemplo: MILHÕES de fãs dos Beatles ouviram Helter Skelter. É uma sonzera do caralho. Apenas um deles leu nas entrelinhas da música uma mensagem sobre guerra racial e fim do mundo. Por mais que o cérebro dele fosse perturbado (e era), esse desdobramento mostra como a Carne e as informações que a atingiram são importantes dentro de um contexto comportamental. Não satisfeito, ele foi capaz de espalhar o terror não apenas num país, mas por toda a Era Paz & Amor. Isso é magia da pior forma acontecendo.

Tá, mas como o cérebro e o Inconsciente é capaz disso tudo? Não é possível saber, apenas especular. Como disse, nós pensamos através do cérebro e por isso é difícil estudar a respeito dele. Peter J. Carroll, fundador da Magia do Caos e um dos únicos magistas famosos que (aparentemente) não vai morrer pobre na miséria (Grant Morrison e Alan Moore são outros, o que indica que o lance é escrever quadrinhos), afirma que existe um mecanismo que separa o Inconsciente do Consciente chamado Censor Psíquico.

Apesar dele (o Censor) diminuir nossas capacidades de enxergar o mundo, essa ferramenta permite que possamos levar nossas vidas ordinárias. Imagina não ser capaz de se concentrar em uma leitura porque sua audição captou uma conversa dois andares abaixo. Ou a sensação de que o campo energético do quarto está desequilibrado. O Censor faz com que nos concentremos, mas essa concentração nos torna limitados.

A Magia é a expansão da nossa mente Consciente. É, por alguns minutos, acessar a porção Inconsciente, um lugar onde cabem mundos inteiros. Esse modelo foi inaugurado por Austin Osman Spare, considerado o Pai da Magia do Caos (e pai da magia do século XXI, o próximo degrau após a atuação da Golden Dawn e Crowley).

É a partir desse modelo “cerebral” que unificamos teorias de que nosso corpo é um modelo completo do Universo, assim como cada átomo visualmente parece um sistema estrelar. Ou a ideia que nos coloca como células de um corpo maior, o Planeta Terra, inserido em corpos cada vez maiores, como a Via Láctea, até atingir o infinitamente expandido Universo, cujo propósito desconhecemos, mas podemos intuir através de estranhas visões guiadas por plantas e outros compostos naturais chamados de drogas.

Há obras muito boas que colocam as coisas dessa forma. Um Universo gigantes e nós como células. Como sou pop, minha preferida até o momento é The Filth, do mesmo Grant Morrison que escreveu Os Invisíveis, top 3 das minhas obras de ficção favoritas.

Nós somos agentes da evolução universal e por isso temos contato com um fluxo de acontecimentos, campos e dimensões onde o Caos impera, sendo o Caos apenas uma quantidade indefinida de ordens diferentes. Cabe a nós e nosso Cérebro, com tudo que acumulamos nele, dar alguma ordem ao que ocorre ao nosso redor.

E aí chegamos à Magia, que nos deu ferramentas esquisitas, mas muito divertidas que funcionam como espelhos para ordenamos o Caos do nosso Inconsciente-Universo. O Tarot é uma das minhas favoritas. Astrologia também me agrada. Meditação, quando bem direcionada, é muito valiosa.

E os rituais, o que são os rituais? São uma forma teatralizada de internalizar uma Vontade para que o Inconsciente devolva aquela informação “espelhada” para o Universo. Rituais também são formas de abrir fechaduras dimensionais, ou algo assim. Uma invocação de Mercúrio é uma forma psico-física de canalizar uma energia/espírito/informação/pulsão do corpo do planeta Terra para uma determinada direção.

Por isso a Linguagem é tão importante. Ela é o componente que ordena esse Caos e expressa vontade do Mago. A chave pra Magia é a Linguagem, seja visual, escrita, falada, etc. Quando essa linguagem é formatada na forma de ritos e feitiços, formam o que chamo de scripts, um compilado de informação com um objetivo, nem sempre tão específico assim.

O Inconsciente também é capaz de acessar o que chamo de Registro. Registros são informações que vagam ou permanecem em um ambiente. Uma fotografia é um registro, bem como o local onde um escritor passou meses elaborando as histórias de seus livros/contos. O Inconsciente pode acessar essas informações, que se impregnam em tudo que é lugar (independente do seu conceito de lugar), além de poder influenciar o ambiente com elas, ou ser influenciado.

Essas flutuações acumuladas de informações não possuem consciência, ao menos não como entendemos a consciência, e são a chave para sacarmos possessões, pessoas que parecem ser reencarnações, vidas passadas e tudo isso. São informações que vagam em busca de um novo conduto, geralmente cérebros. Como diz Dawkins: a informação (ou genes) são egoístas. E como diz o ditado que versa sobre a natureza: nada se cria, tudo se transforma. Quando morremos, todo o constructo de informações que nos forma é reabsorvido pelo Universo e depois absorvido por outras pessoas, mais ou menos como matéria putrefata natural. Isso explica as ligações que temos com coisas que não nos dizem respeito em nossas vidas.

A missão do Mago é ser capaz de treinar o próprio Consciente para estabelecer comunicação com o Inconsciente e conseguir canalizar tais informações e registros através de scripts, que são ativados pela Vontade. Deu para entender? Talvez.

Mas a Filosofia Macrocósmica, essa descrição das engrenagens que estão por detrás da realidade e impulsionam a magia, é tão pessoal quanto suas práticas. Você pode considerar tudo que escrevi aí uma grande baboseira, mas isso não diminui a importância de ter esse tipo de arcabouço por trás de como você entende a Magia, justamente pelo ser humano ter a necessidade de tentar compreender tudo ao redor dele e, se possível, dominar.

Por mais que Eu seja um Mago Caótico, que entende que a própria crença é a ferramenta, tive a necessidade elaborar o mínimo de teoria que seja para entender como esse metaprocesso funciona. Faça o mesmo, no máximo terá feito um belo exercício filosófico.

PS: Escreva aí nos comentários como foram suas práticas nesses últimos seis anos. Se é que alguém daqueles tempos ainda passa por aqui.

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3 Comments

  1. Pedro.

    8 de Fevereiro de 2018 at 23:43

    Eu. Inclusive, foi esse artigo que me iniciou no caminho. Nunca tinha praticado nem lido nada antes dele.

    De lá pra cá muita pedra rolou, Magia do Caos, Thelema, Qliphot, LHP e o caralho
    Bom saber que voltou, vai continuar?

    Abraço

    Reply

  2. Flavio Simoes

    12 de Fevereiro de 2018 at 10:06

    Mais um. A pagina estava salva no meu rssfeed e eu realmente nao esperava que um novo artigo fosse aparecer. Nao sou praticante, entao posso dizer que de la pra ca fui “cientifico” e continuei lendo e mantendo a mente aberta.

    Fique curioso com o lance dos registros e como seria possivel diferenciar o que é registro absorvido (familiaridade com um lugar, lembrança de coisa nao vivida) de informaçao “genuina” de vida passada. Voce recomenda algum material sobre isto?

    Reply

  3. Yazmud

    18 de Fevereiro de 2018 at 03:30

    Mais um. Desde antes do teu texto, desde 2005, aliás. Busquei de maneira inconsciente aprender o que há “por trás” da realidade, e descobri a Magia do Caos mais ou menos intuitivamente, mais ou menos por acaso. Desenvolvi, criei e pratiquei rituais e sigilos, antes de saber que eram rituais e sigilos. Desde os doze anos de idade, aliás. (tenho 46 agora). Só precisava de um arcabouço intelectual, uma descrição em palavras das imagens, das ideias, dos “pré-sentimentos” que sempre tive. Não digo que já encontrei, mas consegui sintetizar muita coisa desde então.
    E apesar de divergir de alguns dos teus pontos de vista e opiniões, agradeço muito por tê-los encontrado. Me ajudaram a re-desenhar alguns de meus mapas.
    Espero que continue.
    E que continuemos a nos encontrar.

    Reply

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