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Opa, tudo bem? Pode entrar! Vem, por aqui, vamos gravar lá no estúdio. Tá, eu sei que não é um estúúúúdio, mas dá pra gravar muita coisa aqui. Pode entrar, vamos usar meu microfone. Depois eu te passo o arquivo em MP3 320, que é uma qualidade bem melhor pra você escutar depois. Se você quiser, eu posso fazer até um sonzinho background, mas aí a gente negocia o pagamento. Tire as penas da cadeira, ok?

Meu nome é Marlon Periquito. Eu sei, tentei alguns pseudônimos e nomes artísticos mas nenhum pegou. Sou formado em música e, além de cantar — o que mais gosto de fazer — toco guitarra, baixo, bateria e arranho um piano. Tem que saber ser versátil, né?

Gosto de cantar desde antes de crescer. Sou um periquito né, a única coisa que fazia dentro daquela gaiola infernal era cantar. Pelo menos tive anos de treino, desenvolvi uma técnica quase perfeita e acabei desenvolvendo audição absoluta. É, tipo o João Gilberto, mas menos chato. Logo arrumei um bico — hahaha, um bico, pegou o trocadilho? — cantando com um tecladista em um boteco e comecei as aulas de violão. Ele tocava forró risca-faca e eu tinha que cantar. Não tinha muita escolha, fazer o que? Vida de músico não é fácil.

Foi só a prática no violão ganhar mais vida que comecei a tocar por conta própria. Ah, sabe essas churrascarias todas aqui da região? Toquei nelas. Elas até pagam bem, quer saber? Deu pra bancar a faculdade! Meu sonho era que, ao fim do curso, eu pudesse tocar o que eu quisesse e ganhar dinheiro com isso. Mas não, mesmo depois de quatro anos de faculdade — e inúmeras aulas nas escolas de música da região — continuo na mesma formula Capital Inicial – Jota Quest – O Rappa. Estudei várias Bachianas, transpus duas peças de piano pra guitarra e fiz algumas versões melhoradas de Eric Clapton, mas ainda assim continuo tocando sertanejo universitário de fim de semana.

Olha, a vida de músico não é fácil, ainda mais quando se é um animal. Primeiro, eu tenho penas. Segundo, elas são amarelas, brilhantes, e eu tenho esse risco vermelho na testa que parece uma faixa, uma bandana. Não adianta, é só eu subir no palco que alguém pede pra eu tocar alguma coisa da tropicália, cantar um Cazuza ou tocar Raul. Eu até gosto do som deles, mas é sempre a mesma coisa, os mesmos pedidos!

Aí eu resolvi me opor ao sistema. Daquele dia em diante só tocaria em locais amigos dos animais e amigos dos músicos. Locais onde eu pudesse tocar música boa, preparar um repertório, ter gente que entende de canto de pássaro e que curte um som de verdade. Postei anúncios em tudo quanto é lugar até que uma moça bem humorada me ligou. Depois de alguns minutos de conversa ela me chama pra tocar no bar dela. Topei na hora, ela me parecia super gente fina.

Apareci no lugar e, nada mal. A acústica era boa e o som tinha qualidade. Antes de subir procurei a moça e não encontrei em lugar nenhum. Um segurança me apareceu e disse pra eu tomar um whisky e comer um lanche, era por conta da casa. Aproveitei, né? Deu minha hora e, mesmo sem falar com a mulher, subi ao palco e fiz minha apresentação. O público não era dos melhores mas ao menos conhecia mais ou menos o que eu cantava. Ninguém jogou garrafas em mim nem pediu Jorge e Mateus. Tudo estava bom demais pra ser verdade.

Desci do palco e vi a tal moça. Cheguei perto dela e fui recebido com um abraço e um sorriso. Blá blá blá, você tocou muito bem, adorei o show, blá blá blá. Depois da tagarelice, fiz cara de sério e perguntei, com calma sobre meu pagamento. A moça fechou a cara e disse que estava ofendida. Sem entender, repeti a pergunta.

Olha, você nunca saberá o que é sentir isso sobre seu trabalho. Se bem que… você é jornalista, e jornalistas vivem isso de uma maneira ou de outra. Somos todos fodidos, no fim das contas.

A mulher encheu a boca e disse que meu pagamento foi antecipado. Tomei um whisky e comi um x-salada. Minha remuneração. Um drink e um lanche. A filha da puta ainda abriu um sorriso e me deu um saco de alpiste. ALPISTE. Pra terminar, perguntou se eu voltaria na semana que vem. Ela não queria um músico, queria um pássaro engaiolado.

Meu problema não é com a mulher ou com a casa de show dela. É com a humanidade. Vocês humanos não dão valor valor ao artista, seja ele músico, pintor, escultor, qualquer um. Saca só: eu fui tocar em um bar que é frequentado por animais e, caramba, foi a maior gorjeta que já recebi. Agora, quando vou tocar em locais frequentados por humanos o pessoal pensa que eu sou jukebox e reclama quando não toco o que pedem. Sempre tem aqueles que cantam todas as músicas junto comigo e, no fim da noite, reclamam do couvert artístico. Pô, eu mereço?

Resolvi dar aulas de música. Beleza. Tenho alguns alunos, dou aulas de múltiplos instrumentos e, mesmo sendo um periquito, ninguém tem preconceito. Acho que isso até ajuda na publicidade. Como a maioria dos alunos é jovem, consigo persuadi-los a estudar coisas diferentes, como Coltrane ou Miles Davis. Mesmo com muitas tentativas, ainda tenho muitos que querem aprender só o básico, só pra impressionar as menininhas. Pelo menos temos alguns bons exemplos, né? Nunca vou esquecer do menino que apareceu querendo tocar Restart e saiu tocando Joe Satriani. Delícia.

O problema disso tudo é a renda baixa, saca? A gente paga do nosso bolso a manutenção dos instrumentos, não consegue mais ganhar dinheiro com CDs e perde uma grana pesada com a pirataria. O negócio agora é distribuir tudo de graça e vender ingresso pra shows. Palhaçada é ir tocar em alguma rádio ou programa de TV e ter que pagar pra aparecer, sendo que ELES deveriam pagar o músico. É tipo vender um carro e ter que dar o carro e o dinheiro pro comprador.

A grana apertou e tive que arrumar um emprego mais estável. Hoje sou vendedor de instrumentos musicais. Isso mesmo. Após uma faculdade, anos de estudo e experiência, vários trabalhos de freelancer em diversas bandas — algumas ruins e outras boas — resumo minha vida em um uniforme, um crachá, e um “Posso ajudá-lo, senhor?” De uma coisa posso ter certeza: é o “posso ajudá-lo” mais afinado que você vai escutar em toda a sua vida.

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