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2015 está aí e as duas maiores editoras de quadrinhos da América (e do mundo) anunciaram suas maiores histórias para esse ano:  Secret Wars (“Guerras Secretas”, em uma tradução livre) pela Marvel Comics e Convergence pela DC Comics.

Guerras Secretas é uma das sagas mais famosas da Casa das Ideias. A minissérie original foi lançada em 1984 com Jim Shooter nos roteiros – até então o editor-chefe da Marvel – e com a bela arte de Mick Zeck. A história em doze partes mostrava o surgimento de uma poderosa entidade conhecida como Beyonder que reuniu os maiores heróis e vilões da Terra para descerem o cacete um no outro em um planeta que ele criou.

A versão de 2015 mostrará uma poderosa entidade que coloca o mundo em perigo e cria um planeta reunindo os maiores heróis e vilões de diferentes realidades. Ah, Beyonder também pode aparecer na história. Todos os mundos e realidades estão acabando e no final só poderá restar um.

Isso te lembrou de outra saga?

Em 1985 a DC Comics estava com uma cronologia complicada, o que causava uma enorme perda de leitores. A editora já tinha muitos anos de cronologia e muitas histórias para que um leitor novato pudesse acompanhar. O que fazer? Criar uma saga em que os mundos e realidades estavam sendo destruídos por uma poderosa entidade e no final formar uma Terra só.

O nome dessa história era Crise nas Infinitas Terras.

Crise nas Infinitas Terras

Alguns consideram como a maior saga da história dos quadrinhos e seu legado é sentido até hoje, principalmente na DC Comics. A Crise foi tão influente que anos depois teríamos Zero Hora, Crise Infinita e Crise Final. Todas com temáticas parecidas.

A editora casa do Superman e do Batman nunca conseguiu fazer uma saga de tamanho sucesso e importância quanto a original e neste ano ela pretende revisitar o assunto mais uma vez.

Convergence mostrará o vilão Brainiac engarrafando várias cidades (e mundos) de diferentes linhas temporais, além de outros planetas moribundos da editora e situando todas em um mundo além do Multiverso.

O simples fato da DC Comics voltar com o conceito do Multiverso já mostra que a editora gosta de complicar as coisas. O editor-chefe Dan Didio foi quem voltou com o conceito de vários mundos na maxissérie 52. E isso foi antes do reboot atual.

Agora em Convergence teremos os personagens da Distinta Concorrência em diferentes fases, seja pré-Crise nas Infinitas Terras, pré-Zero Hora, pré-Crise Infinita, pré-Crise Final ou pré-Ponto de Ignição.

É a famosa punheta para agradar leitor antigo.

Essas duas sagas mostram que as duas maiores editoras do mundo estão sem idéias, restando apenas revisitar histórias do passado e recicla-las o máximo possível. Exigir idéias originais é complicado de duas companhias que criaram um modelo de publicação que está quase esgotado. Na verdade, criaram dois modelos: as grandes sagas e as revistas mensais.

As grandes sagas são eventos criados únicos e exclusivamente para vender gibis e tentar alcançar o número 1 nas vendas da Diamond. Teoricamente tem a função de alterar toda a base da editora por anos a fio e ditar o futuro dela. Mas esse hábito se tornou tão banal que todo ano há uma grande saga. Os roteiristas não têm mais tempo hábil para absorver as mudanças e situarem seus personagens no novo status quo.

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As grandes sagas que antes tinham um papel essencial viraram apenas uma grande pastelaria. Tanto que a última saga REALMENTE relevante e marcante foi Guerra Civil da Marvel. Ela foi tão importante que a mesma servirá como base para a história do vindouro Capitão América 3, que chega aos cinemas em 2016.

Todo o resto foi composto de histórias que funcionariam como arcos em mensais e foram esticadas para virarem megassagas e para fazer tie-ins que em 95% do tempo são inúteis. E aí o ciclo continua sem parar, independente da editora.

As revistas mensais também estão se esgotando como modelo de negócio. Equipes criativas fixas dificilmente conseguem se manter por muito tempo. O roteirista normalmente é o que prevalece, mas o desenhista não consegue acompanhar. Muitas vezes uma história ruim é salva por uma arte maravilhosa, mas que desenhista consegue entregar uma arte top em ritmo mensal? São pouquíssimos.

Outro problema que gera catracas para histórias boas é… a cronologia.

A cronologia é importante para a editora? É.

Ela tem que ser seguida a risca? Não.

Nisso a Marvel leva um pouco de vantagem sobre a DC. Joe Quesada, um dos picas da Marvel, já cansou de cagar na cronologia em troca de boas histórias. E foi assim que nasceram grandes clássicos durante seu período como editor chefe: Homem de Ferro do Warren Ellis, Os Novos Vingadores por Brian Bendis, Os Supremos por Mark Millar entre outros.

O reboot da DC foi tão mal feito que já existe uma cronologia anterior ao reboot que faz parte do reboot. Mas o termo reboot não significa um recomeço?

Outro ponto a se observar: os gibis mais elogiados das duas editoras NÃO SEGUEM cronologias anteriores: Gavião Arqueiro de Matt Fraction, Mulher Maravilha de Brian Azzarello, Arqueiro Verde de Jeff Lemire, Demolidor do Mark Waid, Monstro do Pântano do Charles Soule, Thor do Jason Aaron e mais alguns.

O que todos esses gibis têm em comum? Os autores simplesmente contam as histórias que querem contar sem se preocupar com as anteriores. Vão lá e contam uma trama que funcionaria em qualquer época. E o melhor: tem um fim programado.

As duas editoras já perceberam que o caminho é esse e estão investindo mais nesse filão: a Marvel com Iron Fist do Kaare Andrews e Rocket Raccoon do Skottie Young e a DC com a nova fase da Batgirl do trio Cameron Stewart, Brenden Fletcher e Babs Tarr.

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Ou seguir o caminho de SAGA, de Brian K.Vaughan e Fiona Staples, o gibi mais premiado dos últimos anos e fazer algo simples: só lançar o gibi quando tiver um arco fechado. Isso mostra que houve planejamento e os artistas só entregaram o material com a certeza de que fizeram algo bom, e o melhor: mostra respeito ao leitor. A história não irá atrasar, a equipe criativa será a mesma e terá a certeza que eles se esforçaram para oferecer o melhor pra você.

O caminho é esse. Resta saber se as duas editoras irão perceber isso antes ou, assim como a cidade de São Paulo, vão esgotar tudo e torcer pra ajuda cair dos céus.

O jeito é esperar para ver.

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